Bom dia,
Posto aqui o conto do tema "O doce pássaro da juventude" em duas versões, a original e a que incorpora os comentários do nosso encontro de ontem.
Boa páscoa a todos.
Vicente e Bernardo
Flávio Limoncic
Mariana e Bernardo dormiam. A noite havia sido longa, mas Vicente desempenhara com razoável eficácia - segundo seu próprio julgamento, não tanto no de Mariana - o papel de sentinela. Agora, assumiria o de caçador. Foi trabalhar. Na obra, deu ordens, orientou procedimentos, supervisionou homens e equipamentos, fez subir mais um andar. À noite, perguntou a Mariana como havia sido o dia, trocou Bernardo, jantou, tomou banho e deitou-se cedo, de modo a retomar o papel de sentinela.
No exercício de tal papel, era preciso encontrar o equilíbrio entre atenção e repouso, de modo a perceber qualquer alteração no sono do filho, e agir de acordo, assim como a restaurar as forças para a caça do dia seguinte. E foi nessa zona nebulosa, entre a vigília e o sono, que lembrou de Teresa, do seu cheiro e das suas mãos. Despertou. O fato é que por muito tempo oscilara entre Mariana, pés no chão, e Teresa, mais louca impossível. Perguntou-se se sua escolha por engenharia teria relação com sua escolha por Mariana, pois sempre quisera estudar arquitetura. Agora, restava-lhe viver ao lado de uma mulher que não sabia se amava e executar projetos que outros elaboravam, mesmo um prédio com vidros espelhados e varandas mal-resolvidas. A vida, então, era isso, um leque de escolhas que se fechava um pouco a cada escolha feita, restringindo ou condicionando as escolhas futuras. À medida em que o tempo passava, as escolhas iam se acumulando e produzindo consequências, algumas previstas, outras nem tanto, algumas desejadas, outras nem de longe, e também iam se acumulando umas sobre as outras, as escolhas e as consequências, até que deixavam de ser lembradas como tais e passavam a ser percebidas, e sobretudo sentidas, como aquilo que não poderia ter sido de outro modo. E mesmo que, apenas por suposição, no futuro o outro modo se tornasse a regra, mesmo se houvesse arquitetura e Teresa e todas as suas consequências, engenharia e Mariana continuariam para sempre grudadas nele, na espreita, rondando. Inversamente, as escolhas não feitas, só porque não feitas, tampouco deixavam de espreitar. Permaneciam em estado de latência, surgindo ocasionalmente para cobrar seu preço em forma de noites mal dormidas, como aquela, em dentes rangendo, como os que às vezes tinha, ou em alheamento de si próprio e do mundo, como certa vez temeu cair quando viu Teresa na praia beijando um cara com ternura e tesão.
Vicente, o engenheiro-chefe de uma construção que envolvia cronogramas, fluxogramas, plantas, despachos, planilhas e protocolos de segurança (nem sempre respeitados), muitos deles imprecisos ou irrealistas, e mais de 200 empregados, cada um com seus gostos e manias, tudo e todos, direta ou indiretamente, a ele subordinados, ficou perplexo e confuso com seu próprio raciocínio. Foi salvo do beco sem saída por um soluço de Bernardo. Bernardo, sua melhor escolha, a que jamais teria ousado fazer ao lado de Teresa, a que o ligava para sempre a Mariana. Quis desejar ao filho que sua vida fosse plena de futuros, como a dos que parecem ser eternamente tocados pelo doce pássaro da juventude. Mas não pôde. O pássaro, ele sabia, há muito alçara vôo do seu próprio braço. Um dia, provavelmente, alçaria do de seu filho também. Desejou-lhe apenas que fizesse escolhas boas e corajosas, que aceitasse melhor do que ele o perde-e-ganha que se encerra em cada uma e que as consequências, quando adversas, fossem digeridas sem azias ou congestões. Nada disso garantia felicidade, mas poderia ser antídoto contra o cansaço de tudo, como o que sentia naquele momento. Olhou o relógio, meia-noite. Ainda teria muitas horas pela frente. Virou de lado, fechou os olhos e tentou mergulhar mais uma vez na zona nebulosa entre a vigília e o sono.
Vicente e Bernardo
Flávio Limoncic
Mariana e Bernardo dormem. A noite havia sido longa, mas Vicente desempenhara com razoável eficácia - segundo seu próprio julgamento, não tanto no de Mariana - o papel de sentinela. Agora, assumiria o de caçador. Vai trabalhar. Na obra, da ordens, orienta procedimentos, supervisiona homens e equipamentos, faz subir mais um andar. À noite, pergunta a Mariana como foi o dia, troca Bernardo, janta, toma banho e deita-se cedo, de modo a retomar o papel de sentinela.
