quinta-feira, 25 de abril de 2013

Queijos e Vinhos


Choveu a noite inteira. Os planos para o domingo diluíram-se com a tempestade e os cinco amigos ficaram sem saber se o encontro combinado há semanas aconteceria realmente. Não se viam com freqüência. Mas quando acertavam essas ocasiões os momentos juntos eram marcantes. Era apenas uma desculpa para brindarem a presença uns dos outros.
O encontro, como seria? O piquenique no domingo foi decidido em correspondências eletrônicas nas últimas semanas, a única comunicação possível nestes dias de trabalhos e família que exigem urgência. E agora teriam de mudar a decisão.
Está fora de questão para hoje, não é agradável banquetear-se com a grama e a terra molhadas. Ah, pena, um dia perdido. Mas quando se encontrariam novamente? Quando filhos, maridos e teses permitissem. Mas a depender das teses, não seria logo. Seria melhor deixar o encontro para a próxima semana e esperar que o sol os agraciasse com sua presença ou se encontrarem mais tarde, num lugar igualmente acolhedor e celebrarem ainda assim?
Decidiram em breves mensagens coletivas pelo celular que se encontrariam no quartel general, o lugar de sempre: o apartamento do único casal sem filhos do grupo. Um apartamento antigo numa parte tranqüila da cidade que fica numa ruazinha estreita no centro, tem uma sala ampla, um gato recém chegado a se esconder dos visitantes, e algumas garrafas de vinho levadas pelos convidados. Era um banquete e a verdade era também uma das convidadas.
O local foi decidido na última hora, e o horário também. Combinaram às cinco. Chegaram-se todos. Não pontualmente, mas isso é bastante comum nos encontros entre os amigos. Mesmo com alguns atrasos a noite correu bem, como era de se esperar. E por algum tempo as demandas de trabalho concentraram a temática da conversa, mas logo foram adiadas para a segunda-feira essas inconveniências.
O que seria um piquenique no final da manhã se transformou numa noite de banquete divino. E este era um bom momento para esquecer que o domingo já estava terminando e teriam de enfrentar a segunda-feira, agora com mais ânimo, ou quem sabe com uma ressaca – para lembrar-lhes de que, pelo menos, o dia anterior não foi em vão.
As comidinhas e os vinhos regavam esse encontro. O domingo não foi como o planejado, seguiu outro curso. Conversas e risadas desaceleravam a noite que passava e ninguém se dava conta. Ninguém se preocupava naquele momento.  Nenhum deles olhava para o relógio procurando uma desculpa para ir, não pensavam nas horas, na rotina, nas obrigações.
A chuva cessou, mas ainda não dava espaço para o luar. Os amigos chegaram-se aos poucos até a varanda. As folhas das plantas ainda pingavam, tinha cheiro de coisa nova e terra molhada. Sentaram-se na varanda. Ficaram ali a observar a rua e o asfalto ainda molhado, foram envolvidos por uma leve corrente de frio. O abraço suave do orvalho, as bochechas quentes, os lábios rosados, tudo isso os envolvia.
Não precisavam dizer tudo, dizer o quanto que se amavam, estavam ali somente, eram os melhores amigos brindando à vida e ao amor. Falavam sobre o tempo. As vozes baixas acompanhavam o ritmo da noite e das nuvens que dançavam sobre eles; o friozinho da noite os abraçava naquele instante revelando que as horas não foram sentidas naquele domingo. Não tinham pressa. Contemplavam o relento da noite procurando a beleza e a razão de todas as coisas. Estavam repletos.
Porém, a segunda-feira começa a dar sinais de chegada e mesmo a noite irresistível não consegue pará-la. Ei-la: é hora de irem todos, hora de voltarem para os maridos e filhos e, quem sabe, para as teses. As taças, os guardanapos, as garrafas, os talheres voltarão para seus lugares quando a luz do dia chegar, não agora.

*
João não dormiu ao chegar a casa, não se importava com o que deveria fazer quando o dia chegasse. As tarefas, o trabalho que sempre lhe chamava logo cedo, nada conduziu João para a cama. Ele queria ver o sol nascer. Poucas vezes fazia isso. Riu sozinho quando se deu conta da loucura que planejava. Largaria tudo, pelo menos hoje.
Foi arrebatado. João se lembrava da noite que passara com os amigos, de toda a vida que eles despertaram. Abraçou-se a um lençol, encostou a cabeça na janela e observava os carros e ônibus que abriam a avenida para mais um dia de outros. Quando viu que o sol se aproximava sentou-se no sofá para escrever.
João piscava os olhos, a noite o vencia.

