Flávio Limoncic
(a partir de “É melhor ser alegre que ser triste”)
Por duas semanas, Maria Pia atazana Olavinho com essa história de um jantarzinho. Só os de casa, diz ela. Trezentos talheres, sabe ele. E não é só a questão da quantidade. Os de casa se satisfazem com uma massa folheada e um bom vinho, talvez um salmão, os trezentos talheres não se contentam com menos do que caviar de Baku servido sobre barquetes do Talho Capixaba, lagostins recheados, vinhos harmonizados e pâtisserie do Kurt. Se somados estes aos custos com segurança, cerimonial, valetes, sabonetes de pêssego e lavandas cítricas para os sete lavabos, mais a Banda Celebrare, sessenta mil dólares irão pelo ralo em uma única noite. Fácil, fácil. Não adianta ele falar, ela não se convence de que as coisas não andam bem, que a desaceleração do crescimento chinês tem resultado no cancelamento de encomendas de ferro-gusa e que as barreiras fitossanitárias da Rússia estão condenando à velhice os rebanhos de nelore, isso tudo sem falar da política cambial do governo, que fragiliza a capacidade de alavancagem das empresas.
Ela diz que está pensando única e exclusivamente nele, que precisa ver um pouco de gente, respirar, sair do casulo, pois agora vive enfurnado, não encontra os amigos, parou de jogar tênis no Country e chegou ao cúmulo de abrir mão da mesa cativa no Satyricom. Ele diz que o que ela quer é mostrar ao Rio de Janeiro inteiro o loft de 450 m2 que fizeram para Ricardinho nos fundos da cobertura - com direito a Jacuzzi para dez, pois um rapaz de quatorze anos precisa de certa privacidade -, e vestir o modelito exclusivo que acabou de chegar do Atelier Gustavolins, discretamente coadjuvado pelo pingente de diamante sul-africano de 535 quilates.
Por cansaço, e para não enlouquecer, Olavinho acaba cedendo. Cometera um equívoco, porém. Não são trezentos os talheres, são trezentos e cinquenta e três, Mariozinho vem sozinho, Silvinha está em Berna, e olha que cortei até sua irmã.
O jantar é um su. Pudera. Maria Pia se dedicou a ele full time por três semanas, comandando uma equipe de sete profissionais - diversos nas atribuições, unidos na incompetência -, esquecendo-se de si mesma, como sempre, abrindo mão de tudo, alguma novidade?, até do aniversário de Athina, em Corfu, e, o que mais lhe doeu, dos seus pobres: justo no dia do concerto do Yo Yo Ma em prol dos órfãos do Lesoto, no Carnegie Hall, teve que escolher o arranjo floral das mesinhas de canto. O único compromisso a que fez questão de comparecer no período foi o bazar de artesanato nativo de Titina Saavedra, no Caiçaras, duas horinhas entre a aprovação da iluminação do palco e a escolha dos chocolates, belgas ou suíços? Desde que se apaixonou por seu personnal guia no safari do Pantanal, um apache lindésimo chamado Evaristo, Titina Saavedra passou a dar um show de consciência social, coisa de arrepiar, com foco nos índios e outras questões ecológicas. O folder de papel couché, elaborado por um grupinho jovem, cabecinhas super-abertas, que Titina Saavedra contratou para sua ONG, explicava o objetivo do evento: fazer uma ponte entre os povos da floresta e o povo das cidades, gerando renda e estimulando o empreendedorismo entre silvícolas do Alto Solimões, em busca de alternativas para a construção de um modelo de desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável, na linha do pensar globalmente e agir localmente. Comprou um pente com a etiqueta “arte plumária Kanamari”, um tipo de canário ameaçado de extinção.
