Cantando a cantiga
mais antiga já ouvida, o vento chamava todos naquele inicio de noite. Queria aqueles do lado de dentro dançando do lado de fora, na
chuva, livres da mesmice daquela prisão branca.
Um homem de 30 anos
já menino há alguns meses reconheceu a música assim que a ouviu. Viu a si mesmo
embalado no colo da avó comendo pipoca doce com leite condensado. Perdido, ora
se inclinava da cadeira no ímpeto de voar da janela e se misturar ao vento. Ora
tinha a certeza de que o prédio iria desabar a qualquer momento e pensava que
talvez melhor fosse chamar a enfermeira o quanto antes.
Verdade que já tantas vezes imaginara o fim. O que aconteceria se uma onda
gigante engolisse o hospital? Será que terminaria a vida estirado no chão sem
poder correr? Alguns dias imaginava que se fosse capaz de se antecipar chamando
logo a enfermeira seria salvo, e talvez, cadeira de rodas e a doença pudessem
desaparecer do mesmo modo que tinha aparecido e ele se fazer homem novamente.
Responsável por si, por sua vida.
No meio dessa
tempestade já cansada de tanto ventar e chover, ela entrou no quarto trazida
pela enfermeira. Linda e ainda jovem ela o via pela primeira vez depois de 12
anos. Sem rodeios, sem medo, o encarou por algum tempo.
A visita sustentou
o olhar o quanto pôde ate desabar num choro profundo, doído, um choro de toda a
chuva do lado de fora e mais uns tantos litros. Não escondeu o rosto, não pediu
perdão ou disse “Vai ficar tudo bem”. Apenas puxou a cadeira sentando-se ao seu
lado. Cadeira colada com cadeira colada como nos tempos da escola.
Por um momento, por
uma questão de ritmo, ele tentou respirar junto com a respiração dela, buscando
conduzi-la ao ritmo da cantiga, daquela cantiga do vento. Ela em silêncio por
não conseguir dizer nada, ele em silêncio em respeito ao ritmo, os dois numa
conversa de alma e de memórias.
Um dueto. Ele a
lembrar dos cabelos rebeldes, das bolinhas de papel, dos papeis de carta. Ela a
lembrar das mãos dadas, do segredo, do beijo escondido atrás da pilastra numa
nostalgia asfixiante a embriagá-los. Ela com a vida pela frente, ele, da mesma
idade, tão doente.
De repente, ela
mudou o ritmo, e a respiração tornou-se ofegante, intensa, as lágrimas já tendo
todas corrido o que tinham que correr. Inclinou-se em sua cadeira e lhe deu um
beijo. O “beijo de adulto” que nunca haviam dado, o beijo que tinha se perdido
na adolescência tendo os dois seguido rumos tão diferentes mesmo estando na
mesma escola, na mesma turma.
Ele não a interrompeu. Saliva, língua, lábios... Esses lábios grossos dela. O
beijo um tanto emocionado. A cabeça dele girando. E disse a moça olhando para
além dele “Eu te amo”. Mesmo não amando, e sabendo que ele sabia disso. Mesmo
sabendo que ele não a amava também e que claro não havia nada, história ou
tempo para construí-la. Mas disse. Disse porque precisava dizer, porque a
menina nela - aquela que de idade igualava com ele agora naquela cadeira de
rodas dependendo de todas as coisas -exigia.
Disse porque as palavras estavam nela, voando dentro dela, prontas para serem
ditas. Palavras que ela menina nunca conseguira dizer. Como se ela pudesse
fazer o tempo torcer, um tempo circular, onde aquele amor de criança de 9 anos
pudesse ser expresso da mesma forma e com a mesma intensidade que naquela
época.
Aquilo tudo tão
inesperado - mesmo para o vento e para a chuva acostumados com essas coisas –
interrompeu a tempestade. Vento e chuva pararam e foram espiar do lado de fora
o lado de dentro. Ele, tão exausto, tão consumido por si mesmo, por toda a
energia que aquele corpo sem esperança demandava dele. Ela na expectativa do
que ele poderia achar. Havia sido tão louca afinal.