*
O dia já desperta e com ele as obrigações, o café forte, o remédio para curar a dor de cabeça. E cada um, do seu lugar, no seu tempo, sai de casa outra vez. Desta vez para outro ritual, o burocrático e sem graça, anestésico. A segunda-feira passa, e os cinco enófilos se distanciam cada vez mais da noite anterior, consumidos pelas tarefas do dia, quando são lembrados por João, através de uma longa mensagem por email, do quanto a reunião na noite anterior foi bela e importante.
A embriaguez do domingo retorna.
João, o mais jovem a se juntar ao grupo, a peça que faltava. E que a partir de agora não voltaria mais. Foi a última mensagem de João. Mensagem pronta, proposital e que espantou a todos com palavras tão bonitas sobre o significado daquele encontro para ele. João se entregou. Mas não tinha importância só para ele, tinha para todos, e com aquela mensagem cada um, do seu lugar, percebeu isso. 
O telefone toca, não é João, ele não é mais, ele quis e decidiu assim.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Entre o Rio e o Mar


Tema: O prazer e a dor

Nunca tinha visto o mar e agora voava plainando em sua direção como uma gaivota solitária no seu céu azul.  Da janela do avião, podia sentir a brisa no rosto, o sol aquecendo seu corpo, o universo a acolhê-la, a dar-lhe boas-vindas como um feto no útero da mãe. Naquele exato segundo era feliz sabendo disso.

Ana aguardava a cidade inquieta e ansiosa.  Para o Rio de Janeiro - sua cidade dos sonhos - iam juntos ela, o marido de algumas horas, as malas da vida inteira até então e os sonhos de toda a vida por vir.

A garota havia morado no município de Capixaba no Acre desde sempre. A família que era do Espirito Santo mudara para lá no final da década de 70 e tinha uma pequena fazenda.  Com muito esforço, conseguira terminar o segundo grau e aos 19 anos seus sonhos para o futuro deveriam se concentrar em trabalhar na fazenda da família, conhecer um rapaz correto, casar-se e ter filhos. 

Acontece que a moça não era quem deveria ser e constantemente se sentia inadequada.  Nessa terra onde as linhas de expressão tão cedo marcavam peles muito morenas queimadas pelo sol, os rostos formavam labirintos a levar todos eles para um mesmo lugar.  Um lugar onde Ana não estava e nem nunca estaria. 

No verão onde completou 20 anos, e como em todos os verões, Ana viajou para Rio Branco onde ficaria por um mês na casa da tia.  E foi em uma das festas de forró para onde ia com frequência na companhia da prima, que conheceu Mauro.  Um carioca de 30 anos que estava morando há alguns meses na cidade.  Mauro, que era advogado, tinha passado para um concurso publico recentemente e havia sido transferido para o Acre. 

O homem apesar de não ser bonito, era gentil e simpático e poderia ter se divertido com sua vida de solteiro por muito mais tempo naquela cidade onde não desejava permanecer.  Mas quis o destino ou a sorte que ele se apaixonasse por Ana.  E Ana por ele.  Não tardou para que os dois começassem a namorar e entre idas e vindas para as duas cidades, construíram quatro anos de uma historia feliz.  Quando soube que finalmente havia conseguido a transferência para o Rio de Janeiro, Mauro fez o pedido.

Foi naquele cair de tarde com o sol alaranjado rasgando o céu que a moça viu o mar pela primeira vez. As pernas bambearam um pouco e seus joelhos teimaram em tombar.  Saudavam a imensidão do mar. E embora estivesse acostumada a imensidão de rio, as duas paisagens eram tão diferentes quanto a personalidade dela quando comparada a de sua familia. Foi naquele cair de tarde que Ana teve a certeza: olhar para o mar era olhar para dentro de si mesma. Pela primeira vez soube quem era.

A vida no Rio era a das possibilidades, do céu perfeito, dos homens e das moças esculturais, do gingado de uma cidade dançante, das delícias da Lapa noturna, dos prédios altos no centro.  Sentia-se uma estrela da novela esperando a qualquer momento que coisas maravilhosas acontecessem. 

