sábado, 25 de maio de 2013


o estranho
(tema: Insônia)
Robson Aguiar

Desiste de tentar dormir e levanta-se. Sente o corpo moído, cansado dos dias trabalhados a mais. Afasta com delicadeza o lençol, tentando não despertar a mulher. Passa pela sala e observa as cachorras em suas camas de patchwork. Acaricia suas barrigas com os pés e as bichinhas se refestelam. Tenta recordar a última vez que as levara pra passear.

Chega à cozinha, abre a torneira do filtro e observa a água pingar do filtro de marca exótica, comprado no canal de compras da televisão. Ou teria sido no site de compras coletivas? Não se lembra. Na verdade, não sabe. Perguntaria depois à mulher. Há quanto tempo aquela vela não era trocada? Precisava descobrir.

Volta e pára em frente ao quarto da filha. Ouve um ronronar suave. Entra, acomoda-se à beira da cama e observa. Acaricia seus cachos negros, quase com medo. (O que diria, deus, se acordasse?) Admira a beleza juvenil da menina, o viço sedutor da adolescência. Sobre a mesa de estudo, fotos organizadas em um quadro metálico. Ilumina com o celular, tenta identificar os amigos da garota. Não reconhece mais aqueles rostos. Estaria sua filha namorando algum daqueles meninos? Distrai-se, tentando adivinhar o tom pastel das paredes, algo entre o azul e o verde....



Resolve ir à varanda, contar as janelas iluminadas da madrugada. São poucas, e o movimento quase nenhum.... Uma ou outra tela de computador acesa, contatos virtuais em frenesi. Imagina o sono daquelas pessoas no dia seguinte, zumbis urbanos movidos a café, guaraná natural e outros estimulantes sintéticos. Pensa que elas deveriam dormir, e imediatamente se dá conta de que falta muito pouco para amanhecer.

Volta à cama e observa a mulher sob o lençol semitransparente. Admira seu rosto, lembra de sua beleza. Acaricia a pele, afaga coxas e bunda, sente vontade de dizer que a ama, de tocá-la intimamente. Não demora muito a perceber que não era ocasião de resgatar os muitos anos de vida esquecida. Afasta-se, ocupa seu lado na enorme cama king size e puxa o caderno de esportes da pilha dos jornais não lidos.

Logo abandona o jornal e abre o computador portátil. Ao navegar em uma de suas redes sociais, se depara com inúmeras mensagens que ensinam como se portar e conduzir a vida. (No colorido das imagens e dos textos, viver nem parece ser assim tão difícil). Fecha a máquina e pensa no que ainda lhe resta. Com o quê, afinal, poderia contar? Por ora, apenas a certeza de não dispor de muito, a insônia persistente, e a impressão de estar sempre à margem do fio da meada.

Rio de Janeiro, 23-24/maio/2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A mais longa das noites


(a partir de “insônia”)
Flávio Limoncic


Muito embora a semeadura, em abril, fosse época de muito trabalho, era na colheita, entre outubro e novembro, que o mundo girava em torno do milho. A prefeitura, agências bancárias, igrejas, escolas e clubes, mesmo os velórios, tudo exalava o cheiro das diferentes famílias de grãos, dos amassados aos encerados, passando pelos macios e os açucarados. 

Para crianças e adolescentes, a coroação da rainha do milho era o ponto alto da estação. Ainda que sardas e pernas compridas fossem bastante apreciadas (servindo ocasionalmente como critérios de desempate), a competição era geralmente vencida pela menina cujos cabelos tivessem a cor mais próxima da de uma espiga. Numa das coroações, atrás da barraca de ponche, passou a mão no peito de um garota. Beijo na boca já tinha dado, na prima, muitos e intermináveis. Mão no peito, nunca. Quando quis descer a mão, coração a mil, a menina, qual mesmo o nome dela?, não deixou. Sonhou com ela durante meses. Nos sonhos, ela não só deixava, como até pedia. 

