terça-feira, 25 de junho de 2013

Sabotagem


Sabotagem

 

Bela tarde do mês de outubro num dia de semana qualquer. Todos caminhando de pressa pela rua, naquele ir e vir, querendo resolver tudo ao mesmo tempo. Globalização, era das comunicações, onde a maioria deixou de se comunicar, já há muito tempo, e tudo fica num faz de conta.

Nisso tudo ia pensando quando, de repente, dei de cara com um homem que mudaria para sempre o conceito de doença de meu texto particular.

Naquele dia, Javier foi me apresentado por um amigo. Olhei aquele rosto marcado a fogo pelos seus cinquenta e dois anos, expressão ranzinza, estatura mediana, cabelos grisalhos, leve sotaque de gringo. Mais tarde soube que era espanhol e morava há muitos anos no Brasil.

Nesses poucos minutos de conversa, deu-me a impressão de ser ele um indivíduo extremamente ansioso. Por causa de sua fala atropelada, sua inquietação, seus gestos intempestivos, dava a impressão de que a qualquer momento ia desencadear um dilúvio, um terremoto, um tsunami, ou quem sabe que catástrofe, com suas próprias palavras. Palavras lançadas como torpedos sem direção.

Passaram-se dias, meses, e um dia, quando já praticamente nem lembrava mais de Javier, o encontrei novamente perto de casa. Resultou ser meu vizinho de rua. Quando me viu parou, me olhou, nos reconhecemos e nos lembramos de aquele dia.

Acabamos tomando um café num barzinho qualquer. Fiquei então sabendo de algumas coisas da vida daquele homem. Falou-me de sua situação econômica com certa amargura.

-Estou quebrado – ele disse.

- Tinha uma loja de móveis e quando começaram a construir a estação Botafogo do Metrô as obras dificultavam o passar das pessoas e muitos dos meus clientes sumiram-

- Além do mais, meu sócio resultou ser um caloteiro, que acabou deixando-me sem nada-

-Como se não bastasse tudo isso, os médicos me descobriram um tumor de próstata, e disseram ser benigno, mas eu sei que é mentira. Minha mulher é médica e deve ter ficado de acordo para que eles não me falassem-

-Fui operado e aparentemente por enquanto, segundo dizem, está tudo bem-

-O pior é minha insônia. Passo noites sem dormir, caminhando pela casa, sem saber o que fazer-

-No dia seguinte, acordo tarde, sem disposição para nada, mal humorado, irritado, e não adianta tomar remédio: um monte de efeitos colaterais. Finalmente não tomo nada e tudo continua do mesmo jeito-

No dia seguinte, ainda as palavras de Javier ressoavam como estrondo nos meus ouvidos. Depois soube que a mulher dele, pouco contribuía para sua recuperação. Homeopata, achava que todos os remédios intoxicavam, colocava as bulas na internet, lia para ele todos os efeitos adversos e o convencia a não tomá-los.

O quadro de Javier foi se agravando. Ficou agressivo com a esposa que só vivia desvalorizando-o, porque não fazia nada na vida. Não saia de casa por medo de que lhe acontecesse alguma coisa, não dormia.

Até que um dia, finalmente, não quis mais se alimentar nem cuidar da sua higiene, nem nada...

Acabou caindo da cama, ou se deixou cair? Tomografias, exames, clínica psiquiátrica. Doença? Energias negativas? Autodestruição?

 

 

 

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