domingo, 31 de março de 2013

O ùltimo kimchi



Seria a última vez que experimentaria o “kimchi”, prato típico coreano feito de repolho, alho e pimenta. Entrou de forma confiante no restaurante, sentou-se sozinha à mesa e pediu ao garçom o prato. Falou em coreano quase perfeito, com um leve sotaque do sul do país. Em verdade, essa era a única palavra que falava bem na língua local. A dificuldade do idioma e a facilidade com que se comunicava na linguagem dos gestos a fizeram desistir de aprender na expressão do lugar. Parecia até que eles entendiam o português escorreito que falava simultaneamente ao meticuloso gestual.
Esperou sentada o prato ser montado, relembrando como havia parado ali naquela longínqua parte do planeta. Recém-formada, após idas e vindas com o ex-namorado do qual não conseguia se desvincular, resolveu sair da gaiola que parecia ser a casa de seus pais e voar para o outro lado do mundo, em uma oportunidade de trabalho que havia surgido. Não sabia o que lhe esperava, só pulou quando viu a janela aberta.
Agora estava ali, esperando servirem seu derradeiro “kimchi”. Quando chegou àquela nova terra não conhecia ninguém, toda a página estava em branco para escrever sua história. Se o trabalho serviu para acumular experiência, nos períodos de descanso desbravava seu insólito destino asiático, sempre levada pela sua habilidade em significar coisas e desejos por meio das mãos. À noite, no quarto de hotel, sempre ligava a televisão e ficava só observando os programas, prestando atenção nos ininteligíveis sons emitidos pelas vozes de nativos da Coreia. Via tevê até adormecer, mesmo não entendendo quase nada do que se passava.
Viu o atendente trazer o seu “kimchi” e lembrou como achou tudo diferente quando chegou, mas também como rápida foi a sua adaptação. Sentia-se livre, desprendida de sua raiz, sem a quem dar satisfações ou com quem ter preocupações. Os rostos que pareciam todos iguais quando chegou continuavam a parecer todos iguais, mas a imagem era agora familiar, não causava estranhamento. Chegou a ter alguns casos, com nativos ou estrangeiros, alguns até brasileiros, porém fez questão que todos fossem passageiros, flertes casuais para satisfação dos apelos corporais.
Seu “kimchi” foi colocado à sua frente. Agora, depois daquele último “kimchi”, iria voltar ao Brasil, e conseguir um emprego. Não sabia também o que lhe esperava na volta, só sabia que ela significava o início da vida adulta. Aluguel, contas a pagar, ter amigos, voltar a se relacionar de verdade, quem sabe até ter filhos, talvez um cachorro, essas coisas que, no íntimo, bem lá no fundo, sempre sonhou durante esse tempo de liberdade. Isso tudo era o que sonhava; não tinha e não poderia ter certeza de nada. A única coisa que lhe dava prazer nesse momento era que seria, aí sim com certeza, a última vez que seria obrigada a comer um “kimchi”. Começou então a lentamente comer aquele odiado prato com um largo sorriso nos lábios.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Deixa que a vida se encarrega

Conto apresentado no dia 28-03-13, com o tema: O doce pássaro da juventude, com as alterações sugeridas pelos colegas na oficina, pois as julguei pertinentes. Um abraço.