A melhor estação do ano era o verão, com suas infinitas horas de luz e banhos de lago. Era quando as meninas tiravam seus casacos, luvas e cachecóis e era possível ver, ainda que por breves semanas, a textura das suas peles e a geometria dos seus corpos. O que não via, imaginava depois, sozinho, no banheiro. E foi no verão dos seus dezoito anos que o Pai o chamou para uma conversa. Pensou que fosse justamente falar de como, quando e o que com as garotas, mas não. Falou da fazenda, do amor que sentia pela terra, de como conhecia cada palmo da propriedade que pertencia à família desde que seus antepassados mataram ou expulsaram, ele não tinha bem certeza, o último dos Potawatomi. Um dia, a fazenda seria dele, precisava ter noção da luta que era para manter tudo funcionando, o silo, o trator, o depósito de combustível, os implementos, fertilizantes e defensivos, pois não bastava mais a um fazendeiro, em 1943, conhecer as estações do ano e o regime das chuvas, tinha também que saber dirigir, consertar equipamentos e manipular produtos químicos. E se não quisesse pôr tudo a perder, tinha, sobretudo, que dominar as quatro operações básicas, pois uma serpente traiçoeira, a quem só o cálculo impessoal interessava, rastejava à espreita, pronta para o bote: a Bumpbell’s. Desde que abrira um escritório na cidade, a Bumpbell's se tornara a única compradora de milho de toda aquela região do Meio-Oeste, impondo preços e arruinando fazendeiros. E, por trás da Bumpbell's, os especuladores da Bolsa, agentes hipotecários, fiscais sanitários,  gerentes de banco, representantes comerciais e vendedores de seguro, católicos e judeus da Costa Leste todos eles, obcecados por manter os sapatos sempre limpos, sem vestígio de terra, estrangeiros ainda que nascidos no país, alcoólatras, coletivistas, comunistas e ateus, parasitas e criminosos de toda sorte. Por isso, mesmo os avós gostavam muito da coroação da rainha do milho. Por alguns dias, sentiam-se fazendeiros à moda antiga, inocentes de comércio, rifle numa das mãos, arado na outra. Americanos.  

As pálpebras fechadas, se não foram garantia de sono, ao menos refletiram, como telas de cinema, cenas da vida de um garoto descobrindo o mundo. Agora, no entanto, às três da manhã, a cólica, daquelas em que o cocô fica girando desgovernado pelas curvas do intestino, trem cego na escuridão, torna dolorosa a vigília. E, como se não bastasse esvaziar-se por baixo, esvazia-se também por cima. Às três e trinta, vômito. Pingos de diarréia e de vômito em torno da privada. Não. Em todo o banheiro, mesmo longe da privada. Mesmo fora do banheiro, no longo caminho até a cama. Na cama. Em dezenas de camas do imenso dormitório. 

Àquela altura, o que tinha de ser, estava feito. As semeaduras e colheitas, o que ficava entre, o que aprendera com o Pai a ser e a fazer no mundo, tudo é irrelevante. Só o futuro é importa. E, claro está, não o futuro de muitos anos, depois de incontáveis semeaduras e colheitas, tampouco o do médio prazo, do ser e fazer no mundo o aprendido com o Pai, mas o futuro das próximas horas, em que a ordem dos últimos meses - um presente pelos seus dezoito anos, enviado pelo Exército em forma de telegrama -, organizada em torno de normas e rotinas destituídas de sentido, dará lugar à ausência mesma de normas, à suspensão de todas as rotinas, ao território da mais completa falta de sentido. 

