Quando
o casamento de Luisa acabou, há quase dez anos, descobriu que era forte o
suficiente para superar a traição, a humilhação e uma mágoa profunda. Mas fraquejou
ao lidar com o fracasso no amor, afinal, acreditava ser para a vida toda. Um
ano depois da separação, sentia que era o momento de tentar de novo, hora de redescobrir
o sentimento que a apunhalou pelas costas.
Nessa
nova etapa, Luisa quebra a cara algumas vezes e chega até a se relacionar com Marcos,
um homem interessante, mas que não a atrai. Apesar disso, tenta se apaixonar,
pois acredita ser possível treinar o coração para amar novamente. Não dá certo
e, mais uma vez, se magoa e machuca outra pessoa. O que não esperava é que esse
cara lhe daria o maior de todos os conselhos: “Não existe ninguém perfeito e,
se continuar acreditando nisso, passará o resto da vida procurando alguém que
não existe”.
Depois
do alerta, recebeu outro conselho de Chico, um colega de trabalho. Devia
abandonar os livros de auto-ajuda no amor, levantar a cabeça e acreditar no
próprio potencial de ser feliz. Dias depois, o colega enviou uma agenda
telefônica e um bilhete que dizia: “Fiquei revoltado. Como pode uma garota como
você ficar de baixo-astral e (argh!) estar lendo livros de auto-ajuda? Você não
deveria ler sobre planetas distantes (Marte e Vênus), sobre polvos, cobras e
lagartos. Nos momentos em que precisasse de um ombro, deveria apenas pegar seu
caderninho de telefones e escolher o nome da vez”.
Além
do caderninho que Chico, como patrocinador, fez questão de preencher todas as
letras com o próprio nome, ainda lhe deu um livro sobre as paixões com uma
dedicatória especial: “A paixão é um sentimento que tanto nos eleva como nos
derruba. Curtir uma grande paixão é sempre muito bom, mas ‘descurti-la’, quando
tudo termina, é melhor. Apesar de tudo, o mundo ainda merece continuar vendo o
sorriso no seu rosto”. As
lágrimas presas há tempos se libertaram.
Luisa
sentiu um estalo. Chico estava certo. Era preciso coragem para seguir em
frente. E foi revirando suas lembranças, depositadas em uma caixinha de
recordações, que Luisa encontrou cartas, cartões, memórias. Veio à cabeça a
saudosa lembrança de amigos, ex-namorados, da família... Um turbilhão de
momentos inesquecíveis que adormeceram no tempo. É o caso do cartão postal
enviado de Paris pela amiga Clarisse que, além de mostrar a luz da cidade e do
amor que estava vivendo, pedia para a amiga se cuidar. “De vez em quando perca
o juízo, mas nunca deixe de ter amor próprio”.
A
madrugada avança e Luisa mergulha na caixinha. Lembranças que a inspiram e ajudam a entender
mais sobre o amor. Ri de si mesma, da tolice de ter esquecido que não há amor maior
do que se olhar no espelho. Fez isso longamente, até se perder entre risos,
choro e recordações. Finalmente, Luisa reencontra o amor. E, desde então, procura
cultivá-lo todos os dias à frente do espelho. O amor próprio foi o maior presente
que podia se dar. Adormeceu criança, acordou nova mulher.
Nos
meses seguintes, Luisa saiu da toca inúmeras vezes. Até que certa noite convidou-se
para jantar em um bom restaurante italiano. Deliciou-se com massa e uma
generosa taça de vinho. A bebida ajudou a relaxar, rir de si mesma, fazer
amizade com o garçom. Distraída em pensamentos, devaneios e na satisfação do
momento, Luisa é bruscamente despertada pelo garçom ao lhe entregar um bilhete:
“vejo que está em boa companhia, posso acompanhá-la no café?”.
Regina
Rozin
(Uma história de amor)
Regina gostei do conto! Gostei muito! Super interessante! Amor proprio. Ultra criativo e verdadeiro. Alias, ADOREI o final! Meus parabens!
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