Mauro com os meses foi se mostrando um marido exemplar.  Carinhoso, atencioso e apaixonado, exatamente como deveria ser.  Seus olhos eram sempre para Ana a quem admirava a cada dia mais, um amor que crescia à medida que via a menina meio “bicho do mato” virar uma mulher decidida, forte e linda diante de seus olhos.  

Ana dividia seu tempo entre os estudos na faculdade de direito que Mauro concordara em pagar e passeios deslumbrados pelo Rio.  A cidade exercia sobre ela uma paixão viva exatamente igual ao primeiro dia em que a tinha visto.  E enquanto o amor de Ana pela cidade, seus vícios e prazeres crescia, o amor que sentia por Mauro murchava, como se tudo não tivesse passado de uma grande ilusão.  Uma miopia de sentidos.

Era como se os moveis e utensílios de uma casa fossem sendo retirados pouco a pouco: primeiro os utensílios menores, insignificantes, depois os móveis menores, os maiores e um dia, quando finalmente estivesse realmente enxergando, a casa oca  revelaria a ela verdade.  Uma verdade dolorosa, traiçoeira, na qual não quis acreditar a princípio.  Sentia-se ingrata, confusa, sem rumo.  E por mais que tentasse estancar a fuga daquilo que fosse que ainda a mantinha feliz ao lado do marido, nada funcionava.  Ao fim daquele primeiro ano de casamento, viver com Mauro tinha se tornado insustentável.

No dia em que seu corpo parou de lhe obedecer, suas pernas a levaram para o mar.  E o mar que lhe revelou quem era, lhe mostrou dessa vez o caminho a seguir.  Ao cair na água foi atropelada por um surfista.

Ana não pôde resistir e se entregou a conversa dele, aos beijos, ao corpo dele enroscando no seu, abraçando o homem como quem abraçava a paisagem, voando naquele céu de Copacabana, virando ar, sol alaranjado.  Ela se fundia nele como quem ajoelhava na areia e chorava vendo o mar pela primeira vez. Ele era a vida derretendo na pele que ardia.

Quando a tarde caiu, tão linda quanto na primeira vez, Ana recuperou o controle de seu corpo.   Se viu exausta, plena, múltipla e real. Fechava ela um ciclo. Como um rio que desemboca no mar.

domingo, 21 de abril de 2013

Contrações e recordações

Se eu imaginasse que tudo se resumiria a tanta dor teria pensado bem antes de abrir as pernas. Vinho, ousadia, prazer, sexo, humor, piadinhas insolentes e provocações sensuais.  A noite foi boa, sem sombra de dúvida, mas o dia seguinte foi trêmulo e embriagado pelos flashes de memórias não tão memoráveis assim, certamente devido às três ou quatro, talvez cinco, garrafas de vinho barato nos quais tropecei ao tentar chegar ao banheiro para mais uma sessão de vômito. Ah, o vaso sanitário nunca antes foi tão convidativo e ombro amigo.

A vaga lembrança de uma boa trepada, noite ardente, sem muito papo, amor ou qualquer insinuação romântica, me fez lembrar que talvez tivesse fraturado a coluna ou o braço, sei lá talvez uma perna. Enfim, de repente os ferimentos tenham atingido apenas minha moral e os meus ‘ditos e repetidos’ bons costumes. Na verdade, mal conseguia interpretar o que houve além da própria necessidade de algo urgente, uma xícara de café.

Hummm, um café forte e reconfortante é sempre uma boa pedida. Cheiro inebriante que toma conta da casa e do meu corpo exausto, atordoado e humilhado. Não, não, não, não... Por mais que eu tente evitar, de repente me vêem à cabeça mais cenas da noite passada irrompendo minha serenidade latente. Lembro que acordei sem roupas e que as vi espalhadas pela casa. Uma trilha que começa pela porta de entrada da sala, segue pela cozinha e, a última peça, pelas minhas contas, uma calcinha vermelha rendada, humm, bom, sumiu.

Os dias se passaram e não vi mais aquele homem que me revirou a vida, talvez me virou pelo avesso, devassou meu corpo e me deixou querendo mais, ardente. Também não achei a peça que faltava no jogo, na trilha de roupas, a minha micro-calcinha que deve ter se escondido de tão minúscula e vergonhosa que era. Será que virou troféu e está exposto em alguma galeria do macho exibido e esnobe? Alguém deve estar contando vantagem por aí.