É preciso, portanto, manter os olhos abertos, encarar de frente o que lhe está reservado: tem quase dezenove anos e, embora seja novamente verão, o de 1944, nenhuma menina o espera numa tarde ensolarada, na beira do lago, pronta para recebê-lo, mas morteiros e balas numa praia cinzenta da Normandia, cujo nome sequer conhece, mas cujo codinome, para o bem ou para o mal, sabe que entrará para a História: Omaha. Então, que esse verão sem sol e que Omaha e a História tomem todos bem no meio do olho do cú e, junto com eles, o Dia D e todos aqueles que acham que têm o direito de mandar nele, de gritar com ele, do presidente, que o Pai garante ser acionista da Bumpbell's, ao filho da puta do sargento, assim como suas respectivas e inteiras hierarquias civis e militares, e também quem fez a porra da meia que causou uma bolha no calcanhar, pois todos enchem a burra de grana, a Bumpbell’s e a fábrica de meias, mas quem vai se foder é ele, que sequer distingue o bigode de Stalin do de Hitler, que só entende de milho, que gostaria de entender de boceta (nem que apenas o básico), e de sentir de novo o gosto do chocolate quente, forma líquida que a Mãe encontrou para demonstrar algum afeto, e também de enfiar a língua na boca da prima até a garganta dela, pois desde que ela soube da história da mão no peito da outra garota nunca mais quis beijá-lo, mas tudo vai desaparecer, a Mãe, a garganta da prima e todas as bocetas do mundo, será que o babaca do cabo vai ter coragem de descer a rampa da embarcação-de-assalto?, isso é, não desaparecerão, a Mãe, a garganta e as bocetas, ele é que não vai mais estar no mundo para tentar abraçá-la, tocar-lhe com a língua e enfiar-se nelas, assim como para desvendar o grande mistério que o assombra desde que seus pentelhos cresceram e que consiste em saber se meninas também têm pentelhos e, se tiverem, se são da mesma cor dos cabelos, porque se forem, a menina em cujos peitos passou a mão na coroação da rainha do milho tem pentelhos mais vermelhos do que um cravo. O soldado da terceira cama do lado esquerdo aperta um crucifixo. Será que o Pai estava errado quando disse que o Papa é o maior fomentador de guerras?

Quatro horas: toque de despertar. Quatro e trinta: ordem unida. Cinco horas: embarque. Garganta e olhos ardem, merda e vômito transbordam, o suor transborda, tudo-transborda-ao-mesmo-tempo-por-todos-os-buracos, mijo inclusive. Pelo menos o pau está quentinho. Será que dentro de uma menina é assim, molhado e quentinho? Talvez nunca saiba. 

O que sabe é que, na remota hipótese de sua sobrevivência, os cheiros de urina, fezes, suor e vômito vão se amalgamar aos de pólvora, querosene e sangue para produzir o odor que trará para sempre consigo, que nem água sanitária será capaz de combater e que o obrigará a conviver, em arriscada proximidade, com o espectro da própria morte. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Epifania


Conto alterado de acordo de acordo com sugestões da aula passada: 

Do jardim fértil, novas vidas eram geradas, vidas que brotavam para trazer novas vidas a rodeá-lo. No mesmo gramado, bebês engatinhavam onde mais tarde caminhariam de braços enlaçados, e então, trariam seus bebês para engatinhar, os mesmos que acompanhariam seus pais algum dia nos passeios matinais, num ciclo sem fim.

Helena não era parte de nenhuma daquelas histórias. Há 20 anos observava o jardim. Acompanhava  as histórias em pedaços contadas ali para depois embrenhar-se em cada uma delas, imaginando suas continuações. Contava e recontava para si mesma a vida daquelas pessoas, como se estivesse vivendo a sua própria. 

Única filha entre 4 irmãos, Helena cuidara da mãe durante aqueles 20 anos todos os dias, todas as horas e todos os minutos tirando os em que descia para o jardim. A doença a cada dia roubava um pouquinho da memória da mãe, de modo que pouco a pouco filha virava mãe que virava um corpo oco. As duas cada dia mais ocas: a mãe que perdia a memória e a filha não construía nenhuma, solidária. Sua função única era acompanhar a mãe desaparecer, cada dia mais, até virar um fantasma a vagar pela casa assombrada. Assombrada um pouco por medo da morte, mas principalmente por medo da vida. 

