terça-feira, 4 de junho de 2013

Insonia- modificado conforme aula de 23/05

INSONIA - modificado
Betina Lima Niemeyer

Era um beco asfaltado e um tipo de neblina impedia-me de enxergar o que havia em torno, talvez edifícios pequenos, não sei, o que sei é que o lugar estava deserto, mas eu sentia a presença de alguém pelo calor que esta presença transmitia. A neblina deixava tudo confuso, mesmo assim, eu consegui ver, na minha frente, duas mãos e, como se fosse em câmara lenta, as mãos foram subindo até a altura do meu rosto, envolveram meu pescoço suavemente e aos poucos começaram a apertar com força minha garganta, com tanta força, que eu não consegui mais respirar.
Tossindo, sufocado e com o coração aos pulos, acordei. Sentei na cama e fiquei alguns segundos paralisado, zonzo de pavor e grudando de suor. Mais uma vez, era o pesadelo, que vinha em versões diferentes: Ora era a chave de casa que eu procurava, mas não achava, ora era um telefone que eu precisava usar, mas não conseguia mover os dedos. O que os pesadelos tinham em comum era que eu sempre acordava e não conseguia dormir novamente. Acendi a luz da cabeceira e resolvi beber agua na cozinha. No caminho, passei pelo quarto da minha irmã, que dormia de boca aberta. Parei na porta e senti inveja dela, inveja daquele sono profundo, pensei em como a vida devia ser fácil de ser vivida e dormida quando se tem certezas!
Enquanto eu bebia vagarosamente o copo d’água, pensava em cada um dos quatro habitantes daquela casa. Meu pai, o engenheiro que raramente estava em casa, mas quando estava era distante e frio, minha mãe, a médica sempre ocupada com plantões e consultório, minha irmã, uma pessoa objetiva e direcionada que, ainda criança, tinha um quadro negro e alunos (eu e as bonecas) para quem ela dava aulas. E a família completava-se comigo: O estrangeiro dentro da própria casa, aquele que precisava decidir que curso universitário iria fazer. Eu; o cara que sempre odiou tudo que dizia respeito às matérias escolares, eu; que gastava horas esboçando desenhos, eu; com minhas espinhas, minha introversão, o skate e os grafites solitários pela cidade, que meu pai, com o olhar indiferente por trás do jornal, um dia classificou como: “coisa de bandido, de vagabundo que não deu pra nada na vida”.
Em pé na cozinha, voltei a pensar no pesadelo e, subitamente, me veio à boca um amargor que misturava fracasso com inadequação, naquele instante, pesou dentro de mim uma impressão de estar vivendo a época errada no lugar errado. Ao mesmo tempo, tive a certeza de que as paredes do apartamento se aproximavam e iriam espremer meu corpo, lentamente. Sem raciocinar, sai porta afora e só consegui respirar de novo quando já estava na rua, cruzei a avenida e encontrei a praça, um lugar querido da minha infância. Sentei-me num dos bancos e o ar limpo me encheu os pulmões, olhei em volta e o lugar estava quase deserto. Um senhor se aproximou e sentou ao meu lado. Por uns instantes ele nada disse, como se procurasse a melhor maneira de começar, quando falou, achei que ele estava bêbado, pois a voz era pastosa, mas não havia odor de álcool:
- A solidão é um bem tão precioso que devia ser obrigatório, mas tem vezes que ela vira uma megera, vira uma péssima conselheira.
Fez um muxoxo e, ajeitando-se no banco, continuou ainda mais arrastado:
- Nossa mente consegue aumentar os problemas, consegue fazer eles insolúveis, principalmente se os problemas nos acordam no meio da noite.
Quando voltei meu olhar para o homem, fiquei surpreso, pois ele não era tão velho quanto eu imaginava, era apenas mal tratado, talvez morasse na rua, não sei. Da distancia que eu estava, percebi que o seu olhar era quase liquido, por conta da catarata e fiquei comovido com aquela figura e mais ainda com o que ele falou. Fiquei sem saber se deveria dizer algo, mas ele, talvez sentindo minha hesitação, disse:
- Tem algum dinheiro pra mim?
- Não, não tenho. Se tivesse eu certamente te daria, mas saí de casa sem dinheiro nenhum.
O desconhecido, sem dizer nada, levantou, cambaleou, mas encontrou o prumo e, pé ante pé, sumiu na escuridão.
É estranho como as madrugadas apresentam personagens prisioneiros desta hora, seres que só fazem sentido se existirem nesta hora do dia. Pensei no que o homem disse e percebi que eu conseguia me apropriar daqueles pensamentos, eles faziam todo sentido para mim. Fiz um paralelo com as raras conversas que eu tinha com o meu pai, quando ele sempre me tratava como um incapaz e me fazia sentir pior do que eu estava antes de conversar com ele. Como no dia que sentei ao seu lado, num dos escassos momentos em que ele parecia disponível, e tentei dizer que não me sentia seguro para escolher uma carreira. Mas foi apenas uma tentativa, porque ele, antevendo o rumo que a conversa ia tomar, cortou a conversa valendo-se de uma frase feita, que repetia incansavelmente:
- A perseverança é a virtude pela qual todas as outras virtudes dão fruto.
E continuou com a voz grave:
 - A sua obrigação é estudar, não tente mudar o que você não pode.
E, sem dizer mais nada, cravou os olhos novamente no jornal.
 Ainda na praça, vagando entre meus pensamentos, comecei a achar que eu talvez fosse um cara tão inadequado, que tinha perdido ate mesmo o direito de ser um personagem que existe apenas em uma determinada hora do dia.
Os dias que se seguiram foram de sono irregular e pesadelos mais frequentes, alguns eu conseguia lembrar, outros não, mas todos me despertavam no momento em que havia uma situação limite. Raras eram as noites que eu conseguia encarar a insônia pós-pesadelo em casa, quando isto era impossível, eu pegava qualquer coisa que me servisse para desenhar e andava ate a praça. Uma noite, sentei num dos quatro bancos que cercavam as mesinhas de granito, e, quando ia espalhar meu material sobre a mesa, reparei que havia um grupo de pessoas reunindo-se. Eram pessoas de todos os tipos, eram barulhentos e, a cada momento, chegava mais alguém. Fiquei observando de longe quando uma jovem, que parecia ser a líder do grupo, se aproximou de mim perguntando:
- Você esta conosco, não é? Nós queremos todos juntos ali porque já vamos indo...Não podemos ficar muito tempo aqui na praça. A policia está sempre pronta pra dar o “bote”...vamos...
- Eu...
- Você faz parte do grupo dos desenhistas sem fronteiras, não é? Nosso grafite hoje vai ser no muro da escola pública ali da outra rua.
Dito isto, ela esticou a mão na minha direção e disse:
- Vamos?
Novos “personagens prisioneiros” em seu próprio contexto, mas, desta vez, este também era o meu contexto! Os “desenhistas sem fronteiras” eram artistas como eu não sabia ser também, eles eram a turma que eu procurava, sem saber, há muito tempo.  
Minhas noites de insônia passaram a ser bem frequentadas, o que não tornou menos reais minhas próprias assombrações, que continuavam a existir dentro de mim e dentro de casa, e teriam que ser encaradas em algum momento. Eu, ao menos, me livrei dos pesadelos e sentia na pele que, quem vive com pelo menos uma certeza, vive muito melhor!

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