Os dias passaram, sendo uns mais leves outros mais pesados. Mas, de fato, nada se compara ao peso da minha barriga que, de tão grande, me fez parar na maternidade. E lá estava eu, entre contrações e recordações. Prazer (pelas lembranças da noite em que me vi outra mulher) e uma dor de rasgar a alma, desejar dormir profundamente e acordar inteira outra vez.

O momento em que a Mel veio à luz, em um choro sofrido e saudoso do meu calor, me fez lembrar o sorriso safadinho do pai dela ao entrar na sala de parto. Todo de branco, nervoso, mas sem disfarçar um riso sacana na cara, a própria imagem da vitória. Notando sua aparente satisfação, percebi um pontinho vermelho que saltava do jaleco. Na altura do campeonato percebi para quem foi o troféu daquela partida.
Mel nasceu saudável, perfeita, com mais de 3 quilos e cheia de fome; um milagre. Mal sabe ela que já nem tínhamos esperança de receber essa benção. Mais de dez anos de casamento e a ausência de filhos fez de nós bons amigos, quase irmãos. A libido em baixa fez fogo cessar.

Mas aquela calcinha vermelha, símbolo da experiência apimentada que me deu uma filha, agora é o nosso troféu. Meu jeito certinho e puritano de levar a vida e o casamento, quem diria, foi massacrado por uma minúscula lingerie que me apontou o caminho da felicidade e, por que não dizer, da promiscuidade e descobertas. Fico arrepiada só de pensar no que havia deixado de conhecer até agora.

A Mel vai bem. A calcinha também. Aliás, ela é o convite quando queremos abrir as portas do desejo para lugares além-fronteiras, onde podemos viver histórias que são apenas nossas, frutos da imaginação. O lugar onde eu posso ser eu ou qualquer outra. Depende do convite, e se ele for minúsculo, vermelho e sem qualquer pudor, melhor ainda.   

  
Regina Rozin
(O prazer e a dor)

sábado, 20 de abril de 2013

A Tanatopraxia



Este conto foi escrito para o conto do Drummond, para que serve o homem, para estrumar flores, tecer contos. Como não deu tempo de ser lido em sala, publico aqui.

A tanatopraxia

O tanatório estava vazio, com exceção do tanatopraxista e o defunto. “Mas para que serve o homem?”, pensava, enquanto aquele corpo já em estado de putrefação ia sendo embalsamado, com a técnica chamada de tanatopraxia. A palavra vem do grego “Tanatos”, significando o Deus da morte, e de “práxis”, ou prática. Assim, nada mais é do que o que se faz habitualmente perante a morte, como pensar para que serve toda uma vida. Seria algo rápido, pois o que estava sendo feito ali era somente uma prática comum de preparar o corpo que ia ser velado e enterrado logo mais. Nada demais. Não iria haver remoção de órgãos ou um processo maior de mumificação, como se faz com os ditadores que pretendem ser eternos. Não, aquele corpo era a representação material de um ser que tinha bem menores pretensões de imortalidade, baseadas em sua maioria na crença do Paraíso pós-morte ou nas promessas da ciência da eternidade terrena.  
Enquanto do corpo era retirado todo o sangue, por meio de uma bomba barulhenta de sucção, o pensamento continuava: “a gente nasce, logo nos colocam os limites para nossos desejos. Construímos sonhos, fazemos planos, criamos teses nos botequins acerca da vida, adquirimos patrimônio, lutamos por um posto de trabalho, batalhamos por uma ascensão na carreira, escrevemos livros, para terminarmos assim, como estes restos que jazem aqui, que agorinha serão colocados em uma sepultura fria e úmida?”
O ruído da máquina atrapalhava um pouco os pensamentos. “Conhecer uma garota, se apaixonar, esforçar-se para que dê certo, ouvir as lamúrias, chorar nos descompassos, rir dos percalços, sorrir nas pequenas felicidades que o dia-a-dia vai apresentando e terminar separados pela morte?” O corpo então recebe injeção do líquido que vai mantê-lo pelas horas do velório até a tumba.
“Mas, afinal, para que fazemos tudo isso?” Agora a maquiagem vai sendo feita, o corpo recebe um pouco da cor que um dia teve. “Fazer filhos e os ver crescer; passar noites em claro de preocupação, seja quando são crianças e ficam doentes, seja quando saem à noite para a diversão, quando jovens; vê-los alçar voo para a vida própria...”
A melhor roupa era colocada no corpo enrijecido e gelado enquanto pensava, calmamente: “envelhece-se, alguns amigos se vão antes, os prazeres se modificam, o tempo passa mais lento e mais rápido ao mesmo tempo.”
Com o defunto já vestido, as flores foram cuidadosamente colocadas, adornando-o, até o último buraco no caixão ser preenchido. “É, acho que o homem serve só para isso tudo mesmo. Bem, é melhor eu parar com essas besteiras que acho que o cara aí já acabou de me preparar e logo vão me levar para a sala de velório. Deixa eu me concentrar que logo estarão chorando em cima do meu corpo, talvez a última homenagem que eu vou receber. Espero só que reconheçam o quanto eu me esforcei para ter sido um homem que servisse.”

