Sabotagem
Bela tarde
do mês de outubro num dia de semana qualquer. Todos caminhando de pressa pela
rua, naquele ir e vir, querendo resolver tudo ao mesmo tempo. Globalização, era
das comunicações, onde a maioria deixou de se comunicar, já há muito tempo, e
tudo fica num faz de conta.
Nisso tudo
ia pensando quando, de repente, dei de cara com um homem que mudaria para
sempre o conceito de doença de meu texto particular.
Naquele dia,
Javier foi me apresentado por um amigo. Olhei aquele rosto marcado a fogo pelos
seus cinquenta e dois anos, expressão ranzinza, estatura mediana, cabelos
grisalhos, leve sotaque de gringo. Mais tarde soube que era espanhol e morava
há muitos anos no Brasil.
Nesses
poucos minutos de conversa, deu-me a impressão de ser ele um indivíduo
extremamente ansioso. Por causa de sua fala atropelada, sua inquietação, seus
gestos intempestivos, dava a impressão de que a qualquer momento ia desencadear
um dilúvio, um terremoto, um tsunami, ou quem sabe que catástrofe, com suas próprias
palavras. Palavras lançadas como torpedos sem direção.
Passaram-se
dias, meses, e um dia, quando já praticamente nem lembrava mais de Javier, o
encontrei novamente perto de casa. Resultou ser meu vizinho de rua. Quando me
viu parou, me olhou, nos reconhecemos e nos lembramos de aquele dia.
Acabamos
tomando um café num barzinho qualquer. Fiquei então sabendo de algumas coisas
da vida daquele homem. Falou-me de sua situação econômica com certa amargura.
-Estou
quebrado – ele disse.
- Tinha uma
loja de móveis e quando começaram a construir a estação Botafogo do Metrô as
obras dificultavam o passar das pessoas e muitos dos meus clientes sumiram-
- Além do
mais, meu sócio resultou ser um caloteiro, que acabou deixando-me sem nada-
-Como se não
bastasse tudo isso, os médicos me descobriram um tumor de próstata, e disseram
ser benigno, mas eu sei que é mentira. Minha mulher é médica e deve ter ficado
de acordo para que eles não me falassem-
-Fui operado
e aparentemente por enquanto, segundo dizem, está tudo bem-
-O pior é
minha insônia. Passo noites sem dormir, caminhando pela casa, sem saber o que
fazer-
-No dia
seguinte, acordo tarde, sem disposição para nada, mal humorado, irritado, e não
adianta tomar remédio: um monte de efeitos colaterais. Finalmente não tomo nada
e tudo continua do mesmo jeito-
No dia
seguinte, ainda as palavras de Javier ressoavam como estrondo nos meus ouvidos.
Depois soube que a mulher dele, pouco contribuía para sua recuperação.
Homeopata, achava que todos os remédios intoxicavam, colocava as bulas na
internet, lia para ele todos os efeitos adversos e o convencia a não tomá-los.
O quadro de
Javier foi se agravando. Ficou agressivo com a esposa que só vivia
desvalorizando-o, porque não fazia nada na vida. Não saia de casa por medo de
que lhe acontecesse alguma coisa, não dormia.
Até que um
dia, finalmente, não quis mais se alimentar nem cuidar da sua higiene, nem
nada...
Acabou
caindo da cama, ou se deixou cair? Tomografias, exames, clínica psiquiátrica.
Doença? Energias negativas? Autodestruição?
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