terça-feira, 25 de junho de 2013

Flashes da Urca

Da mureta da Urca, um charmoso bairro histórico do Rio de Janeiro, Bento contempla o seu enquadramento preferido da cidade. À margem da Baía de Guanabara e vista para o Cristo Redentor, dali os fins de tarde de domingo têm tons alaranjados inesquecíveis. Bento se afasta das horas; medita e mergulha na paisagem. O vento que bate no rosto traz um frescor que lhe arranca um profundo suspiro.

Mas a paz de Bento é bruscamente interrompida pela desajeitada Júlia e sua vira-lata, Fiona. A cachorra, desembestada, corre em disparada e arremessa Júlia pra cima de Bento que, por pouco, não desce mureta abaixo. Apesar do desastre, os dois, colados pelo impacto, ficam estáticos com tamanho encantamento. Fiona late histericamente e desfaz o efeito ‘câmera-lenta’ que envolve os humanos.

– Poxa, me perdoe. Estava passeando com a Fiona quando ela ficou louca ao ver uma barata. Tudo foi tão rápido e, de repente, eu estava em cima de você!...

Júlia cora, desvia o olhar de Bento que continua ofuscado pelo encanto da moça.

– Oh, sem problemas. Eu entendo. Só levei um grande susto porque estava desconectado daqui e você quase me mata. Mas foi bom, quer dizer... Aceito seu pedido de desculpas desde que fique mais um pouco. Vamos bater um papo, quero te conhecer; a Fiona também.

Enrubescido, Bento ri do próprio convite e da piada sobre Fiona. Imagina conhecer uma cachorra, justo ele que nunca foi amante de bichos de estimação.

Ainda corada, Júlia assente com a cabeça, ajeita a roupa e se senta na mureta ao lado de Bento. O crepúsculo testemunha o nascimento de uma história. As horas passam e o papo flui com um encantamento mútuo. Fiona tira uma soneca ao lado do casal que conversa animadamente. Bento, não suportando mais o desejo, puxa a mão de Júlia para si. Apesar de nervosa, ela também não se contém, cedendo aos encantos e beijos do jovem rapaz. Entretanto, Júlia demora muito além do tempo de sua costumeira voltinha com Fiona e precisa voltar para casa. Se despede de Bento, trocam telefones e promessas de novos encontros; cada um segue seu rumo. Bento, logo chega em casa.

A semana se arrasta e Bento não tem notícias de Júlia. O telefone só cai na caixa postal, não há sinal da moça e ele fica enlouquecido, com cóleras de paixão. Sem sucesso nas tentativas durante a semana, Bento vai à mureta no domingo na esperança de encontrá-la. Chegando ao ponto de encontro, observa que há uma silhueta de um cachorro, é Fiona, mas nada de Júlia. Espera horas, nada dela. Resolve levar Fiona para casa, preocupado, pois a cadela está aparentemente abatida, faminta e doente. Mais uma semana e nada de Júlia. Mais um domingo na mureta, sem notícias. Os dias, semanas, meses e anos passam sem um único contato. Bento sente que a perdeu.

Lúcia, uma colega do colegial, reaparece na vida de Bento. Em um ano namoram e se casam. O nascimento do segundo filho é também marcado pela morte de Fiona, que esteve com Bento nos últimos oito anos. Embora tenha uma vida feliz, Bento passou a vida pensando em Júlia, no que deixou de viver com ela. Despede-se de Lúcia que, aos 62 anos, morre de uma doença degenerativa. O viúvo segue em frente, dedica-se ao trabalho, aos filhos e netos. Quase todos os domingos, durante esse tempo, Bento vai à mureta cheio de esperanças.

- Será que aquela garota linda, divertida e encantadora foi uma criação da minha cabeça? Como aqueles olhos cor de mel poderiam ter me enganado? Eu acreditei ser especial! Mas, e Fiona? Como ela apareceu? Muitas perguntas trovejavam dentro de Bento e ele desejava tanto ter respostas.     

Aos 65 anos, na mureta da Urca, Bento fecha os olhos e relembra aquele domingo de céu alaranjado em que conheceu Júlia. Chora de saudade, aperto no coração e nó na garganta. Quando se prepara para ir embora, repara uma senhora que chega com uma menina jovem, de uns 20 anos, incrivelmente a cara de Júlia. Bento não se contém e pergunta:

- Júlia? - Os olhos estão arregalados e cheios d’água.

- Não, eu sou a Clara. Mas esta é a Júlia, minha avó. Você o conhece, vovó?

Aos 63 anos, a senhora de olhos cor de mel olha para aquele senhor e franze a testa como quem busca uma recordação em um tempo perdido no espaço. Mas, ela não tem certeza. As lembranças são vagas e picadas, apenas alguns flashes. Bento sente que é ela e, mais uma vez, pede para conversarem.

Horas depois, Bento consegue, finalmente, suas respostas. A neta explica que há 40 anos, quando a avó tinha 23, ela sofreu um grave acidente ao voltar da caminhada com sua cachorra e por pouco não morreu. Após dois meses em coma, Júlia voltou à vida. Ela perdeu a memória dali para trás e precisou construir uma nova história. Casou-se, teve uma filha, que lhe deu Clara. Viúva há um ano, sem mais nem menos pediu à neta que a levasse à mureta aos domingos. Sem entender direito, Clara atendeu suas vontades. Só não imaginava que o coração da avó guardara um amor que o dano cerebral não conseguiu apagar. Desta vez, Bento fez questão de deixar Júlia em casa.      


Regina Rozin
(A volta)

Nenhum comentário:

Postar um comentário