Meu avô contava muitas histórias. Histórias de quando eu estava muito longe de existir. E eu sempre gostei de ouvi-las. Algumas me deixavam angustiado, mas ouvia atentamente, ainda assim fascinado com coisas diferentes das que eu conhecia. As imagens e pessoas se criavam na minha mente num mundo cheio de cores e de caretas. Meu avô ainda tinha bastante energia, e nossas conversas duravam horas e mais horas. Ele sentado em sua cadeira de balanço e eu ali no chão, ao pé dele. Mesmo as conversas mais banais também nos levavam a debates longos e vigorosos. Ele dizia que gostava quando discutíamos. Mas em geral era ele falando e eu ali sentado ao lado ouvindo.
O vô acordava cedo e depois de beber um só gole de café ia limpar o quintal e cuidar da horta. Depois almoçava. Depois do almoço sentava-se no sofá do quarto com a companhia de um livro e logo pegava no sono. Quando acordava beliscava um pedaço de pão que ficava sobre a mesa, bebia outro gole de café e arrastava sua velha cadeira de balanço para a varanda. Parou de trabalhar na feira, mas não abandonou nem a horta, nem as histórias.
Ali ficava com a caneca de café vazia até não ter mais estrela.
Ele contava quase sempre a mesma coisa, de como os pais dele vieram da roça e de como ele criou meu pai só cuidando de jardins e trabalhando nas feiras pela cidade.
Lá no quintal dos fundos tinha uma horta pequena, mas que o vô cuidava com carinho todos os dias. Ele sempre cultivou ali. E foi com aquela horta que criou os filhos. Com a horta, com a feira e com as histórias. E ele continuou fazendo isso por muito tempo ainda.
Quando chegava o fim de semana eu ia para a casa dos meus avós, ansioso por ouvir aquelas histórias. Tempos depois descobri que não eram as histórias que me fascinavam. Era estar ali com o meu avô. Era aquele momento que nos unia tão intimamente.
Acho que nunca o beijei ou fui beijado por ele. Para dizer a verdade, ele não tinha muito jeito para isso, não era o tipo de pessoa que tem tato, que é afetuosa com os outros. Isso é engraçado, porque ao mesmo tempo em que eu não me lembro de ter visto o vô demonstrando afeto por ninguém – a não ser minha vó, a quem ele beijava a testa todos os dias antes das refeições, ele devia estar agradecendo, não sei – lembro-me dele como alguém muito carinhoso, de um jeito peculiar, talvez.
Mas, exceto por essas demonstrações com a minha avó ele não fazia o mesmo nem com as filhas e menos ainda com os filhos homens; nem os netos o amoleciam, essas crianças às vezes imprudentes que abraçam os seus esperando o mesmo gesto. Parecem duas pessoas: um é austero e fala pouco com os filhos; o outro é jovial, conta as histórias do João-sem-dente lá da feira e sempre me olha direto nos olhos como que para me fazer entender aquela lição.
Eu sempre ficava ansioso para chegar o fim de semana ou as férias, porque era quando eu passava mais tempo com ele.
No nosso último final de semana ele estava calado, não conversamos muito. Fiquei triste, de um jeito involuntário eu esperava por aquilo, não queria que acabasse. O vô ficou o sábado inteiro calado, fez tudo como sempre fazia: um gole de café à tarde depois da sesta e sentou-se na cadeira de balanço na varanda. Não falou muito, não teve história alguma. À noite, antes de dormir ele foi até o quartinho onde eu dormia, sentou-se na beira da cama, segurou forte a minha mão e me disse boa noite. No dia seguinte, quando acordei e ele ainda não tinha se levantado fui até o quarto dele e exigi uma história, uma conversa que fosse. Com os olhos pequenos e voz bem baixa ele disse: “hoje não, criança”. 

Vicente e Bernardo


Bom dia, 
Posto aqui o conto do tema "O doce pássaro da juventude" em duas versões, a original e a que incorpora os  comentários do nosso encontro de ontem. 
Boa páscoa a todos. 