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Prazer e Dor

PRAZER E DOR

Betina Lima Niemeyer


Todo dia, toda noite
Toda hora, toda madrugada
Momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
Vive a eternidade da maçã.
Caetano Veloso – Pecado Original

Então aconteceu uma festa numa casa belíssima.
Eu passei a tarde calmamente olhando as vitrines e procurando o vestido perfeito e, a cada olhar masculino, crescia meu sentimento de auto confiança e poder. Havia também o João Augusto, que era um namorado tão convenientemente quanto a situação pedisse ou permitisse. E eu habilmente manejava nossa relação. Nesta festa, por exemplo, a presença dele não era conveniente.
Lembro perfeitamente bem que, quem me convidou, eu mal conhecia, era um tipo musculoso e bem relacionado. Naquele verão, de praias intermináveis, ele era o meu “melhor amigo da praia”. Fomos de carro, animadamente, dividindo uma bebida qualquer numa garrafinha prateada. Não me lembro dos detalhes da casa, lembro que tinha dois andares e era bem grande e muito bonita, com sua varanda cheia de sofás confortáveis de vime, e suas portas de venezianas verdes abertas para a sala. Ao entrar na sala, cheia de fumaça e com o piso coberto de diferentes tapetes persas, vi algumas pessoas que conversavam barulhentamente em grupos, havia muita gente e quase nenhum móvel no ambiente. Alguns locais estavam imersos na penumbra e outros nem tanto.  A escada que dava para o segundo pavimento ficava ao fundo e, embaixo da escada, estava uma mesa com muita comida...Completamente intocada...
A musica do Radiohead, altíssima, parecia feita sob encomenda para a festa, porque as pessoas dançavam meio amalucadamente num outro canto. Passei a mão numa bebida qualquer e resolvi explorar o lugar. Meu “melhor amigo” já havia sumido nas diversas penumbras da sala, mas eu estava completamente à vontade. Sai por uma das portas que davam para o jardim, muito iluminado, com algumas mesinhas e muitas pessoas. Mas toda a obviedade daquela claridade me intimidou um pouco. Dei meia volta e retornei para dentro da sala e, desta vez, resolvi andar ate a escada, que me chamou atenção pela imponência do mármore,  a escada era adornada por um corrimão dourado. No caminho, entre musica, fumaça e barulho um homem segurou meu braço.
Ao encarar o estranho descobri alguém um pouco mais alto do que eu, ele tinha um sorriso quase inocente, e um rosto triangular de uma barba que era, apenas, uma insinuação de barba. Com o rosto ligeiramente inclinado ele me olhava, numa expressão entre divertida e curiosa. Começamos a falar ao mesmo tempo e em seguida rimos juntos. Não me esforcei para falar de novo e nem para perguntar o que ele havia dito, pois sentia-me maravilhosamente zonza e lenta. Apenas o olhei e finalizei, num gole só, a bebida que ainda restava no meu copo. Ele, que continuava segurando meu braço, puxou-me para aonde as pessoas dançavam.
Ele tinha um jeito todo especial dançando, no ritmo quase lento do Joy Division ele conseguia ser maleável, ao mesmo tempo em que era masculino, percebi imediatamente que ele sabia-se atraente e abusava deste poder. Eu estava naqueles raros dias autoconfiantes femininos, em que pressentimos que estamos com o vestido perfeito, o cabelo perfeito e, além disso, começava a sentir na minha boca, a mistura perfeita de ingenuidade com veneno.
Acho que, ate este dia, eu nunca tinha dançado “para” alguém como fiz para ele naquele dia. Era como se só tivesse existido aquele momento na minha vida, como se eu tivesse começado e fosse acabar minha vida ali, naquela musica, dançando com aquele estranho. O movimento que ele fazia provocava em mim uma reação de movimento complementar, mesmo sem nos tocarmos. E então começamos a nos esbarrar, a nos tocar de leve, numa nítida sintonia, num ritmo único e complementar que parecia obedecer também aos diversos focos de luz de cores diferentes, que rodavam pelo lugar, e que eram parte do nosso ritual. Meu corpo obedecia a uma lógica musical que minha razão não acompanhava. Eu olhava nossos corpos, absorvia a musica e isto me fazia cada vez mais focada e cheia de uma sensação que eu não sabia existir. Ele então foi chegando perto, sempre dançando, e eu senti seu cheiro, incomum, intimo e úmido,  passava longe do perfume, era o cheiro dele, que eu rapidamente associei a canela. E a gente foi chegando muito perto um do outro, não se tocava e, mesmo assim, ele tinha uma maneira de estar com as mãos em todos os lugares do meu corpo ao mesmo tempo...e eu deixava, eu deixava tudo, e sentia, muito, como nunca senti com o João Augusto, alias, eu nem pensei no João naquele momento!!