São cinco horas e setenta e três mil, setecentos e oitenta dólares de comilança e intrigas, ao fim dos quais Maria Pia, embora exausta, tem a sensação do dever cumprido. Já Olavinho, o estraga-prazeres de sempre, vem às três da manhã lhe dizer que está pensando em vender o pavillon de chasse na Bretanha. Cento e vinte mil dólares anuais de manutenção para não mais do que uma semana a cada dois, três anos. Não faz sentido. Não bastam as casas de Angra e Campos do Jordão (para estar entre paulistas multitrilhiardários) e os apartamentos de Nova York, Paris e Milão? Ela finge não ouvir. Entram, ela no seu quarto, ele no dele.
Essa não. Maria Pia está perdendo a paciência. Já reclamou inúmeras vezes com Olavinho de sua recente mania de tocar violão nas horas mais impróprias. Ele diz que está repensando tudo, que quer voltar a fazer coisas de que gostava quando jovem, na época em que se conheceram, ela no Sion, ele no Santo Inácio. Então, que comece fazendo isolamento acústico no quarto! Se continuar assim, logo, logo vai se mudar para Alto Paraíso e morar com Mariana, a queridinha do papi de sovaco cabeludo, entre maconheiros que catam piolhos uns dos outros e fazem sexo em copas de árvores. Já da até para ver a cena ridícula, fogueira, rodinha, fumacê, e ele ali, no meio, olho de peixe-morto, se achando o coroa maneiro, enquanto canta Apenas um rapaz latino-americano. Isso, claro, se a tal de Nanda, a namoradinha da desorientada, aceitá-lo na barraca de camping. Agora está aí, às três e meia da madrugada, enchendo o saco, tentando armar os acordes sem embaralhar os dedos, repetindo a mesma frase musical até à exaustão.
Senta na penteadeira de jacarandá, herança da sogra, que retrofitou com espelhos e iluminação indireta para ressaltar os trabalhos de marchetaria, dando ao todo um ar mais contemporâneo, sempre detestou velharias. Inicia o processo de limpeza da maquiagem. Repassa mentalmente a agenda. Tem que ligar para, qual mesmo o nome?, Janjão, seu personnal professor de ginástica. Além de uns quinze minutos de sexo, precisa oxigenar células e eliminar radicais livres para o weekend com Steven e Kate, nos Hamptons. De lá, deve ir direto para Cefalônia, ao menos um abraço tem que dar em Athina. E, já que vai estar por ali, aproveitará para dar um pulinho em Antuérpia, o pingente precisa de um polimento. Se der, passa em casa para desejar boa noite a Ricardinho, caso contrário, emenda direto no retiro espiritual em um spa modernérrimo, com vista para o Everest e monges budistas que fazem o serviço de quarto. São tantos os compromissos! E os problemas? Melhor nem falar. Para começar, o câncer esofágico do Dr. Olavo. Outro dia mesmo tiveram que cancelar o almoço de domingo no Cipriani, sempre um programinha gostoso, porque o velho estava botando os bofes para fora. E o pior: esse aborrecimento na escola do Ricardinho. Paga uma fortuna e a diretora ainda quer que os pais resolvam frescuras de adolescentes. É coisa demais para sua cabeça, sente-se esgotada, os nervos à flor da pele. Lembra, com saudades, de Valdomiro, colosso de motorista, um metro e noventa, pele de ébano e dentes de marfim, que emprestou para Alicinha. De Bali, Alicinha o levou direto para a casa de Trancoso, onde ele é jardineiro e ela passa longas temporadas cuidando das bromélias. Diz que um dia vai devolvê-lo. Picuinha de irmã. Sonhadora e romântica, mas um pouco invejosa, Alicinha nunca aceitou muito bem estar no quinto casamento, a caminho do sexto - com um comerciante de armas, parece que paquistanês -, enquanto ela e Olavinho estão firmes e fortes há mais de vinte anos. Termina de limpar a maquiagem, cinco centímetros de espessura. Apesar das blefaroplastias, sua cara é um pé-de-galinha só. Tem que dar um pulinho em Ivo.
Em seu quarto, Olavinho não vai além de “É melhor ser alegre que ser triste”. “É melhor ser alegre que ser triste”. “É melhor ser alegre que ser triste”.
Como se ela tivesse essa opção.
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