E foi então que
veio o choro dele. Aquele choro que tentara por tantas vezes ludibriar,
guardado desde a época em que a doença fora diagnosticada. Um choro que veio de
um lugar tão escuro e tão abandonado que não pôde identificar. Veio numa força
e intensidade tal, que o desarmou. Raiva, desespero, vazio, a certeza do fim. E
depois, a onda gigante. Logo depois. A onda que destruiria e libertaria ao
mesmo tempo. A onda que era ela. A primeira e a última.
“Eu também”, respondeu e ficou a contemplá-la. Os dois com aquele amor
resgatado, inventado sem saber o que fazer um do outro. Ela novamente tomou a
iniciativa e o abraçou. Ele novamente, deixou-se abraçar. E ficaram ali, se
amando por aqueles poucos segundos que tiveram ate o momento se desfazer ou
então chegar a família dele para a visita.
O homem morreu uns
dias depois do encontro, feliz, outro, em paz, cantarolando em voz alta a
canção que ecoava ao vivo na sua memória - ela, ele e o vento - cantou até a
voz acabar e permanecer em completo silêncio.
Verdade que já tantas vezes imaginara o fim. O que aconteceria se uma onda gigante engolisse o hospital? Será que terminaria a vida estirado no chão sem poder correr? Alguns dias imaginava que se fosse capaz de se antecipar chamando logo a enfermeira seria salvo, e talvez, cadeira de rodas e a doença pudessem desaparecer do mesmo modo que tinha aparecido e ele se fazer homem novamente. Responsável por si, por sua vida.
Ele não a interrompeu. Saliva, língua, lábios... Esses lábios grossos dela. O beijo um tanto emocionado. A cabeça dele girando. E disse a moça olhando para além dele “Eu te amo”. Mesmo não amando, e sabendo que ele sabia disso. Mesmo sabendo que ele não a amava também e que claro não havia nada, história ou tempo para construí-la. Mas disse. Disse porque precisava dizer, porque a menina nela - aquela que de idade igualava com ele agora naquela cadeira de rodas dependendo de todas as coisas -exigia.
Disse porque as palavras estavam nela, voando dentro dela, prontas para serem ditas. Palavras que ela menina nunca conseguira dizer. Como se ela pudesse fazer o tempo torcer, um tempo circular, onde aquele amor de criança de 9 anos pudesse ser expresso da mesma forma e com a mesma intensidade que naquela época.
“Eu também”, respondeu e ficou a contemplá-la. Os dois com aquele amor resgatado, inventado sem saber o que fazer um do outro. Ela novamente tomou a iniciativa e o abraçou. Ele novamente, deixou-se abraçar. E ficaram ali, se amando por aqueles poucos segundos que tiveram ate o momento se desfazer ou então chegar a família dele para a visita.
Thais... Acho que ja falei que achei seu conto perfeito, alias parece que ele nasceu pronto. Eu, quando escrevo algo é sempre um esboço do que virá a ser...Por isto eu me impressiono com a precisão e o encadeamento das ações que vc descreve neste conto.
ResponderExcluirAcho que eu apenas tiraria o "doente em fase terminal" no fim do setimo paragrafo. Acho que ele ja morre ao final e, quando vc usa a palavra "terminal", vc acaba antecipando a situação, o que equivale a tirar um pouco da surpresa final.
Parabens!!
Betina
"Um menino de 30 anos já menino há alguns meses...." Linda a forma de apresentar a doença e o estado de dependência do protagonista. "Vento e chuva pararam pra espiar..." Coisa bonita também. Acho que o comentário da Betina é ótimo. Seu conto, apesar de triste, nos redime ao final. Impressionante. Já havia elogiado o conto em sala, e novamente te dou os parabéns. Bjs.
ResponderExcluirAlém das citações, já elogiadas pelos colegas, gostei tb de "como se ela pudesse fazer o tempo torcer...", "a doença pudesse se esvair e ele se fazer homem novamente" e o vento chamava a todos naquele inicio de noite..."
ResponderExcluirParabéns, Thais. Considero um dos contos mais bonitos ate agora, embora, entre tanto outros, esteja muito difícil de escolher.
bj
vera
Gente muito obrigada pelos comentarios e sugestões (inclusive em sala de aula).
ResponderExcluir