morena
Robson Aguiar
Atravessou a rua com inútil pressa e desceu a
escadaria que dava acesso à estação. Pensava em nada, e seguiu autômato até o
vagão, para a viagem de volta. No caminho, o de sempre. Sujeira, mendigos e
frenesi.
Recostou-se, acomodando as costas largas com
preguiça. Sentia-se cansado, como de hábito. Mas não estranhava. Não estranhava
nada.
Preparava-se para o trajeto letárgico, quando seus
olhos cruzaram os olhos da morena.
Não era uma morena qualquer. Olhos castanhos
insinuantes, estatura média, corpo desenhado. Estava vestida com leveza e
discrição, exatamente como ele admirava. Cabelos encaracolados na altura dos
ombros, maquiagem cotidiana, camisa irrefletidamente aberta. Casualmente
sensual.
A beleza da mulher comum o atraía. Não se
interessava por marias chuteiras, ex-bbbs e rainhas de bateria. Para ele,
mulheres dessa linhagem eram belas e gostosas por obrigação. Interessava-se, sim, pela beleza das caixas
de supermercado, atendentes de lojas de departamento, enfermeiras, donas de
casa, executivas de multinacionais e advogadas dos escritórios do centro da
cidade. Mulheres que, apesar da opressão, exalavam sensualidade.
Assim era morena. Não usava bolsa de marca, e tampouco
ostentava o smartphone lançado nos
últimos dias. Tinha um olhar ao mesmo tempo inocente e libidinoso. Nas mãos, um
livro. (Certo. Era desses livros que figuram na lista dos mais vendidos, mas
não importava... Ainda que morena estivesse lendo o famoso 50 Tons, naquelas
mãos 50 Tons pareceria Ulisses,
pareceria Dom Quixote, pareceria Cem Anos de Solidão. Pareceria uma
obra-prima qualquer, como se obras-primas pudessem ser quaisquer. Que diferença
faz?).
Extasiado, foi tomado de surpresa quando morena se levantou
para abandonar o vagão. Pensou em segui-la, descer três estações antes do seu
destino. Fez menção de caminhar para a saída, chegou mesmo a dirigir-se pra lá,
mas deu meia volta e cedeu. Afinal, nada aconteceria. Já conhecia aquele
enredo. Ainda que as condições se mostrassem favoráveis, sua timidez o impederia.
Nesse mesmo instante, hesitante, atendeu o celular,
que insistia:
- Oi, amor. Tudo bem? Estava mesmo pensando em
você....
Lá fora, os aparelhos de TV anunciavam o fim do
conclave. Sim. O novo papa era argentino.
Robson! Gostei do conto, gosto desses contos de cotidiano! Achei o final interessante! ;o)
ResponderExcluirPois é, Thais... Gosto do universo cotidiano, urbano. É sobre o que curto escrever. Bjs.
ExcluirOlá Robson...
ResponderExcluirLi seu conto e gostei...achei a ideia boa..só 2 coisas me intrigaram:
- Achei que o personagem feminino, por ser uma desconhecida, não deveria ter um nome. Acho que, quando vc falasse dela, poderia dizer: "aquela morena", "a morena", "a mulher" e por aí vai... chama-la de Morena com letra maiuscula me fez confusa sobre o grau de intimidade existente...
- Quando vc diz "Absorto, quase não notou quando Morena levantou-se"...ahhhh isto é bem dificil... ficar absorto quando a gente identifica na multidão alguem que fisicamente nos atrai?... Sei não...Acho que vc poderia perder ela de vista, lotar o vagão, distrair-se com alguma coisa, sei la..
Desculpa, mas a minha mente cartesiana não deixou passar estes 2 detalhes!!!
Abç
Betina
Oi Betina.... Os teus dois comentários são muito pertinentes. Obrigado pela dica. Vou repensar esses detalhes. Bjs.
ExcluirOlá, Betina. Já mexi pensei nos dois toques que você deu. Obrigado. Bjs.
ExcluirOi Robson,
ResponderExcluirApreciei as observações da Betina. O que me chamou a atenção foi a simplicidade e a clareza com que você escreve suas frases, conseguindo ainda assim, trazer o leitor para dentro do universo dos seus sentimentos.
bj
vera