segunda-feira, 25 de março de 2013

Primeiro pseudoconto (exercício do dia 21.03.2013)


morena

Robson Aguiar

Atravessou a rua com inútil pressa e desceu a escadaria que dava acesso à estação. Pensava em nada, e seguiu autômato até o vagão, para a viagem de volta. No caminho, o de sempre. Sujeira, mendigos e frenesi.

Recostou-se, acomodando as costas largas com preguiça. Sentia-se cansado, como de hábito. Mas não estranhava. Não estranhava nada.

Preparava-se para o trajeto letárgico, quando seus olhos cruzaram os olhos da morena.

Não era uma morena qualquer. Olhos castanhos insinuantes, estatura média, corpo desenhado. Estava vestida com leveza e discrição, exatamente como ele admirava. Cabelos encaracolados na altura dos ombros, maquiagem cotidiana, camisa irrefletidamente aberta. Casualmente sensual.

A beleza da mulher comum o atraía. Não se interessava por marias chuteiras, ex-bbbs e rainhas de bateria. Para ele, mulheres dessa linhagem eram belas e gostosas por obrigação.  Interessava-se, sim, pela beleza das caixas de supermercado, atendentes de lojas de departamento, enfermeiras, donas de casa, executivas de multinacionais e advogadas dos escritórios do centro da cidade. Mulheres que, apesar da opressão, exalavam sensualidade.

Assim era morena. Não usava bolsa de marca, e tampouco ostentava o smartphone lançado nos últimos dias. Tinha um olhar ao mesmo tempo inocente e libidinoso. Nas mãos, um livro. (Certo. Era desses livros que figuram na lista dos mais vendidos, mas não importava... Ainda que morena estivesse lendo o famoso 50 Tons, naquelas mãos 50 Tons pareceria Ulisses, pareceria Dom Quixote, pareceria Cem Anos de Solidão. Pareceria uma obra-prima qualquer, como se obras-primas pudessem ser quaisquer. Que diferença faz?).

Extasiado, foi tomado de surpresa quando morena se levantou para abandonar o vagão. Pensou em segui-la, descer três estações antes do seu destino. Fez menção de caminhar para a saída, chegou mesmo a dirigir-se pra lá, mas deu meia volta e cedeu. Afinal, nada aconteceria. Já conhecia aquele enredo. Ainda que as condições se mostrassem favoráveis, sua timidez o impederia.

Nesse mesmo instante, hesitante, atendeu o celular, que insistia:

- Oi, amor. Tudo bem? Estava mesmo pensando em você....

Lá fora, os aparelhos de TV anunciavam o fim do conclave. Sim. O novo papa era argentino.

6 comentários:

  1. Robson! Gostei do conto, gosto desses contos de cotidiano! Achei o final interessante! ;o)

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    1. Pois é, Thais... Gosto do universo cotidiano, urbano. É sobre o que curto escrever. Bjs.

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  2. Olá Robson...
    Li seu conto e gostei...achei a ideia boa..só 2 coisas me intrigaram:
    - Achei que o personagem feminino, por ser uma desconhecida, não deveria ter um nome. Acho que, quando vc falasse dela, poderia dizer: "aquela morena", "a morena", "a mulher" e por aí vai... chama-la de Morena com letra maiuscula me fez confusa sobre o grau de intimidade existente...

    - Quando vc diz "Absorto, quase não notou quando Morena levantou-se"...ahhhh isto é bem dificil... ficar absorto quando a gente identifica na multidão alguem que fisicamente nos atrai?... Sei não...Acho que vc poderia perder ela de vista, lotar o vagão, distrair-se com alguma coisa, sei la..

    Desculpa, mas a minha mente cartesiana não deixou passar estes 2 detalhes!!!
    Abç
    Betina

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    1. Oi Betina.... Os teus dois comentários são muito pertinentes. Obrigado pela dica. Vou repensar esses detalhes. Bjs.

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    2. Olá, Betina. Já mexi pensei nos dois toques que você deu. Obrigado. Bjs.

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  3. Oi Robson,
    Apreciei as observações da Betina. O que me chamou a atenção foi a simplicidade e a clareza com que você escreve suas frases, conseguindo ainda assim, trazer o leitor para dentro do universo dos seus sentimentos.
    bj
    vera

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