segunda-feira, 6 de maio de 2013

O amor de Luisa


Quando o casamento de Luisa acabou, há quase dez anos, descobriu que era forte o suficiente para superar a traição, a humilhação e uma mágoa profunda. Mas fraquejou ao lidar com o fracasso no amor, afinal, acreditava ser para a vida toda. Um ano depois da separação, sentia que era o momento de tentar de novo, hora de redescobrir o sentimento que a apunhalou pelas costas.


Nessa nova etapa, Luisa quebra a cara algumas vezes e chega até a se relacionar com Marcos, um homem interessante, mas que não a atrai. Apesar disso, tenta se apaixonar, pois acredita ser possível treinar o coração para amar novamente. Não dá certo e, mais uma vez, se magoa e machuca outra pessoa. O que não esperava é que esse cara lhe daria o maior de todos os conselhos: “Não existe ninguém perfeito e, se continuar acreditando nisso, passará o resto da vida procurando alguém que não existe”.

Depois do alerta, recebeu outro conselho de Chico, um colega de trabalho. Devia abandonar os livros de auto-ajuda no amor, levantar a cabeça e acreditar no próprio potencial de ser feliz. Dias depois, o colega enviou uma agenda telefônica e um bilhete que dizia: “Fiquei revoltado. Como pode uma garota como você ficar de baixo-astral e (argh!) estar lendo livros de auto-ajuda? Você não deveria ler sobre planetas distantes (Marte e Vênus), sobre polvos, cobras e lagartos. Nos momentos em que precisasse de um ombro, deveria apenas pegar seu caderninho de telefones e escolher o nome da vez”.

Além do caderninho que Chico, como patrocinador, fez questão de preencher todas as letras com o próprio nome, ainda lhe deu um livro sobre as paixões com uma dedicatória especial: “A paixão é um sentimento que tanto nos eleva como nos derruba. Curtir uma grande paixão é sempre muito bom, mas ‘descurti-la’, quando tudo termina, é melhor. Apesar de tudo, o mundo ainda merece continuar vendo o sorriso no seu rosto”. As lágrimas presas há tempos se libertaram.    

Luisa sentiu um estalo. Chico estava certo. Era preciso coragem para seguir em frente. E foi revirando suas lembranças, depositadas em uma caixinha de recordações, que Luisa encontrou cartas, cartões, memórias. Veio à cabeça a saudosa lembrança de amigos, ex-namorados, da família... Um turbilhão de momentos inesquecíveis que adormeceram no tempo. É o caso do cartão postal enviado de Paris pela amiga Clarisse que, além de mostrar a luz da cidade e do amor que estava vivendo, pedia para a amiga se cuidar. “De vez em quando perca o juízo, mas nunca deixe de ter amor próprio”.

A madrugada avança e Luisa mergulha na caixinha.  Lembranças que a inspiram e ajudam a entender mais sobre o amor. Ri de si mesma, da tolice de ter esquecido que não há amor maior do que se olhar no espelho. Fez isso longamente, até se perder entre risos, choro e recordações. Finalmente, Luisa reencontra o amor. E, desde então, procura cultivá-lo todos os dias à frente do espelho. O amor próprio foi o maior presente que podia se dar. Adormeceu criança, acordou nova mulher.

Nos meses seguintes, Luisa saiu da toca inúmeras vezes. Até que certa noite convidou-se para jantar em um bom restaurante italiano. Deliciou-se com massa e uma generosa taça de vinho. A bebida ajudou a relaxar, rir de si mesma, fazer amizade com o garçom. Distraída em pensamentos, devaneios e na satisfação do momento, Luisa é bruscamente despertada pelo garçom ao lhe entregar um bilhete: “vejo que está em boa companhia, posso acompanhá-la no café?”.        

Regina Rozin
(Uma história de amor)

Um comentário:

  1. Regina gostei do conto! Gostei muito! Super interessante! Amor proprio. Ultra criativo e verdadeiro. Alias, ADOREI o final! Meus parabens!

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