Naquele domingo inédito, Helena não seria plateia no palco-jardim. Só precisava de um banco e uma árvore para esconder seu rosto na sombra. A mulher chorava compulsivamente. Revivia na memória a mesma cena diversas e diversas vezes: o corpo de sua mãe sendo sugado para dentro da terra em um jardim ao revés.

Iam embora com ela os dias de chuva que ensolaravam-se em segundos quando de repente a mãe contava, depois de dias e dias em silêncio, do vestido que Helena usara no primeiro dia de aula. Iam embora com ela as noites que varou, os gritos que abafou para não acordar os vizinhos, cada vitória sobre a doença e cada derrota. Iam embora com ela suas histórias, seus sonhos, suas broncas, suas lágrimas.

Começou a sentir a saudade entalada em sua garganta subindo, virando angústia, pânico, falta de ar, e uma ânsia incontrolável a fez vomitar. Ninguém teria visto a cena se não fosse por um homem que a observava de longe há alguns minutos. João se levantou, andou ate ela e lhe ofereceu um lenço e um sorriso.

A história de João estava ligada a cada flor, borboleta e árvore do jardim. Conhecera a esposa na infância. Brincaram ali, ele, Vera e os amigos, de pique-esconde. Vera era a sempre a primeira a ser encontrada, mas João não a deixava perder. Ficava no pique em seu lugar, de olhos fechados contando, enquanto as crianças se escondiam novamente.

Os dois começaram a namorar muito jovens, e ficaram noivos por longos anos até terem condição de se responsabilizarem por suas próprias vidas. O casamento foi festejado no jardim, logo depois da cerimônia na igreja próxima. Não demorou até nascerem os meninos, que cresceram saudáveis e felizes, tão rápido como João ou Vera jamais teriam previsto.

Nos últimos anos viviam juntos apenas os três na mesma casa de tantos anos. João, Vera e o raro tipo de amor que os unia, lapidado a cada dia pela erosão do tempo. Quando a escultura finalmente ficou pronta, o tempo julgou ser hora de levar um deles, e escolheu Vera. Dali em diante, João parou de viver por meses, até aquele domingo.

O domingo em que ele e Helena se viram pela primeira, e pela última vez. Conversaram por muitas horas até a noite cair. E inspirados pela luz das estrelas vinda de longe para desenhar, no momento exato, um céu planejado há milhares de anos, convidaram-se para dançar. E embora nenhum dos dois tivesse dançado antes em um jardim observados pelo céu estrelado, souberam exatamente o que fazer naquela noite. E em todas as outras subsequentes.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O amor de Luisa


Quando o casamento de Luisa acabou, há quase dez anos, descobriu que era forte o suficiente para superar a traição, a humilhação e uma mágoa profunda. Mas fraquejou ao lidar com o fracasso no amor, afinal, acreditava ser para a vida toda. Um ano depois da separação, sentia que era o momento de tentar de novo, hora de redescobrir o sentimento que a apunhalou pelas costas.


Nessa nova etapa, Luisa quebra a cara algumas vezes e chega até a se relacionar com Marcos, um homem interessante, mas que não a atrai. Apesar disso, tenta se apaixonar, pois acredita ser possível treinar o coração para amar novamente. Não dá certo e, mais uma vez, se magoa e machuca outra pessoa. O que não esperava é que esse cara lhe daria o maior de todos os conselhos: “Não existe ninguém perfeito e, se continuar acreditando nisso, passará o resto da vida procurando alguém que não existe”.

