“Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu”
TODO O SENTIMENTO – Chico Buarque
“É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
“É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se eu nasci para enfrentar o mar
Ou faroleiro”
TANTO AMAR – Chico Buarque
Ou faroleiro”
TANTO AMAR – Chico Buarque
Eram três. Os dois mais a
roda. A roda gigante girava imponente em
seu eixo. Sabia seu rumo, seu destino.
Os outros dois, não. João e Sônia
entraram na cabine.
A partir daquele momento, não tinham mais passado comum. O presente e o futuro seriam desenhados
juntos e durariam o tempo da volta da roda.
João saboreou o silêncio tão bem
vindo depois de tanto tempo. Sônia pulou na paisagem. João tragou o silêncio, e o misturou no fundo
de si, deixou-o ali, ludibriado, como se ele silêncio nunca tivesse deixado de
fazer parte dele João. Sônia voava
naquele céu azul, era pássaro, era nuvem, era sol. Sônia era paisagem.
Sônia-paisagem de longe observava
João, um feixe de luz que aumentava cada vez mais de tamanho e intensidade, até
cobrir todo o espaço ao seu redor. Exatamente
como João sempre fazia. João-silêncio
olhava para dentro da Sônia habitante de sua memória, sua Sônia, de quem amava as
sardas e vendavais. Sônia se aproximou
da roda num voo rasante e pegou pedaço desse tecido para plantar João em si. João puxou Sônia-vento para dançar.
Enquanto a roda subia mais e
mais, Sônia-paisagem voava fértil e João-silêncio via o amor que teciam povoar
o espaço já todo tomado pelo silêncio.
Dentro dela, crescia um farol. Dentro dele, amor e silêncio dançavam.
A roda já ia quase atingindo o
topo quando Sônia-paisagem virou Sônia, e João-silêncio era João. Olharam-se e souberam-se encantados,
hipnotizados pela beleza do redondo, dentro do redondo, do redondo, do redondo.
E agora estavam no topo da roda, no topo céu, do mundo, do universo, circulares. Tão pequenos e tão únicos naquele segundo
perfeito. Aquele era o momento de tudo
convergir para que tudo desse certo. E
movidos por uma certeza-fábula, fizeram o que acreditavam que deveriam e
aguardaram.
O sol e a roda agora lentamente
começavam a cair. Uma névoa aos poucos descia do céu e
inexorável perfurava Sônia e João em seus caminhos. Arriscaram um beijo antes
que fosse tarde demais, e embora até tenham tentado permanecer Sônia e João
pelo tempo em que o beijo durou, não conseguiram. E de volta a paisagem, agora
já escura e fragmentada, a moça não era mais capaz de ver João. João e seu silêncio haviam perdido Sônia no
labirinto de si.
A gravidade puxava a roda que por
sua vez puxava as lágrimas sincronizadas que não paravam de correr nos olhos que
se viam sem se ver. As palavras não eram
permitidas depois de tanto estrago, e nem seriam perfeitas o suficiente para
comunicar e participar daquela conversa de ombros. Ombros que naturalmente convidaram braços e peitos
para um abraço. Ao casal, só restava ir
embora da roda que já tinha parado há algum tempo de girar aguardando que os
dois saíssem e dessem lugar a novos outros casais a se aventurarem em seu
giro. E então, saíram João e Sônia de
mãos dadas, sem nada mais a fazer a não ser partirem, cada par de mãos para seu
lado.
João e Sônia.
João, Sônia.
João. Sônia.
João.
Sônia.
Vento e Farol.
Vento-Farol
VentoFarol
Regeriam silêncios e tempestades
para sempre.
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