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domingo, 31 de março de 2013

O ùltimo kimchi



Seria a última vez que experimentaria o “kimchi”, prato típico coreano feito de repolho, alho e pimenta. Entrou de forma confiante no restaurante, sentou-se sozinha à mesa e pediu ao garçom o prato. Falou em coreano quase perfeito, com um leve sotaque do sul do país. Em verdade, essa era a única palavra que falava bem na língua local. A dificuldade do idioma e a facilidade com que se comunicava na linguagem dos gestos a fizeram desistir de aprender na expressão do lugar. Parecia até que eles entendiam o português escorreito que falava simultaneamente ao meticuloso gestual.
Esperou sentada o prato ser montado, relembrando como havia parado ali naquela longínqua parte do planeta. Recém-formada, após idas e vindas com o ex-namorado do qual não conseguia se desvincular, resolveu sair da gaiola que parecia ser a casa de seus pais e voar para o outro lado do mundo, em uma oportunidade de trabalho que havia surgido. Não sabia o que lhe esperava, só pulou quando viu a janela aberta.
Agora estava ali, esperando servirem seu derradeiro “kimchi”. Quando chegou àquela nova terra não conhecia ninguém, toda a página estava em branco para escrever sua história. Se o trabalho serviu para acumular experiência, nos períodos de descanso desbravava seu insólito destino asiático, sempre levada pela sua habilidade em significar coisas e desejos por meio das mãos. À noite, no quarto de hotel, sempre ligava a televisão e ficava só observando os programas, prestando atenção nos ininteligíveis sons emitidos pelas vozes de nativos da Coreia. Via tevê até adormecer, mesmo não entendendo quase nada do que se passava.
Viu o atendente trazer o seu “kimchi” e lembrou como achou tudo diferente quando chegou, mas também como rápida foi a sua adaptação. Sentia-se livre, desprendida de sua raiz, sem a quem dar satisfações ou com quem ter preocupações. Os rostos que pareciam todos iguais quando chegou continuavam a parecer todos iguais, mas a imagem era agora familiar, não causava estranhamento. Chegou a ter alguns casos, com nativos ou estrangeiros, alguns até brasileiros, porém fez questão que todos fossem passageiros, flertes casuais para satisfação dos apelos corporais.
Seu “kimchi” foi colocado à sua frente. Agora, depois daquele último “kimchi”, iria voltar ao Brasil, e conseguir um emprego. Não sabia também o que lhe esperava na volta, só sabia que ela significava o início da vida adulta. Aluguel, contas a pagar, ter amigos, voltar a se relacionar de verdade, quem sabe até ter filhos, talvez um cachorro, essas coisas que, no íntimo, bem lá no fundo, sempre sonhou durante esse tempo de liberdade. Isso tudo era o que sonhava; não tinha e não poderia ter certeza de nada. A única coisa que lhe dava prazer nesse momento era que seria, aí sim com certeza, a última vez que seria obrigada a comer um “kimchi”. Começou então a lentamente comer aquele odiado prato com um largo sorriso nos lábios.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Deixa que a vida se encarrega

Conto apresentado no dia 28-03-13, com o tema: O doce pássaro da juventude, com as alterações sugeridas pelos colegas na oficina, pois as julguei pertinentes. Um abraço.

Meu avô contava muitas histórias. Histórias de quando eu estava muito longe de existir. E eu sempre gostei de ouvi-las. Algumas me deixavam angustiado, mas ouvia atentamente, ainda assim fascinado com coisas diferentes das que eu conhecia. As imagens e pessoas se criavam na minha mente num mundo cheio de cores e de caretas. Meu avô ainda tinha bastante energia, e nossas conversas duravam horas e mais horas. Ele sentado em sua cadeira de balanço e eu ali no chão, ao pé dele. Mesmo as conversas mais banais também nos levavam a debates longos e vigorosos. Ele dizia que gostava quando discutíamos. Mas em geral era ele falando e eu ali sentado ao lado ouvindo.
O vô acordava cedo e depois de beber um só gole de café ia limpar o quintal e cuidar da horta. Depois almoçava. Depois do almoço sentava-se no sofá do quarto com a companhia de um livro e logo pegava no sono. Quando acordava beliscava um pedaço de pão que ficava sobre a mesa, bebia outro gole de café e arrastava sua velha cadeira de balanço para a varanda. Parou de trabalhar na feira, mas não abandonou nem a horta, nem as histórias.
Ali ficava com a caneca de café vazia até não ter mais estrela.
Ele contava quase sempre a mesma coisa, de como os pais dele vieram da roça e de como ele criou meu pai só cuidando de jardins e trabalhando nas feiras pela cidade.
Lá no quintal dos fundos tinha uma horta pequena, mas que o vô cuidava com carinho todos os dias. Ele sempre cultivou ali. E foi com aquela horta que criou os filhos. Com a horta, com a feira e com as histórias. E ele continuou fazendo isso por muito tempo ainda.
Quando chegava o fim de semana eu ia para a casa dos meus avós, ansioso por ouvir aquelas histórias. Tempos depois descobri que não eram as histórias que me fascinavam. Era estar ali com o meu avô. Era aquele momento que nos unia tão intimamente.
Acho que nunca o beijei ou fui beijado por ele. Para dizer a verdade, ele não tinha muito jeito para isso, não era o tipo de pessoa que tem tato, que é afetuosa com os outros. Isso é engraçado, porque ao mesmo tempo em que eu não me lembro de ter visto o vô demonstrando afeto por ninguém – a não ser minha vó, a quem ele beijava a testa todos os dias antes das refeições, ele devia estar agradecendo, não sei – lembro-me dele como alguém muito carinhoso, de um jeito peculiar, talvez.
Mas, exceto por essas demonstrações com a minha avó ele não fazia o mesmo nem com as filhas e menos ainda com os filhos homens; nem os netos o amoleciam, essas crianças às vezes imprudentes que abraçam os seus esperando o mesmo gesto. Parecem duas pessoas: um é austero e fala pouco com os filhos; o outro é jovial, conta as histórias do João-sem-dente lá da feira e sempre me olha direto nos olhos como que para me fazer entender aquela lição.
Eu sempre ficava ansioso para chegar o fim de semana ou as férias, porque era quando eu passava mais tempo com ele.
No nosso último final de semana ele estava calado, não conversamos muito. Fiquei triste, de um jeito involuntário eu esperava por aquilo, não queria que acabasse. O vô ficou o sábado inteiro calado, fez tudo como sempre fazia: um gole de café à tarde depois da sesta e sentou-se na cadeira de balanço na varanda. Não falou muito, não teve história alguma. À noite, antes de dormir ele foi até o quartinho onde eu dormia, sentou-se na beira da cama, segurou forte a minha mão e me disse boa noite. No dia seguinte, quando acordei e ele ainda não tinha se levantado fui até o quarto dele e exigi uma história, uma conversa que fosse. Com os olhos pequenos e voz bem baixa ele disse: “hoje não, criança”.