quinta-feira, 2 de maio de 2013

Amores cruzados



(a partir de “uma história de amor”)
Flávio Limoncic  


Feivel foi se fazendo necessário aos poucos. No início, levava apenas água. Depois, lenha e comida. Também começou a fazer pequenos reparos no telhado. Quando Nadia deu por si, já não   sobreviveria ao inverno sem ele. Por isso, e porque eram nove horas e ele não aparecia e sobre a mesa só restava um pedaço de moela, teve que se controlar para não cair em desespero. 


Cerca de dois meses antes, ele pedira para passar a noite. Nevava muito e ela não teve como recusar. Abraçou o filho na cama estreita, ao passo que ele se deitou no chão. Após alguns instantes, uma respiração ofegante cortou o silêncio. Ela se agarrou ao filho, coração na boca, olhos atentos na escuridão. Não trocaram palavra, mas o ritual repetiu-se algumas vezes, até que uma noite ela também ofegou. Pensando-se desejado, Feivel se lançou sobre ela, mas foi rejeitado com vigor. Confuso e humilhado, recolheu-se e partiu sem nada dizer.  

Não apareceu nas semanas seguintes. Além de cuidar do bebê, Nadia teve que colher ovos, supervisionar armadilhas de coelhos e buscar lenha e água. Seus dedos ficaram feridos, o nariz sangrava, as costas doíam. Rezou para que ele voltasse.  

Ele voltou, mas exigiu seios, coxas e pelos. O preço, alto, foi pago sem regateio, mas de olhos fechados. Nadia aguardou a curra. Nada aconteceu. Abriu os olhos. A um canto, costas contra a parede, Feivel se esfregava com a mão fria. Dois dias depois, quando voltou, Nadia tirou o avental antes mesmo que ele pedisse, pensando que um novo ritual havia se estabelecido. Estava enganada: desviando o olhar e mandando-a se vestir, Feivel pediu perdão e, de forma confusa e atabalhoada, declarou o seu amor. 

A princípio, Nadia sentiu repulsa. Não por muito tempo, pois ali estava ele, tão esquecido pelo mundo quanto ela. A verdade é que se ele se aproveitara da sua situação, também expusera, e de forma ainda mais humilhante, sua completa destituição de tudo. Não menos importante, ao contrário do Conde, que a violentara através de outros homens, ele utilizara apenas seus olhos e sua mão. Enfim, apesar de tudo, cuidava dela e de seu filho com zelo e precisão. Diante das circunstâncias, o que mais poderia pedir? 

Apenas uma coisa: que ele lesse o bilhete deixado por Leizer. Poderia até aceitá-lo em sua cama, quem sabe se afeiçoar a ele, mas precisava saber a razão pela qual havia sido abandonada, pois se recusava a aceitar que Leizer fugira por ter-lhe feito um filho. Feivel hesitou. Depois, leu o bilhete uma, duas, três vezes para si próprio. Por fim, leu em voz alta: 

Meu pai, 
Esta é Nadia, que traz meu filho na barriga. Não peço que os ame, apenas que cuide deles na minha ausência. Volto para buscá-los quando houver encontrado uma vida melhor para todos nós. Leizer  


Então Leizer os amava, desafiava o mundo para resgatá-los daquele pedaço de fim-de-mundo! Nadia abraçou o bebê, sentindo que a ordem natural das coisas, temporariamente suspensa, fora restabelecida. A felicidade plena, porém, logo se fez acompanhar pela consciência da fragilidade sobre a qual se baseiam as coisas da vida, pois teria bastado a Feivel omitir ou acrescentar algumas palavras para que toda a sua ordem, por mais natural que lhe parecesse, ruísse.  


Nadia sabia existirem muitos homens capazes de amor e arrependimento. De um ato de renúncia, poucos. E um deles estava bem à sua frente, olhando-a com olhos tristes. 

Aproximou-se dele e beijou-o na face. Depois, peça por peça, despiu-se em silêncio, vagarosamente, até ficar completamente nua. Trêmulo de emoção, Feivel precisou, como um menino, de ajuda para abaixar as calças. Ela o abraçou, envolvendo-o. Delicadamente de início, depois com uma audácia de que não se sabia capaz, Feivel cobriu-a de beijos e carícias, na ânsia de abarcá-la toda ao mesmo tempo e por todos os lados. Ao menos uma vez a teria, pernas abertas para ele, e ele, para quem nenhuma mulher jamais abrira as pernas, que sequer os braços abrira, viveria o momento da sua vida, desejando, a um só tempo e com a mesma urgência, o que sabia impossível: regá-la abundantemente com seu sêmen e evitar para sempre o gozo, pois quando este chegasse, tudo acabaria.


O bebê chorava, assustado com o barulho e o movimento. Feivel, esgotado, sentou-se por alguns instantes perto do fogão. Quando se recobrou, perguntou a Nadia, que amamentava o filho, o que era preciso providenciar para dali a dois dias.

Apesar do frio, Nadia abriu a porta, tentando adivinhar a silhueta de Feivel recortada na noite escura. Nove e meia. Desapontada, olhou para o chão. Foi quando viu, do lado esquerdo da porta, a cesta com água, lenha e codornas. 


Não tornariam a se ver até o fim do inverno, mas ele a manteve alimentada e aquecida até a chegada da primavera. 


Um comentário:

  1. Conto lindo, lindo, lindo conforme já conversado em sala de aula. Quando sai o romance? Convida para a noite de autógrafos!

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