Vicente e Bernardo 

Flávio Limoncic

          Mariana e Bernardo dormiam. A noite havia sido longa, mas Vicente desempenhara com  razoável eficácia - segundo seu próprio julgamento, não tanto no de Mariana - o papel de sentinela. Agora, assumiria o de caçador. Foi trabalhar. Na obra, deu ordens, orientou procedimentos, supervisionou homens e equipamentos, fez subir mais um andar. À noite, perguntou a Mariana como havia sido o dia, trocou Bernardo, jantou, tomou banho e deitou-se cedo, de modo a retomar o papel de sentinela. 
  No exercício de tal papel, era preciso encontrar o equilíbrio entre atenção e repouso, de modo a perceber qualquer alteração no sono do filho, e agir de acordo, assim como a restaurar as forças para a caça do dia seguinte. E foi nessa zona nebulosa, entre a vigília e o sono, que lembrou de Teresa, do seu cheiro e das suas mãos. Despertou. O fato é que por muito tempo oscilara entre Mariana, pés no chão, e Teresa, mais louca impossível. Perguntou-se se sua escolha por engenharia teria relação com sua escolha por Mariana, pois sempre quisera estudar arquitetura. Agora, restava-lhe viver ao lado de uma mulher que não sabia se amava e executar projetos que outros elaboravam, mesmo um prédio com vidros espelhados e varandas mal-resolvidas. A vida, então, era isso, um leque de escolhas que se fechava um pouco a cada escolha feita, restringindo ou condicionando as escolhas futuras. À medida em que o tempo passava, as escolhas iam se acumulando e produzindo consequências, algumas previstas, outras nem tanto, algumas desejadas, outras nem de longe, e também iam se acumulando umas sobre as outras, as escolhas e as consequências, até que deixavam de ser lembradas como tais e passavam a ser percebidas, e sobretudo sentidas, como aquilo que não poderia ter sido de outro modo. E mesmo que, apenas por suposição, no futuro o outro modo se tornasse a regra, mesmo se houvesse arquitetura e Teresa e todas as suas consequências, engenharia e Mariana continuariam para sempre grudadas nele, na espreita, rondando. Inversamente, as escolhas não feitas, só porque não feitas, tampouco deixavam de espreitar. Permaneciam em estado de latência, surgindo ocasionalmente para cobrar seu preço em forma de noites mal dormidas, como aquela, em dentes rangendo, como os que às vezes tinha, ou em alheamento de si próprio e do mundo, como certa vez temeu cair quando viu Teresa na praia beijando um cara com ternura e tesão. 
  Vicente, o engenheiro-chefe de uma construção que envolvia cronogramas, fluxogramas, plantas, despachos, planilhas e protocolos de segurança (nem sempre respeitados), muitos deles imprecisos ou irrealistas, e mais de 200 empregados, cada um com seus gostos e manias, tudo e todos, direta ou indiretamente, a ele subordinados, ficou perplexo e confuso com seu próprio raciocínio. Foi salvo do beco sem saída por um soluço de Bernardo. Bernardo, sua melhor escolha, a que jamais teria ousado fazer ao lado de Teresa, a que o ligava para sempre a Mariana. Quis desejar ao filho que sua vida fosse plena de futuros, como a dos que parecem ser eternamente tocados pelo doce pássaro da juventude. Mas não pôde. O pássaro, ele sabia, há muito alçara vôo do seu próprio braço. Um dia, provavelmente, alçaria do de seu filho também. Desejou-lhe apenas que fizesse escolhas boas e corajosas, que aceitasse melhor do que ele o perde-e-ganha que se encerra em cada uma e que as consequências, quando adversas, fossem digeridas sem azias ou congestões. Nada disso garantia felicidade, mas poderia ser antídoto contra o cansaço de tudo, como o que sentia naquele momento. Olhou o relógio, meia-noite. Ainda teria muitas horas pela frente. Virou de lado, fechou os olhos e tentou mergulhar mais uma vez na zona nebulosa entre a vigília e o sono. 