E de repente ele me segurou com um gesto quase violento, o que me agradou muito, parecia um novo ato na loucura da nossa dança, e me beijou. A boca dele estava seca e, depois do beijo, minha boca ficou inteiramente dormente, uma sensação incrível!
Eu me entregava e me deixava guiar, em um ritmo crescente, pelo homem do qual eu nem sabia o nome! E ele, percebendo minha fragilidade, mais uma vez, me pegou pela mão e puxou-me na direção da escada. Ao subir o primeiro degrau, eu finalmente pronunciei minha primeira frase:
- Acho que nós não podemos subir aqui!
Ele respondeu num tom de voz rouco e, pra mim, perfeito:
- Linda..., esta casa é minha!
E me puxou escada acima.
Neste momento eu já estava perdidamente apaixonada por ele.
A parte de cima da casa apresentava um espaçoso corredor com portas enormes, todas fechadas, e foi numa destas portas que entramos. Acho que não lembro bem do quarto, mas lembro de como ele estava à vontade. Na verdade, pensando bem, ele não esteve em momento nenhum pouco a vontade, eu sim, eu nunca havia passado por algo parecido, eu, sempre tão controladora de situações, apesar de estar um pouco bêbada, sentia meu corpo tremer e meus maxilares travados.
Ele trancou a porta e, num gesto rápido, arrancou minha saia e livrou-se da roupa que usava. Este iria ser o nosso ritmo dali pra frente. Ele, em pé mesmo, esfregou-se em mim e beijou meu pescoço, ao mesmo tempo em que murmurava pedidos, eu, mesmo tensa, ainda consegui sentir um arrepio de calor que percorreu todo meu corpo, mas, aos poucos, fui percebendo que ele mantinha os olhos totalmente fechados, era como se eu não estivesse lá. Transamos ali mesmo, de pé, em frente à porta. A transa deve ter demorado uns 5 minutos, se muito. Ele então se afastou de mim, andou ate o banheiro e, com a porta aberta inclinou o rosto na pia, molhou o rosto e uma parte dos cabelos. Eu estava tão pasma, que mal me movi do lugar aonde ele tinha me deixado. Ele segurou para trás os cabelos molhados, puxou a toalha e, ao mesmo tempo em que enxugava o rosto encarou-me pelo espelho e perguntou:
- Como é mesmo o seu nome?
Eu não queria encara-lo de volta e num gesto automático abaixei-me no chão e peguei minha saia, quando respondi, já estava novamente vestida:
- Lana.
Ele enrolou-se na toalha, voltou ao quarto e pegou sua calça no chão, de onde tirou a carteira e de dentro dela algumas notas. Desta vez ele olhou diretamente para mim e disse:
- Este valor é suficiente? Ana, você não precisa sair correndo, se quiser toma um banho fica a vontade, tá?!
Atônita, eu não tinha forças nem vontade de argumentar. Peguei o dinheiro da mão do estranho, guardei e disse.
- Não, acho que já vou.
E saí do quarto.
Ainda no corredor havia um espelho, e eu parei para me olhar. Minha maquiagem estava um pouco borrada, mas o vazio do meu olhar e a visível tensão da minha boca me chamaram mais atenção. Calcei melhor os meus sapatos e em seguida desci a escada lentamente, degrau por degrau, na direção daquele ambiente barulhento e cheio de fumaça que agora me soava totalmente inadequado. Atravessei as portas de veneziana verde e vi que começava a cair uma chuva torrencial. Estanquei e, me pareceu que aquelas cadeiras e mesas do jardim, agora tristemente vazias e com a agua escorrendo, conseguiam mostrar o que eu sentia. Não me detive mais, atravessei o jardim na direção do portão e, já totalmente molhada, pensei: O que será que o João esta fazendo agora?
Bom dia a todos.
Como sempre, nosso encontro de ontem foi muito bom.
O Elias sugeriu que o conto fosse ampliado, para que as personagens, muitas, possam ser melhor construídas. Enquanto não faço isso - temos que escrever um novo conto para semana que vem! - envio o original.


