o estranho
(tema:
Insônia)
Robson
Aguiar
Desiste
de tentar dormir e levanta-se. Sente o corpo moído, cansado dos dias
trabalhados a mais. Afasta com delicadeza o lençol, tentando não despertar a
mulher. Passa pela sala e observa as cachorras em suas camas de patchwork. Acaricia suas barrigas com os
pés e as bichinhas se refestelam. Tenta recordar a última vez que as levara pra
passear.
Chega
à cozinha, abre a torneira do filtro e observa a água pingar do filtro de marca
exótica, comprado no canal de compras da televisão. Ou teria sido no site de
compras coletivas? Não se lembra. Na verdade, não sabe. Perguntaria depois à
mulher. Há quanto tempo aquela vela não era trocada? Precisava descobrir.
Volta
e pára em frente ao quarto da filha. Ouve um ronronar suave. Entra, acomoda-se
à beira da cama e observa. Acaricia seus cachos negros, quase com medo. (O que
diria, deus, se acordasse?) Admira a beleza juvenil da menina, o viço sedutor
da adolescência. Sobre a mesa de estudo, fotos organizadas em um quadro metálico.
Ilumina com o celular, tenta identificar os amigos da garota. Não reconhece mais
aqueles rostos. Estaria sua filha namorando algum daqueles meninos? Distrai-se,
tentando adivinhar o tom pastel das paredes, algo entre o azul e o verde....
Resolve
ir à varanda, contar as janelas iluminadas da madrugada. São poucas, e o
movimento quase nenhum.... Uma ou outra tela de computador acesa, contatos
virtuais em frenesi. Imagina o sono daquelas pessoas no dia seguinte, zumbis
urbanos movidos a café, guaraná natural e outros estimulantes sintéticos. Pensa
que elas deveriam dormir, e imediatamente se dá conta de que falta muito pouco
para amanhecer.
Volta
à cama e observa a mulher sob o lençol semitransparente. Admira seu rosto, lembra
de sua beleza. Acaricia a pele, afaga coxas e bunda, sente vontade de dizer que
a ama, de tocá-la intimamente. Não demora muito a perceber que não era ocasião
de resgatar os muitos anos de vida esquecida. Afasta-se, ocupa seu lado na enorme
cama king size e puxa o caderno de esportes
da pilha dos jornais não lidos.
Logo
abandona o jornal e abre o computador portátil. Ao navegar em uma de suas redes
sociais, se depara com inúmeras mensagens que ensinam como se portar e conduzir
a vida. (No colorido das imagens e dos textos, viver nem parece ser assim tão difícil).
Fecha a máquina e pensa no que ainda lhe resta. Com o quê, afinal, poderia
contar? Por ora, apenas a certeza de não dispor de muito, a insônia persistente,
e a impressão de estar sempre à margem do fio da meada.
Rio de
Janeiro, 23-24/maio/2013
Nenhum comentário:
Postar um comentário