Vicente e Bernardo 

Flávio Limoncic


  Mariana e Bernardo dormem. A noite havia sido longa, mas Vicente desempenhara com  razoável eficácia - segundo seu próprio julgamento, não tanto no de Mariana - o papel de sentinela. Agora, assumiria o de caçador. Vai trabalhar. Na obra, da ordens, orienta procedimentos, supervisiona homens e equipamentos, faz subir mais um andar. À noite, pergunta a Mariana como foi o dia, troca Bernardo, janta, toma banho e deita-se cedo, de modo a retomar o papel de sentinela. 
No exercício de tal papel, é preciso encontrar o equilíbrio entre atenção e repouso, de modo a perceber qualquer alteração no sono do filho, e agir de acordo, assim como a restaurar as forças para a caça do dia seguinte. E é nessa zona nebulosa, entre a vigília e o sono, que lembra de Teresa, do seu cheiro e das suas mãos. Desperta. O fato é que por muito tempo oscilara entre Mariana, pés no chão, e Teresa, mais louca impossível. Pergunta-se se sua escolha por engenharia teria relação com sua escolha por Mariana, pois sempre quisera estudar arquitetura. Agora, resta-lhe viver ao lado de uma mulher que não sabe se ama e executar projetos que outros elaboram, mesmo um prédio com vidros espelhados e varandas mal-resolvidas. 
A vida, então, é isso, um leque de escolhas que se fecha um pouco a cada escolha feita, restringindo ou condicionando as escolhas futuras. À medida em que o tempo passa, as escolhas vão se acumulando e produzindo consequências, algumas previstas, outras nem tanto, algumas desejadas, outras nem de longe, e também vão se acumulando, umas sobre as outras, as escolhas e as consequências, até que deixam de ser lembradas como tais e passam a ser percebidas, e sobretudo sentidas, como aquilo que não poderia ter sido de outro modo. E mesmo que, apenas por suposição, no futuro o outro modo se torne a regra, mesmo se houver arquitetura e Teresa e todas as suas consequências, engenharia e Mariana continuarão para sempre grudadas nele, na espreita, rondando. Inversamente, as escolhas não feitas, só porque não feitas, tampouco deixam de espreitar. Permanecem em estado de latência, surgindo ocasionalmente para cobrar seu preço em noites mal dormidas, como aquela, em dentes rangendo, como os que às vezes tem, ou em alheamento de si próprio e do mundo, como certa vez temeu cair quando viu Teresa na praia beijando um cara com ternura e tesão. 
Vicente, o engenheiro-chefe de uma construção que envolve cronogramas, fluxogramas, plantas, despachos, planilhas e protocolos de segurança (nem sempre respeitados), muitos deles imprecisos ou irrealistas, e mais de 200 empregados, cada um com seus gostos e manias, tudo e todos, direta ou indiretamente, a ele subordinados, fica perplexo e confuso com seu próprio raciocínio. É salvo do beco sem saída por um soluço de Bernardo. Bernardo, sua melhor escolha, a que jamais teria ousado fazer ao lado de Teresa, a que o liga para sempre a Mariana. Quer desejar ao filho que sua vida seja plena de futuros, como a dos que parecem eternamente tocados pelo doce pássaro da juventude. Mas não pode. O pássaro, ele sabe, há muito alçara vôo do seu próprio braço. Um dia, provavelmente, alçaria do de seu filho também. Deseja-lhe apenas que faça escolhas boas e corajosas, que aceite melhor do que ele o perde-e-ganha que se encerra em cada uma e que as consequências, quando adversas, sejam digeridas sem azias ou congestões. Nada disso garantiria felicidade, mas poderia ser antídoto contra o cansaço de tudo, como o que sente naquele momento. 
Olha o relógio, meia-noite. Ainda teria muitas horas pela frente. Vira de lado, fecha os olhos e tenta mergulhar mais uma vez na zona nebulosa entre a vigília e o sono. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Exercicio- Aula de 21/03 -Modificado