A gente miúda 

(a partir de “dor e prazer”)


Flávio Limoncic

Com o trem em movimento, Leizer lançou um último olhar sobre o shteitl. A neve cobria os telhados e as ruas de barro. Ao longe, na casinha da estepe, pensou ter visto Nadia. Fechou os olhos e sentiu o vento frio no rosto. 

*


Poucos dias antes do bar-mitzvah, o Conde mandou chamar Leizer. Estabeleceu-se o alvoroço. Até então, apenas dois judeus haviam estado no castelo: Feivel, o aguadeiro, e Motl, o coletor. O que o Conde poderia querer com o menino? Fajga, a mãe, soluçava. Herschel, o pai, anunciava aos quatro ventos que o filho não iria. Com a autoridade de quem circulava pelos estábulos do castelo, Feivel decretou que o menino não tinha alternativa. Leizer foi. 

O Conde recebeu-o enquanto adestrava seu cavalo. Disse-lhe saber que meninos judeus tornavam-se homens pelo ato da leitura, mas que, entre os seus, meninos se faziam homens na guerra ou no sexo. Uma espada estava fora de questão, mas poderia oferecer-lhe Nadia, a puta. E antes que Leizer pudesse dizer qualquer coisa, ordenou que uma carroça o levasse até ela. O Conde ficou tão satisfeito com o encaminhamento das coisas que, para completar o dia, ordenou a presença de Herschel. Quando este chegou, disse-lhe que àquela altura seu filho já era homem nos modos da terra. Que brindassem! E Herschel brindou à saúde do Conde.  
 
Quando Leizer chegou em casa, encontrou o pai transtornado. Aos brados, Herschel o acusou de, por seus atos impuros, retardar ainda mais a vinda do Messias. Os vizinhos foram se acotovelando na janela, uns por cima, outros por baixo, todos dominados pela combinação de curiosidade e fascínio que despertam os dramas familiares que bem poderiam ser seus. Energizado pela audiência, Herschel amaldiçoou os amalequitas, chorou a destruição do Segundo Templo e, num crescendo de transe místico, pálpebras trêmulas e lábios salivados, expulsou de casa o pequeno sodomita, enquanto Fajga dava tapas nas próprias orelhas e batia a cabeça contra a parede. 

Informado do ocorrido, o Conde ficou possesso. Então não haviam, ele e Herschel, bebido juntos? Definitivamente, os judeus diziam uma coisa pela frente, faziam outra por trás. Recuperando os ensinamentos dos antigos, mandou espalhar o boato de que Motl cobrava impostos excessivos dos camponeses, embolsando a diferença e espalhando a pobreza. Por três dias e três noites, o shteitl teve o seu pogrom

Enquanto casas eram destruídas, Leizer, que não tinha mais a sua, foi buscar abrigo na de Nadia. Mudaram-se para uma casinha abandonada na estepe, fora dos domínios do Conde. Pela primeira vez, Nadia sentiu alegria por envolver com seu corpo o corpo de um homem, ao passo que Leizer maravilhava-se, mais e mais a cada dia, com a delícia de ter seu corpo envolvido pelo de uma mulher. 

