(tema: “A VOLTA”)
Rio de Janeiro, 06 e 11 de junho de 2013
[a
decisão] Robson Aguiar
Horas de
estrada e até agora não tenho muito certa a ideia que me fez decidir voltar. Remoo
pensamentos desconexos e não chego a conclusão alguma. Ainda não sei se torço
pro tempo correr, ou refugar. Chove. Choverá dias afora.
Foram semanas difíceis até conseguir as férias de
urgência. Compromissos no trabalho, empregada extra pra cuidar da casa, hospedagem
pras cachorras, compras de mercado e cuidados com as crianças que crio só, após
a viuvez. Dinheiro, despesas, providências. Remoto controle. Quanto maior o salário, maior o gasto. Trabalho
muito, durmo nada e estou sempre atrasado.
Até tento especular, mas não consigo imaginar o que
encontrarei. Há anos não revejo aqueles rostos. De muitos, não lembro a voz.
Devem estar envelhecidos, como estou. Onde poderei dormir? Tivesse um hotel na
região... Alberto talvez me receba na casa paroquial. Ao menos na primeira
noite.
Primeira parada. O atendente de cavanhaque ralo
serve o café. Observo a borra no fundo do copo nadyr e tento imaginar há quanto
tempo teria sido coado. O relógio na parede se impõe, opressor. Aperto os olhos
e tento decifrar o horário, mas logo percebo que não há ponteiros. Não
interessa mesmo saber as horas em um lugar tão esquecido.
Volto para o ônibus. São 36 horas de viagem, e ainda
resta metade. Meu pânico de voar há muito me causa contratempos. Tomo um
relaxante muscular e espero que o sono venha. Meu companheiro de banco folheia “Quem
mexeu no meu queijo?”. Todos leem os mesmos livros. Não espanta que pensem
igual.
Tinha planos de voltar a Santana, evoluído e
endinheirado. Não imaginava que fosse me acostumar à hostilidade paulistana. Graduação,
especialização, mestrado, casamento, filhos, apartamento, trabalho, aulas,
consultoria, prostitutas de luxo e whiskerias de fachada. O cenário mudara nos últimos 15 anos. Não
fosse por aquela decisão repentina, talvez não mais voltasse. Embora não consiga
determinar, um impulso poderoso me pusera a caminho.
O ônibus segue velocidade constante. O programa de
rádio alterna canções românticas e cartas de ouvintes, a maior parte delas contando
desventuras com o sexo oposto. Um suposto entendedor das angústias do coração
comenta, e o locutor anuncia a próxima música. Penso que poderia ter escrito
uma carta daquelas. Qualquer delas.
A madrugada avança e não consigo distinguir as
canções. Embaralho refrões, cochilo, acordo, faço imprecisas associações. Sinto
saudades de minha filha. Lembro ter deixado papéis importantes sobre a
escrivaninha do escritório. Como estará Mariana a essa hora? Acordo: meu
companheiro da janela pede licença. Última parada antes de subirmos a serra. Devo
descer - ele aconselha, austero.
Tenho preguiça de levantar. Vejo através do vidro o
asfalto encharcado. Havia aprendido que não pode chover o tempo todo. Um filme.
“O Corvo”, talvez. Não consigo recordar a última vez que fora ao cinema.
Assim que retornar, levarei Mariana. Resolvo descer. Afixado à porta de vidro, um mapa mostra minha
cidade. Resta pouco, penso. Agora não há mais chance de dar meia volta.
Chego ao balcão da lanchonete e peço outro café. O
médico dissera pra diminuir, que poupasse o estômago. Fico devendo: duplo, por favor. Tento imaginar
o que farei, quem procurarei primeiro, que palavras direi. Dois dias serão
suficientes? Me sinto atuando em uma
peça ainda por escrever. O que diria Barbara? O balconista intervém: açúcar ou
adoçante? Puro, amigo. Sinto falta do amargo. Sempre sentira.
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