MANHÃ
Porque será que, às vezes, um dia da vida parece conter toda a nossa vida?
Este foi o pensamento primeiro que me assaltou assim que eu abri os olhos numa manhã tão igual às outras.
Ainda deitada e enrolada nas cobertas, apenas vislumbrei alguma claridade no quarto para imediatamente fechar os olhos sem me mover. Comecei então a girar meu HD mental para descobrir o que aquela frase queria dizer. Tentei lembrar dos sonhos que tive ao longo da noite e, aos poucos, como num quadro que não conseguimos distinguir formas,  alguns flashs confusos de situações foram voltando. Tudo vinha misturado: personagens, sons e sentimentos, mas, ao tentar racionalizar, aquele fragmento fugiu-me completamente...Ainda demorei um pouco na mesma posição, mas já não conseguia nada. Os sonhos tem vontade própria, ora mostram-se em sua totalidade com roteiro e enredo, ora mostram-se tímidos e vagos, revelando-se aos bocadinhos ao longo do dia.
Lembrei-me então da noite anterior e, subitamente, foi como se um peso, que desaparecera apenas durante as poucas horas de sono, voltasse a oprimir. Lembrei do nosso encontro no dia anterior. Vivenciei novamente meu prazer e a excitação do “antes” em contraste com a confusão de sentimentos, em especial o abandono, que eu sempre sentia depois de te ver. Sentei na cama ainda um pouco atordoada, mas já sentindo a garganta quase sufocar. Num gesto automático, abri a janela.
A paisagem da cidade, calorenta já pela manhã, era como um quadro na parede. Tive a sensação de ser uma observadora da vida, como se eu estivesse de fora do mundo, como se o meu papel fosse o olhar tudo sem participar de nada. A cabeça pesada em associação com a tristeza se encarregavam de me apartar do mundo. Apoiei os cotovelos na janela e meu queixo nas mãos.
Pensei na nossa duradoura e talvez frágil relação: Sem nenhuma briga, cheia de intimidades e nenhum comprometimento.  Cada um mostrando tudo do melhor e fingindo que, entre nós, havíamos construído um mundo perfeito.
De uns anos pra cá consigo intuir o desequilibrio provocado pelo descompromisso da nossa amizade, que te fortalece, frente a minha paixão não explicita, que me enfraquece. Nossa relação foi desenhada pelas suas habilidades e eu, sempre tão atenta, deixei-me levar e acomodar na historia que você ditou. Meu desanimo profundo, para me fazer mais infeliz, ainda me alerta para a repetição desta situação ao longo da minha vida. Como num looping, novamente me culpo e sei que, mesmo do alto dos meus quase 40 anos, minhas relações acabam sempre me levando a este estado de espírito. Neste instante considerei novamente a frase “um dia na vida que contem toda a vida”. Círculos concêntricos intermináveis foi a imagem que se seguiu.
E, por associação, uma cena do sonho recém sonhado delineou-se:  Água cristalina e azul, água em movimento contendo vida, vida que nasce em uma concha, concha branca em formato oval , linda, que se entreabre delicadamente mostrando um filhote de cachorro. Um bebê cachorro vivaz, de pelo suave e cor de caramelo.
Talvez, ao longo da noite, o inconsciente nos proporcione algum conforto, um refugio com espaço de tempo determinado, para que possamos lidar melhor com as decepções...Quando me esforço pra lembrar o resto, o sonho some novamente. Fico eu apenas com este fio de um novelo maior.
A paisagem da rua continuava lá, os carros rosnam em conjunto e seguem seus caminhos, o vento sopra suave e a folhagem das arvores acompanha este ritmo, o sol estende-se em parte da rua e as pessoas caminham apressadas para seus afazeres.  Incrível! Um novo dia, e minha tristeza em nada afeta esta manhã.
Num relance rotineiro olho o relógio da cabeceira, percebo o ponteiro dos minutos no seu eterno e ritmado arrastar e penso: Os minutos passam lentamente, mas, o conjunto de dias, a vida, passa voando, como pode ser?
Agora eu percebo o relógio, e desta vez, minha rotina faz-se presente e quase berra em meus ouvidos que estou atrasada. Finjo que não me importo, num ultimo esforço, tento continuar com minhas conjecturas, quero desesperadamente voltar a um estado de contemplação onde as dores doem menos, mas nada! Meu senso de obrigação é mais forte
O esforço é em vão e a vida vista pela janela pesa e se apossa de meus sentidos. Meu quarto agora volta a fazer parte do mundo, não é mais referencial para a apreciação. E, num segundo, a vida exige, se impõe, não dá brecha, não consola, atropela...
...Como os círculos, concêntricos e intermináveis, espetáculo que não se repete.