Depois do alerta, recebeu outro conselho de Chico, um colega de trabalho. Devia abandonar os livros de auto-ajuda no amor, levantar a cabeça e acreditar no próprio potencial de ser feliz. Dias depois, o colega enviou uma agenda telefônica e um bilhete que dizia: “Fiquei revoltado. Como pode uma garota como você ficar de baixo-astral e (argh!) estar lendo livros de auto-ajuda? Você não deveria ler sobre planetas distantes (Marte e Vênus), sobre polvos, cobras e lagartos. Nos momentos em que precisasse de um ombro, deveria apenas pegar seu caderninho de telefones e escolher o nome da vez”.

Além do caderninho que Chico, como patrocinador, fez questão de preencher todas as letras com o próprio nome, ainda lhe deu um livro sobre as paixões com uma dedicatória especial: “A paixão é um sentimento que tanto nos eleva como nos derruba. Curtir uma grande paixão é sempre muito bom, mas ‘descurti-la’, quando tudo termina, é melhor. Apesar de tudo, o mundo ainda merece continuar vendo o sorriso no seu rosto”. As lágrimas presas há tempos se libertaram.    

Luisa sentiu um estalo. Chico estava certo. Era preciso coragem para seguir em frente. E foi revirando suas lembranças, depositadas em uma caixinha de recordações, que Luisa encontrou cartas, cartões, memórias. Veio à cabeça a saudosa lembrança de amigos, ex-namorados, da família... Um turbilhão de momentos inesquecíveis que adormeceram no tempo. É o caso do cartão postal enviado de Paris pela amiga Clarisse que, além de mostrar a luz da cidade e do amor que estava vivendo, pedia para a amiga se cuidar. “De vez em quando perca o juízo, mas nunca deixe de ter amor próprio”.

A madrugada avança e Luisa mergulha na caixinha.  Lembranças que a inspiram e ajudam a entender mais sobre o amor. Ri de si mesma, da tolice de ter esquecido que não há amor maior do que se olhar no espelho. Fez isso longamente, até se perder entre risos, choro e recordações. Finalmente, Luisa reencontra o amor. E, desde então, procura cultivá-lo todos os dias à frente do espelho. O amor próprio foi o maior presente que podia se dar. Adormeceu criança, acordou nova mulher.

Nos meses seguintes, Luisa saiu da toca inúmeras vezes. Até que certa noite convidou-se para jantar em um bom restaurante italiano. Deliciou-se com massa e uma generosa taça de vinho. A bebida ajudou a relaxar, rir de si mesma, fazer amizade com o garçom. Distraída em pensamentos, devaneios e na satisfação do momento, Luisa é bruscamente despertada pelo garçom ao lhe entregar um bilhete: “vejo que está em boa companhia, posso acompanhá-la no café?”.        

Regina Rozin
(Uma história de amor)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Amores cruzados



(a partir de “uma história de amor”)
Flávio Limoncic  


Feivel foi se fazendo necessário aos poucos. No início, levava apenas água. Depois, lenha e comida. Também começou a fazer pequenos reparos no telhado. Quando Nadia deu por si, já não   sobreviveria ao inverno sem ele. Por isso, e porque eram nove horas e ele não aparecia e sobre a mesa só restava um pedaço de moela, teve que se controlar para não cair em desespero. 


Cerca de dois meses antes, ele pedira para passar a noite. Nevava muito e ela não teve como recusar. Abraçou o filho na cama estreita, ao passo que ele se deitou no chão. Após alguns instantes, uma respiração ofegante cortou o silêncio. Ela se agarrou ao filho, coração na boca, olhos atentos na escuridão. Não trocaram palavra, mas o ritual repetiu-se algumas vezes, até que uma noite ela também ofegou. Pensando-se desejado, Feivel se lançou sobre ela, mas foi rejeitado com vigor. Confuso e humilhado, recolheu-se e partiu sem nada dizer.  

Não apareceu nas semanas seguintes. Além de cuidar do bebê, Nadia teve que colher ovos, supervisionar armadilhas de coelhos e buscar lenha e água. Seus dedos ficaram feridos, o nariz sangrava, as costas doíam. Rezou para que ele voltasse.  

