segunda-feira, 25 de março de 2013

Exercicio- Aula de 21/03 -Modificado

MANHÃ
Porque será que, às vezes, um dia da vida parece conter toda a nossa vida?
Este foi o pensamento primeiro que me assaltou assim que eu abri os olhos numa manhã tão igual às outras.
Ainda deitada e enrolada nas cobertas, apenas vislumbrei alguma claridade no quarto para imediatamente fechar os olhos sem me mover. Comecei então a girar meu HD mental para descobrir o que aquela frase queria dizer. Tentei lembrar dos sonhos que tive ao longo da noite e, aos poucos, como num quadro que não conseguimos distinguir formas,  alguns flashs confusos de situações foram voltando. Tudo vinha misturado: personagens, sons e sentimentos, mas, ao tentar racionalizar, aquele fragmento fugiu-me completamente...Ainda demorei um pouco na mesma posição, mas já não conseguia nada. Os sonhos tem vontade própria, ora mostram-se em sua totalidade com roteiro e enredo, ora mostram-se tímidos e vagos, revelando-se aos bocadinhos ao longo do dia.
Lembrei-me então da noite anterior e, subitamente, foi como se um peso, que desaparecera apenas durante as poucas horas de sono, voltasse a oprimir. Lembrei do nosso encontro no dia anterior. Vivenciei novamente meu prazer e a excitação do “antes” em contraste com a confusão de sentimentos, em especial o abandono, que eu sempre sentia depois de te ver. Sentei na cama ainda um pouco atordoada, mas já sentindo a garganta quase sufocar. Num gesto automático, abri a janela.
A paisagem da cidade, calorenta já pela manhã, era como um quadro na parede. Tive a sensação de ser uma observadora da vida, como se eu estivesse de fora do mundo, como se o meu papel fosse o olhar tudo sem participar de nada. A cabeça pesada em associação com a tristeza se encarregavam de me apartar do mundo. Apoiei os cotovelos na janela e meu queixo nas mãos.
Pensei na nossa duradoura e talvez frágil relação: Sem nenhuma briga, cheia de intimidades e nenhum comprometimento.  Cada um mostrando tudo do melhor e fingindo que, entre nós, havíamos construído um mundo perfeito.
De uns anos pra cá consigo intuir o desequilibrio provocado pelo descompromisso da nossa amizade, que te fortalece, frente a minha paixão não explicita, que me enfraquece. Nossa relação foi desenhada pelas suas habilidades e eu, sempre tão atenta, deixei-me levar e acomodar na historia que você ditou. Meu desanimo profundo, para me fazer mais infeliz, ainda me alerta para a repetição desta situação ao longo da minha vida. Como num looping, novamente me culpo e sei que, mesmo do alto dos meus quase 40 anos, minhas relações acabam sempre me levando a este estado de espírito. Neste instante considerei novamente a frase “um dia na vida que contem toda a vida”. Círculos concêntricos intermináveis foi a imagem que se seguiu.
E, por associação, uma cena do sonho recém sonhado delineou-se:  Água cristalina e azul, água em movimento contendo vida, vida que nasce em uma concha, concha branca em formato oval , linda, que se entreabre delicadamente mostrando um filhote de cachorro. Um bebê cachorro vivaz, de pelo suave e cor de caramelo.
Talvez, ao longo da noite, o inconsciente nos proporcione algum conforto, um refugio com espaço de tempo determinado, para que possamos lidar melhor com as decepções...Quando me esforço pra lembrar o resto, o sonho some novamente. Fico eu apenas com este fio de um novelo maior.
A paisagem da rua continuava lá, os carros rosnam em conjunto e seguem seus caminhos, o vento sopra suave e a folhagem das arvores acompanha este ritmo, o sol estende-se em parte da rua e as pessoas caminham apressadas para seus afazeres.  Incrível! Um novo dia, e minha tristeza em nada afeta esta manhã.
Num relance rotineiro olho o relógio da cabeceira, percebo o ponteiro dos minutos no seu eterno e ritmado arrastar e penso: Os minutos passam lentamente, mas, o conjunto de dias, a vida, passa voando, como pode ser?
Agora eu percebo o relógio, e desta vez, minha rotina faz-se presente e quase berra em meus ouvidos que estou atrasada. Finjo que não me importo, num ultimo esforço, tento continuar com minhas conjecturas, quero desesperadamente voltar a um estado de contemplação onde as dores doem menos, mas nada! Meu senso de obrigação é mais forte
O esforço é em vão e a vida vista pela janela pesa e se apossa de meus sentidos. Meu quarto agora volta a fazer parte do mundo, não é mais referencial para a apreciação. E, num segundo, a vida exige, se impõe, não dá brecha, não consola, atropela...
...Como os círculos, concêntricos e intermináveis, espetáculo que não se repete.






3 comentários:

  1. Betina que show! Arrasou! Amei, amei! Colei aqui umas citações que curti mas tem muitas outras que gostei. Serio, o conto ficou MUITO melhor na minha humilde opinião agora. Redondo.
    "A paisagem da cidade, calorenta já pela manhã, era como um quadro na parede."
    " Nossa relação foi desenhada pelas suas habilidades e eu, sempre tão atenta, deixei-me levar e acomodar na historia que você ditou. "
    "Fico eu apenas com este fio de um novelo maior."
    "Um novo dia, e minha tristeza em nada afeta esta manhã. "
    "quero desesperadamente voltar a um estado de contemplação onde as dores doem menos,"
    "O esforço é em vão e a vida vista pela janela pesa e se apossa de meus sentidos."

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  2. Betina.... Seu texto está muito bom. Algumas frases são especialmente belas: "Tive a sensação de ser uma observadora da vida, como se eu estivesse de fora do mundo, como se o meu papel fosse o olhar tudo sem participar de nada"; "Incrível! Um novo dia, e minha tristeza em nada afeta esta manhã."; "Os minutos passam lentamente, mas, o conjunto de dias, a vida, passa voando, como pode ser?"; essa última é sensacional. Há outros vários trechos muito bons. Adorei você ter começado com interrogação e, também, em algum ponto do texto, ter usado exclamação. Enfim: parabéns. Bjs.

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  3. Betina,
    Houve muitos momentos bonitos no seu texto. O que mais gostei foi "...o sonho foge novamente,fico eu apenas com este fio de um novelo maior". Muito lindo. Também apreciei o encadeamento de eventos e a construção do texto. Parabéns.
    bj
    vera

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