O amor, a tempestade e o vento

Cantando a cantiga mais antiga já ouvida, o vento chamava todos naquele inicio de noite. Queria aqueles do lado de dentro dançando do lado de fora, na chuva, livres da mesmice daquela prisão branca.
 
Um homem de 30 anos já menino há alguns meses reconheceu a música assim que a ouviu. Viu a si mesmo embalado no colo da avó comendo pipoca doce com leite condensado. Perdido, ora se inclinava da cadeira no ímpeto de voar da janela e se misturar ao vento. Ora tinha a certeza de que o prédio iria desabar a qualquer momento e pensava que talvez melhor fosse chamar a enfermeira o quanto antes.

Verdade que já tantas vezes imaginara o fim. O que aconteceria se uma onda gigante engolisse o hospital? Será que terminaria a vida estirado no chão sem poder correr? Alguns dias imaginava que se fosse capaz de se antecipar chamando logo a enfermeira seria salvo, e talvez, cadeira de rodas e a doença pudessem desaparecer do mesmo modo que tinha aparecido e ele se fazer homem novamente. Responsável por si, por sua vida.

No meio dessa tempestade já cansada de tanto ventar e chover, ela entrou no quarto trazida pela enfermeira. Linda e ainda jovem ela o via pela primeira vez depois de 12 anos. Sem rodeios, sem medo, o encarou por algum tempo.
 
A visita sustentou o olhar o quanto pôde ate desabar num choro profundo, doído, um choro de toda a chuva do lado de fora e mais uns tantos litros. Não escondeu o rosto, não pediu perdão ou disse “Vai ficar tudo bem”. Apenas puxou a cadeira sentando-se ao seu lado. Cadeira colada com cadeira colada como nos tempos da escola.
 
Por um momento, por uma questão de ritmo, ele tentou respirar junto com a respiração dela, buscando conduzi-la ao ritmo da cantiga, daquela cantiga do vento. Ela em silêncio por não conseguir dizer nada, ele em silêncio em respeito ao ritmo, os dois numa conversa de alma e de memórias.
 
Um dueto. Ele a lembrar dos cabelos rebeldes, das bolinhas de papel, dos papeis de carta. Ela a lembrar das mãos dadas, do segredo, do beijo escondido atrás da pilastra numa nostalgia asfixiante a embriagá-los. Ela com a vida pela frente, ele, da mesma idade, tão doente.
 
De repente, ela mudou o ritmo, e a respiração tornou-se ofegante, intensa, as lágrimas já tendo todas corrido o que tinham que correr. Inclinou-se em sua cadeira e lhe deu um beijo. O “beijo de adulto” que nunca haviam dado, o beijo que tinha se perdido na adolescência tendo os dois seguido rumos tão diferentes mesmo estando na mesma escola, na mesma turma.

Ele não a interrompeu. Saliva, língua, lábios... Esses lábios grossos dela. O beijo um tanto emocionado. A cabeça dele girando. E disse a moça olhando para além dele “Eu te amo”. Mesmo não amando, e sabendo que ele sabia disso. Mesmo sabendo que ele não a amava também e que claro não havia nada, história ou tempo para construí-la. Mas disse. Disse porque precisava dizer, porque a menina nela - aquela que de idade igualava com ele agora naquela cadeira de rodas dependendo de todas as coisas -exigia.

Disse porque as palavras estavam nela, voando dentro dela, prontas para serem ditas. Palavras que ela menina nunca conseguira dizer. Como se ela pudesse fazer o tempo torcer, um tempo circular, onde aquele amor de criança de 9 anos pudesse ser expresso da mesma forma e com a mesma intensidade que naquela época.

Aquilo tudo tão inesperado - mesmo para o vento e para a chuva acostumados com essas coisas – interrompeu a tempestade. Vento e chuva pararam e foram espiar do lado de fora o lado de dentro. Ele, tão exausto, tão consumido por si mesmo, por toda a energia que aquele corpo sem esperança demandava dele. Ela na expectativa do que ele poderia achar. Havia sido tão louca afinal.
 
