Da
mureta da Urca, um charmoso bairro histórico do Rio de Janeiro, Bento contempla
o seu enquadramento preferido da cidade. À margem da Baía de Guanabara e vista
para o Cristo Redentor, dali os fins de tarde de domingo têm tons alaranjados inesquecíveis.
Bento se afasta das horas; medita e mergulha na paisagem. O vento que bate no
rosto traz um frescor que lhe arranca um profundo suspiro.
Mas
a paz de Bento é bruscamente interrompida pela desajeitada Júlia e sua
vira-lata, Fiona. A cachorra, desembestada, corre em disparada e arremessa
Júlia pra cima de Bento que, por pouco, não desce mureta abaixo. Apesar do
desastre, os dois, colados pelo impacto, ficam estáticos com tamanho
encantamento. Fiona late histericamente e desfaz o efeito ‘câmera-lenta’ que
envolve os humanos.
–
Poxa, me perdoe. Estava passeando com a Fiona quando ela ficou louca ao ver uma
barata. Tudo foi tão rápido e, de repente, eu estava em cima de você!...
Júlia
cora, desvia o olhar de Bento que continua ofuscado pelo encanto da moça.
– Oh,
sem problemas. Eu entendo. Só levei um grande susto porque estava desconectado
daqui e você quase me mata. Mas foi bom, quer dizer... Aceito seu pedido de desculpas
desde que fique mais um pouco. Vamos bater um papo, quero te conhecer; a Fiona
também.
Enrubescido,
Bento ri do próprio convite e da piada sobre Fiona. Imagina conhecer uma
cachorra, justo ele que nunca foi amante de bichos de estimação.
Ainda
corada, Júlia assente com a cabeça, ajeita a roupa e se senta na mureta ao lado
de Bento. O crepúsculo testemunha o nascimento de uma história. As horas passam
e o papo flui com um encantamento mútuo. Fiona tira uma soneca ao lado do casal
que conversa animadamente. Bento, não suportando mais o desejo, puxa a mão de
Júlia para si. Apesar de nervosa, ela também não se contém, cedendo aos
encantos e beijos do jovem rapaz. Entretanto, Júlia demora muito além do tempo
de sua costumeira voltinha com Fiona e precisa voltar para casa. Se despede de
Bento, trocam telefones e promessas de novos encontros; cada um segue seu rumo.
Bento, logo chega em casa.
A
semana se arrasta e Bento não tem notícias de Júlia. O telefone só cai na caixa
postal, não há sinal da moça e ele fica enlouquecido, com cóleras de paixão. Sem
sucesso nas tentativas durante a semana, Bento vai à mureta no domingo na
esperança de encontrá-la. Chegando ao ponto de encontro, observa que há uma
silhueta de um cachorro, é Fiona, mas nada de Júlia. Espera horas, nada dela.
Resolve levar Fiona para casa, preocupado, pois a cadela está aparentemente abatida,
faminta e doente. Mais uma semana e nada de Júlia. Mais um domingo na mureta,
sem notícias. Os dias, semanas, meses e anos passam sem um único contato. Bento
sente que a perdeu.
Lúcia,
uma colega do colegial, reaparece na vida de Bento. Em um ano namoram e se
casam. O nascimento do segundo filho é também marcado pela morte de Fiona, que
esteve com Bento nos últimos oito anos. Embora tenha uma vida feliz, Bento
passou a vida pensando em Júlia, no que deixou de viver com ela. Despede-se de
Lúcia que, aos 62 anos, morre de uma doença degenerativa. O viúvo segue em
frente, dedica-se ao trabalho, aos filhos e netos. Quase todos os domingos,
durante esse tempo, Bento vai à mureta cheio de esperanças.
-
Será que aquela garota linda, divertida e encantadora foi uma criação da minha
cabeça? Como aqueles olhos cor de mel poderiam ter me enganado? Eu acreditei
ser especial! Mas, e Fiona? Como ela apareceu? Muitas perguntas trovejavam
dentro de Bento e ele desejava tanto ter respostas.
Aos
65 anos, na mureta da Urca, Bento fecha os olhos e relembra aquele domingo de
céu alaranjado em que conheceu Júlia. Chora de saudade, aperto no coração e nó
na garganta. Quando se prepara para ir embora, repara uma senhora que chega com
uma menina jovem, de uns 20 anos, incrivelmente a cara de Júlia. Bento não se
contém e pergunta:
-
Júlia? - Os olhos estão arregalados e cheios d’água.
-
Não, eu sou a Clara. Mas esta é a Júlia, minha avó. Você o conhece, vovó?
Aos
63 anos, a senhora de olhos cor de mel olha para aquele senhor e franze a testa
como quem busca uma recordação em um tempo perdido no espaço. Mas, ela não tem
certeza. As lembranças são vagas e picadas, apenas alguns flashes. Bento sente
que é ela e, mais uma vez, pede para conversarem.
Horas
depois, Bento consegue, finalmente, suas respostas. A neta explica que há 40
anos, quando a avó tinha 23, ela sofreu um grave acidente ao voltar da caminhada
com sua cachorra e por pouco não morreu. Após dois meses em coma, Júlia voltou
à vida. Ela perdeu a memória dali para trás e precisou construir uma nova
história. Casou-se, teve uma filha, que lhe deu Clara. Viúva há um ano, sem
mais nem menos pediu à neta que a levasse à mureta aos domingos. Sem entender
direito, Clara atendeu suas vontades. Só não imaginava que o coração da avó
guardara um amor que o dano cerebral não conseguiu apagar. Desta vez, Bento fez
questão de deixar Júlia em casa.
Regina
Rozin
(A
volta)
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