No exercício de tal papel, é preciso encontrar o equilíbrio entre atenção e repouso, de modo a perceber qualquer alteração no sono do filho, e agir de acordo, assim como a restaurar as forças para a caça do dia seguinte. E é nessa zona nebulosa, entre a vigília e o sono, que lembra de Teresa, do seu cheiro e das suas mãos. Desperta. O fato é que por muito tempo oscilara entre Mariana, pés no chão, e Teresa, mais louca impossível. Pergunta-se se sua escolha por engenharia teria relação com sua escolha por Mariana, pois sempre quisera estudar arquitetura. Agora, resta-lhe viver ao lado de uma mulher que não sabe se ama e executar projetos que outros elaboram, mesmo um prédio com vidros espelhados e varandas mal-resolvidas.
A vida, então, é isso, um leque de escolhas que se fecha um pouco a cada escolha feita, restringindo ou condicionando as escolhas futuras. À medida em que o tempo passa, as escolhas vão se acumulando e produzindo consequências, algumas previstas, outras nem tanto, algumas desejadas, outras nem de longe, e também vão se acumulando, umas sobre as outras, as escolhas e as consequências, até que deixam de ser lembradas como tais e passam a ser percebidas, e sobretudo sentidas, como aquilo que não poderia ter sido de outro modo. E mesmo que, apenas por suposição, no futuro o outro modo se torne a regra, mesmo se houver arquitetura e Teresa e todas as suas consequências, engenharia e Mariana continuarão para sempre grudadas nele, na espreita, rondando. Inversamente, as escolhas não feitas, só porque não feitas, tampouco deixam de espreitar. Permanecem em estado de latência, surgindo ocasionalmente para cobrar seu preço em noites mal dormidas, como aquela, em dentes rangendo, como os que às vezes tem, ou em alheamento de si próprio e do mundo, como certa vez temeu cair quando viu Teresa na praia beijando um cara com ternura e tesão.
Vicente, o engenheiro-chefe de uma construção que envolve cronogramas, fluxogramas, plantas, despachos, planilhas e protocolos de segurança (nem sempre respeitados), muitos deles imprecisos ou irrealistas, e mais de 200 empregados, cada um com seus gostos e manias, tudo e todos, direta ou indiretamente, a ele subordinados, fica perplexo e confuso com seu próprio raciocínio. É salvo do beco sem saída por um soluço de Bernardo. Bernardo, sua melhor escolha, a que jamais teria ousado fazer ao lado de Teresa, a que o liga para sempre a Mariana. Quer desejar ao filho que sua vida seja plena de futuros, como a dos que parecem eternamente tocados pelo doce pássaro da juventude. Mas não pode. O pássaro, ele sabe, há muito alçara vôo do seu próprio braço. Um dia, provavelmente, alçaria do de seu filho também. Deseja-lhe apenas que faça escolhas boas e corajosas, que aceite melhor do que ele o perde-e-ganha que se encerra em cada uma e que as consequências, quando adversas, sejam digeridas sem azias ou congestões. Nada disso garantiria felicidade, mas poderia ser antídoto contra o cansaço de tudo, como o que sente naquele momento.
Olha o relógio, meia-noite. Ainda teria muitas horas pela frente. Vira de lado, fecha os olhos e tenta mergulhar mais uma vez na zona nebulosa entre a vigília e o sono.
Oi Flavio,
ResponderExcluirUau! Hoje, relendo o seu texto, fiquei impressionada com as construções de frases, com a beleza com que você conseguiu transmitir o seu estado de espirito e com algumas digressões profundas sobre a vida. Fortissimo!
bj
vera
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluir“O diabo desta vida é que, entre cem caminhos, temos que escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros 99” (André Gide) Flavio: acho teu conto bem urdido. Às vezes, as questões reflexivas parecem um pouco extensas, o que dá a certos trechos do conto uma atmosfera de ensaio (?). Mas posso estar falando uma besteira absurda. Enfim.... Gostei de como você construiu o clima de angústia, ele fugindo dos próprios pensamentos por conta da tosse do filho. Muito bacana a forma como utilizou o mote (doce pássaro da juventude) do conto. Abraços!
ResponderExcluirNOssa vou fazer coro aqui. Muito legal o conto! TO vendo que a Betina não escreveu, mas ela adorou tambem. Gostei das reflexões, super profundas tão interessantes. Me lembrou uma musica do Chico chamada As minhas meninas (http://www.vagalume.com.br/chico-buarque/as-minhas-meninas.html). Essa questão do pai pensando no futuro do filho.
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