E foi então que veio o choro dele. Aquele choro que tentara por tantas vezes ludibriar, guardado desde a época em que a doença fora diagnosticada. Um choro que veio de um lugar tão escuro e tão abandonado que não pôde identificar. Veio numa força e intensidade tal, que o desarmou. Raiva, desespero, vazio, a certeza do fim. E depois, a onda gigante. Logo depois. A onda que destruiria e libertaria ao mesmo tempo. A onda que era ela. A primeira e a última.

“Eu também”, respondeu e ficou a contemplá-la. Os dois com aquele amor resgatado, inventado sem saber o que fazer um do outro. Ela novamente tomou a iniciativa e o abraçou. Ele novamente, deixou-se abraçar. E ficaram ali, se amando por aqueles poucos segundos que tiveram ate o momento se desfazer ou então chegar a família dele para a visita.

O homem morreu uns dias depois do encontro, feliz, outro, em paz, cantarolando em voz alta a canção que ecoava ao vivo na sua memória - ela, ele e o vento - cantou até a voz acabar e permanecer em completo silêncio.
 

 

Primeiro pseudoconto (exercício do dia 21.03.2013)


morena

Robson Aguiar

Atravessou a rua com inútil pressa e desceu a escadaria que dava acesso à estação. Pensava em nada, e seguiu autômato até o vagão, para a viagem de volta. No caminho, o de sempre. Sujeira, mendigos e frenesi.

Recostou-se, acomodando as costas largas com preguiça. Sentia-se cansado, como de hábito. Mas não estranhava. Não estranhava nada.

Preparava-se para o trajeto letárgico, quando seus olhos cruzaram os olhos da morena.

Não era uma morena qualquer. Olhos castanhos insinuantes, estatura média, corpo desenhado. Estava vestida com leveza e discrição, exatamente como ele admirava. Cabelos encaracolados na altura dos ombros, maquiagem cotidiana, camisa irrefletidamente aberta. Casualmente sensual.

A beleza da mulher comum o atraía. Não se interessava por marias chuteiras, ex-bbbs e rainhas de bateria. Para ele, mulheres dessa linhagem eram belas e gostosas por obrigação.  Interessava-se, sim, pela beleza das caixas de supermercado, atendentes de lojas de departamento, enfermeiras, donas de casa, executivas de multinacionais e advogadas dos escritórios do centro da cidade. Mulheres que, apesar da opressão, exalavam sensualidade.

Assim era morena. Não usava bolsa de marca, e tampouco ostentava o smartphone lançado nos últimos dias. Tinha um olhar ao mesmo tempo inocente e libidinoso. Nas mãos, um livro. (Certo. Era desses livros que figuram na lista dos mais vendidos, mas não importava... Ainda que morena estivesse lendo o famoso 50 Tons, naquelas mãos 50 Tons pareceria Ulisses, pareceria Dom Quixote, pareceria Cem Anos de Solidão. Pareceria uma obra-prima qualquer, como se obras-primas pudessem ser quaisquer. Que diferença faz?).

Extasiado, foi tomado de surpresa quando morena se levantou para abandonar o vagão. Pensou em segui-la, descer três estações antes do seu destino. Fez menção de caminhar para a saída, chegou mesmo a dirigir-se pra lá, mas deu meia volta e cedeu. Afinal, nada aconteceria. Já conhecia aquele enredo. Ainda que as condições se mostrassem favoráveis, sua timidez o impederia.

Nesse mesmo instante, hesitante, atendeu o celular, que insistia:

- Oi, amor. Tudo bem? Estava mesmo pensando em você....

Lá fora, os aparelhos de TV anunciavam o fim do conclave. Sim. O novo papa era argentino.

Bem Vindos

Sejam bem vindos ao nosso blog de 19 autores! Vamos postar aqui nossos contos a cada novo exercício.  A ideia é comentar os contos dos outros alunos, comentar pelo menos 3 contos por exercício. :o)