(a partir de “insônia”)
Flávio Limoncic
Muito embora a semeadura, em abril, fosse época de muito trabalho, era na colheita, entre outubro e novembro, que o mundo girava em torno do milho. A prefeitura, agências bancárias, igrejas, escolas e clubes, mesmo os velórios, tudo exalava o cheiro das diferentes famílias de grãos, dos amassados aos encerados, passando pelos macios e os açucarados.
Para crianças e adolescentes, a coroação da rainha do milho era o ponto alto da estação. Ainda que sardas e pernas compridas fossem bastante apreciadas (servindo ocasionalmente como critérios de desempate), a competição era geralmente vencida pela menina cujos cabelos tivessem a cor mais próxima da de uma espiga. Numa das coroações, atrás da barraca de ponche, passou a mão no peito de um garota. Beijo na boca já tinha dado, na prima, muitos e intermináveis. Mão no peito, nunca. Quando quis descer a mão, coração a mil, a menina, qual mesmo o nome dela?, não deixou. Sonhou com ela durante meses. Nos sonhos, ela não só deixava, como até pedia.
A melhor estação do ano era o verão, com suas infinitas horas de luz e banhos de lago. Era quando as meninas tiravam seus casacos, luvas e cachecóis e era possível ver, ainda que por breves semanas, a textura das suas peles e a geometria dos seus corpos. O que não via, imaginava depois, sozinho, no banheiro. E foi no verão dos seus dezoito anos que o Pai o chamou para uma conversa. Pensou que fosse justamente falar de como, quando e o que com as garotas, mas não. Falou da fazenda, do amor que sentia pela terra, de como conhecia cada palmo da propriedade que pertencia à família desde que seus antepassados mataram ou expulsaram, ele não tinha bem certeza, o último dos Potawatomi. Um dia, a fazenda seria dele, precisava ter noção da luta que era para manter tudo funcionando, o silo, o trator, o depósito de combustível, os implementos, fertilizantes e defensivos, pois não bastava mais a um fazendeiro, em 1943, conhecer as estações do ano e o regime das chuvas, tinha também que saber dirigir, consertar equipamentos e manipular produtos químicos. E se não quisesse pôr tudo a perder, tinha, sobretudo, que dominar as quatro operações básicas, pois uma serpente traiçoeira, a quem só o cálculo impessoal interessava, rastejava à espreita, pronta para o bote: a Bumpbell’s. Desde que abrira um escritório na cidade, a Bumpbell's se tornara a única compradora de milho de toda aquela região do Meio-Oeste, impondo preços e arruinando fazendeiros. E, por trás da Bumpbell's, os especuladores da Bolsa, agentes hipotecários, fiscais sanitários, gerentes de banco, representantes comerciais e vendedores de seguro, católicos e judeus da Costa Leste todos eles, obcecados por manter os sapatos sempre limpos, sem vestígio de terra, estrangeiros ainda que nascidos no país, alcoólatras, coletivistas, comunistas e ateus, parasitas e criminosos de toda sorte. Por isso, mesmo os avós gostavam muito da coroação da rainha do milho. Por alguns dias, sentiam-se fazendeiros à moda antiga, inocentes de comércio, rifle numa das mãos, arado na outra. Americanos.
As pálpebras fechadas, se não foram garantia de sono, ao menos refletiram, como telas de cinema, cenas da vida de um garoto descobrindo o mundo. Agora, no entanto, às três da manhã, a cólica, daquelas em que o cocô fica girando desgovernado pelas curvas do intestino, trem cego na escuridão, torna dolorosa a vigília. E, como se não bastasse esvaziar-se por baixo, esvazia-se também por cima. Às três e trinta, vômito. Pingos de diarréia e de vômito em torno da privada. Não. Em todo o banheiro, mesmo longe da privada. Mesmo fora do banheiro, no longo caminho até a cama. Na cama. Em dezenas de camas do imenso dormitório.
Àquela altura, o que tinha de ser, estava feito. As semeaduras e colheitas, o que ficava entre, o que aprendera com o Pai a ser e a fazer no mundo, tudo é irrelevante. Só o futuro é importa. E, claro está, não o futuro de muitos anos, depois de incontáveis semeaduras e colheitas, tampouco o do médio prazo, do ser e fazer no mundo o aprendido com o Pai, mas o futuro das próximas horas, em que a ordem dos últimos meses - um presente pelos seus dezoito anos, enviado pelo Exército em forma de telegrama -, organizada em torno de normas e rotinas destituídas de sentido, dará lugar à ausência mesma de normas, à suspensão de todas as rotinas, ao território da mais completa falta de sentido.
É preciso, portanto, manter os olhos abertos, encarar de frente o que lhe está reservado: tem quase dezenove anos e, embora seja novamente verão, o de 1944, nenhuma menina o espera numa tarde ensolarada, na beira do lago, pronta para recebê-lo, mas morteiros e balas numa praia cinzenta da Normandia, cujo nome sequer conhece, mas cujo codinome, para o bem ou para o mal, sabe que entrará para a História: Omaha. Então, que esse verão sem sol e que Omaha e a História tomem todos bem no meio do olho do cú e, junto com eles, o Dia D e todos aqueles que acham que têm o direito de mandar nele, de gritar com ele, do presidente, que o Pai garante ser acionista da Bumpbell's, ao filho da puta do sargento, assim como suas respectivas e inteiras hierarquias civis e militares, e também quem fez a porra da meia que causou uma bolha no calcanhar, pois todos enchem a burra de grana, a Bumpbell’s e a fábrica de meias, mas quem vai se foder é ele, que sequer distingue o bigode de Stalin do de Hitler, que só entende de milho, que gostaria de entender de boceta (nem que apenas o básico), e de sentir de novo o gosto do chocolate quente, forma líquida que a Mãe encontrou para demonstrar algum afeto, e também de enfiar a língua na boca da prima até a garganta dela, pois desde que ela soube da história da mão no peito da outra garota nunca mais quis beijá-lo, mas tudo vai desaparecer, a Mãe, a garganta da prima e todas as bocetas do mundo, será que o babaca do cabo vai ter coragem de descer a rampa da embarcação-de-assalto?, isso é, não desaparecerão, a Mãe, a garganta e as bocetas, ele é que não vai mais estar no mundo para tentar abraçá-la, tocar-lhe com a língua e enfiar-se nelas, assim como para desvendar o grande mistério que o assombra desde que seus pentelhos cresceram e que consiste em saber se meninas também têm pentelhos e, se tiverem, se são da mesma cor dos cabelos, porque se forem, a menina em cujos peitos passou a mão na coroação da rainha do milho tem pentelhos mais vermelhos do que um cravo. O soldado da terceira cama do lado esquerdo aperta um crucifixo. Será que o Pai estava errado quando disse que o Papa é o maior fomentador de guerras?
Quatro horas: toque de despertar. Quatro e trinta: ordem unida. Cinco horas: embarque. Garganta e olhos ardem, merda e vômito transbordam, o suor transborda, tudo-transborda-ao-mesmo-tempo-por-todos-os-buracos, mijo inclusive. Pelo menos o pau está quentinho. Será que dentro de uma menina é assim, molhado e quentinho? Talvez nunca saiba.
O que sabe é que, na remota hipótese de sua sobrevivência, os cheiros de urina, fezes, suor e vômito vão se amalgamar aos de pólvora, querosene e sangue para produzir o odor que trará para sempre consigo, que nem água sanitária será capaz de combater e que o obrigará a conviver, em arriscada proximidade, com o espectro da própria morte.