Ele voltou, mas exigiu seios, coxas e pelos. O preço, alto, foi pago sem regateio, mas de olhos fechados. Nadia aguardou a curra. Nada aconteceu. Abriu os olhos. A um canto, costas contra a parede, Feivel se esfregava com a mão fria. Dois dias depois, quando voltou, Nadia tirou o avental antes mesmo que ele pedisse, pensando que um novo ritual havia se estabelecido. Estava enganada: desviando o olhar e mandando-a se vestir, Feivel pediu perdão e, de forma confusa e atabalhoada, declarou o seu amor. 

A princípio, Nadia sentiu repulsa. Não por muito tempo, pois ali estava ele, tão esquecido pelo mundo quanto ela. A verdade é que se ele se aproveitara da sua situação, também expusera, e de forma ainda mais humilhante, sua completa destituição de tudo. Não menos importante, ao contrário do Conde, que a violentara através de outros homens, ele utilizara apenas seus olhos e sua mão. Enfim, apesar de tudo, cuidava dela e de seu filho com zelo e precisão. Diante das circunstâncias, o que mais poderia pedir? 

Apenas uma coisa: que ele lesse o bilhete deixado por Leizer. Poderia até aceitá-lo em sua cama, quem sabe se afeiçoar a ele, mas precisava saber a razão pela qual havia sido abandonada, pois se recusava a aceitar que Leizer fugira por ter-lhe feito um filho. Feivel hesitou. Depois, leu o bilhete uma, duas, três vezes para si próprio. Por fim, leu em voz alta: 

Meu pai, 
Esta é Nadia, que traz meu filho na barriga. Não peço que os ame, apenas que cuide deles na minha ausência. Volto para buscá-los quando houver encontrado uma vida melhor para todos nós. Leizer  


Então Leizer os amava, desafiava o mundo para resgatá-los daquele pedaço de fim-de-mundo! Nadia abraçou o bebê, sentindo que a ordem natural das coisas, temporariamente suspensa, fora restabelecida. A felicidade plena, porém, logo se fez acompanhar pela consciência da fragilidade sobre a qual se baseiam as coisas da vida, pois teria bastado a Feivel omitir ou acrescentar algumas palavras para que toda a sua ordem, por mais natural que lhe parecesse, ruísse.  


Nadia sabia existirem muitos homens capazes de amor e arrependimento. De um ato de renúncia, poucos. E um deles estava bem à sua frente, olhando-a com olhos tristes. 

Aproximou-se dele e beijou-o na face. Depois, peça por peça, despiu-se em silêncio, vagarosamente, até ficar completamente nua. Trêmulo de emoção, Feivel precisou, como um menino, de ajuda para abaixar as calças. Ela o abraçou, envolvendo-o. Delicadamente de início, depois com uma audácia de que não se sabia capaz, Feivel cobriu-a de beijos e carícias, na ânsia de abarcá-la toda ao mesmo tempo e por todos os lados. Ao menos uma vez a teria, pernas abertas para ele, e ele, para quem nenhuma mulher jamais abrira as pernas, que sequer os braços abrira, viveria o momento da sua vida, desejando, a um só tempo e com a mesma urgência, o que sabia impossível: regá-la abundantemente com seu sêmen e evitar para sempre o gozo, pois quando este chegasse, tudo acabaria.


O bebê chorava, assustado com o barulho e o movimento. Feivel, esgotado, sentou-se por alguns instantes perto do fogão. Quando se recobrou, perguntou a Nadia, que amamentava o filho, o que era preciso providenciar para dali a dois dias.

Apesar do frio, Nadia abriu a porta, tentando adivinhar a silhueta de Feivel recortada na noite escura. Nove e meia. Desapontada, olhou para o chão. Foi quando viu, do lado esquerdo da porta, a cesta com água, lenha e codornas. 


Não tornariam a se ver até o fim do inverno, mas ele a manteve alimentada e aquecida até a chegada da primavera.