quinta-feira, 4 de julho de 2013

Conto sobre o tema "É melhor ser alegre que ser triste"

(mote: “É melhor ser alegre que ser triste”)
[nádia]
Robson Aguiar

De repente o mundo de Nádia caiu. Fosse Maysa, teria dinheiro e fama, mas não: perdeu a virgindade, pariu Nina, foi despida do aconchego dos pais e abraçou a rua. Vertigem. Era como se o caleidoscópio girasse e ela, atônita, não conseguisse apreender as imagens. Não sabia mesmo para onde seguir mas, como de resto todos fazem, seguia. Aos trancos.
Tentava ainda se aprumar, quando foi aprovada pro seu mais novo emprego: uma casa de massagens ordinária no centro da cidade, dessas que servem o fast sex. Meses atrás começara em uma famosa casa de strip-tease na Zona Sul. O corpo mulato e carnudo a fazia desejada. Mesmo em dias fracos, não saía de mãos vazias. Aos poucos fazia nome, era bem avaliada nos fóruns da internet. Tudo caminhava bem até um primo de sua mãe resolver aparecer com a turma do bairro que ela tão bem conhecia da infância. Nádia precipitou-se rua afora. Não voltaria nem mesmo pra se despedir dos garçons, seus melhores parceiros. Não dariam falta.
Em duas semanas conseguiu vaga em um puteiro chique, frequentado por jogadores de futebol. Desses de cobrar muito e remunerar mal. Passava lá 10 horas por dia. De regra, saía bêbada ou cheirada, às vezes bêbada e cheirada. Segundas, terças e quartas seguia pro conjugado no Catete e desmaiava no sofá cama, ainda maquiada. Às quintas e sextas, dançava – e dançar, de suas diversões, era a mais sincera. Na pista se soltava, sentia-se livre. Não estava a serviço de ninguém. Pudesse, domaria o tempo, congelaria aqueles instantes de leveza.  
Sábados e domingos fazia frees com clientes de fé: os acompanhava a casamentos, festas de aniversário, viagens a Itaipava e churrascos de trabalho. Certa vez passara uma semana em Fortaleza, com um executivo da Vale do Rio Doce, viúvo de 54 anos. Momentos de alegria fugaz. De outra, seguira num Cruzeiro de Santos a Salvador, com um rapazote viciado em cocaína, filho de famoso cineasta. A seu lado Nádia interpretava. E interpretar era apenas um de seus ofícios.
Quando foi acusada de roubar o estojo de maquiagem de Suzana não pôde se defender: o segurança a empurrou escada abaixo e ela foi posta na rua sem direito a queixa. Sentiu vergonha e chorou de raiva, porque se sabia inocente. Sabia também que Suzana não tolerava mais perder clientes pra ela, uma quase novata, e que Suzana não deixaria barato. Ainda assim, não conseguia acreditar que tivesse sido descartada com tamanha facilidade.
Tentou trabalhar em uma loja da Kopenhagen, vendendo chocolates quase finos a preço extorsivo. Esforçou-se durante um mês. Acordava cedo, mantinha o uniforme limpo e passado, cumpria ordens. Ao receber o primeiro salário, arrefeceu: acostumara-se ao dinheiro, à roda-viva dos ganhos e gastos altos. Sentiu-se ultrajada com o piso da categoria. Não voltaria no dia seguinte.
Terceira semana na casa de massagens e ainda não se adaptara inteiramente. O programa era tabelado e os atendimentos improvisados em uma minúscula maca. Não conhecia os clientes previamente: o agendamento, por telefone, era intermediado por uma secretária. Atendia gordos, magros, carecas, brochas, ríspidos, elegantes, malcheirosos ... Homens que pediam pra apanhar, outros que vinham conversar apenas. Toda sorte de gente.
Mesmo contrariada, Nádia rapidamente se tornou carro-chefe da casa. O faturamento alto a atrapalhava. O cafetão, policial militar reformado, a ameaçava sem pudor. Dizia que, se fosse embora, a encontraria onde quer que fosse, e a traria de volta. Nádia sabia que era verdade. E sentia medo.
Terminou a massagem mecânica num velhinho boa praça e viu entrar a mensagem inusitada no celular, convidando-a pra jantar. Jonas, cliente antigo, a acompanhava desde Copacabana. Ia até ela de quinze em quinze dias, sempre às segundas. (Falava que, assim, sua semana começava perfeita). Dizia já ter reservado restaurante e que beberiam um vinho tinto delicioso. Que a deixaria em casa mais tarde, caso preferisse, mas que adoraria dormir a seu lado. E que esperava que aceitasse.
Rapidamente Nádia reuniu as meninas e escolheu as melhores peças disponíveis. De Luana, a calça; de Melissa, a blusa, e de Pámela, as sandálias. Experimentou as roupas e sentiu-se linda. Usaria a própria lingerie. (Roupa íntima não se empresta). Perfume e maquiagem suaves. Ficaria discreta e insinuante. Não iria decepcioná-lo.
Tão logo acaba o expediente Nádia chega à portaria do velho prédio. Está cheirosa e bem arrumada. Chama a atenção dos poucos que por ali resistem. Passa por seu Jair e recebe o elogio de todos os dias, acompanhado da pergunta: “e aí, vai encontrar o namorado”? Nádia então se dá conta. Olha o celular e confirma a data: 12 de junho. Mal acredita... Não vai passar sozinha. Sente-se bem, e um tanto culpada experimenta uma alegria fugidia, alegria que, sabe, durará poucas horas. Logo, logo o mundo seguirá seu curso infalível. Sim, Nádia sabe. Aliás, sempre soube. É assim que deve ser. E assim será.


Rio de Janeiro, 18 a 20 de junho de 2013

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