Corpo dentro corpo, dia após dia, um dia a menstruação de Nádia faltou. Em outras ocasiões, ela chegara a enfiar galhos na vagina. Agora, seu filho teria um pai, um homem a quem    ela amava. Ao receber a notícia, Leizer enfiou-se nela com mais fome e amor do que nunca e, embora fossem dois, na hora do gozo foram um. Na manhã seguinte, Nadia acordou radiante de felicidade, mas Leizer havia partido. Deixara para ela, que sequer lia romeno, um bilhete em idiche. Abriu a porta e saiu para que o vento frio no rosto a tirasse do torpor. Ao longe, viu a locomotiva na qual Leizer, pensando tê-la visto, fechou os olhos para sentir no rosto o vento frio. 

Teve o filho sozinha. 

Numa manhã em que buscava água no Prut, Nadia ouviu dois viajantes conversarem a respeito do assassinato de um arquiduque, meses antes, e de uma guerra que chegaria à região. Guerras. Em todas, mulheres como ela viam-se obrigadas a prestar serviços para exércitos inteiros,  taifeiros e desertores incluídos. Não poderia pedir proteção ao Conde. Fora ele, justamente, que a colocara naquela situação. Encantara-se pela órfã camponesa, jamais tivera coragem de violentá-la, mas, exasperado por suas sucessivas negativas, não apenas permitiu, como estimulou, que outros o fizessem. Primeiro, obrigou-a a dar-se à alta nobreza, depois à baixa e, empurrando-a em espiral descendente, entregou-a ao clero, depois aos cavalariços e camponeses, até que, para completar o arco da sociedade, no que para ele era o seu estrato mais baixo, encaminhou-lhe o menino judeu. Embora soubesse que soldados, em geral, fossem tão delicados com judeus quanto com putas,  Nadia decidiu entregar a Herschel o bilhete de Leizer. Se não para si, precisava buscar proteção para o filho. 

Chegou cedo à casa do shteitl. Bateu a porta. Ninguém respondeu. Entrou assim mesmo. Imaginava Herschel uma figura bíblica, cajado e voz, mas encontrou um quase-ancião. Ele pensava-a uma rameira, cigarro e vodka, mas viu-se diante de uma quase-menina. Evitou os olhos dela. Sabia, agora, ter vingado no mais fraco a ofensa que sofrera do mais forte e remorsos mortificavam cada palmo do seu corpo e espírito. Mas olhou para o bebê que ela trazia no colo e nele adivinhou os traços do filho. Circuncidado ou não, era seu neto, concretamente seu neto, ao passo que o Messias, quando muito, não passava de uma esperança. Disse algo em idiche e esboçou um movimento, mas conteve-se. Olhou para o fundo do cômodo e, com seu olhar, conduziu o de Nadia. Para além da mesa coberta por restos de pão, da cama desfeita e do armário sem portas, Fajga, protegida pela penumbra, esfregava as orelhas. Herschel foi até ela. Beijou-lhe a testa e afagou seus cabelos. Procurou acalmá-la, mais por gestos do que por palavras, pois estas já estavam perdidas. Quando voltou-se, no espaço entre ele e a porta restavam apenas a mesa, a cama e o armário. 

Na estepe, Nadia e o bebê enfrentavam a primeira neve da estação. O inverno, com seus campos silenciosos e cheiro de lenha.



shteitl: aldeia judaica da Europa Oriental
bar-mitzvah: cerimônia na qual o menino judeu é chamado pela primeira vez, aos 13 anos, a ler a Torá (Antigo Testamento).
pogrom: massacre de judeus no Império Russo, principalmente após o assassinato do Czar Alexander II, em 1881. 
idiche: língua dos judeus da Europa Oriental. Forma de alemão com influências eslavas e grafado em hebraico. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013



<Tema: “o prazer e a dor”>


[primeira página]

Robson Aguiar



Manchas de nascença e hematomas há muito se confundiam naquela pele. Ora formavam interseções, ora se sobrepunham, ora se delineavam distintas, perfeitas. Compunham desenhos disformes. Ana as olhava, da mesma forma que olhava as nuvens, tentando encontrar sentido.

Antes, muito antes, eram só ciúmes. Ciúme doentio, ciúme de encheção de saco, ciúme de interrogatório, ciúme de xingamento. Mais tarde, veio a proibição de trabalhar, de sair de casa, de visitar a mãe, de passear com as crianças. Ana passou a viver nas sombras, trancada, como se vivendo em uma solitária sem direito a banho de sol.

Uma vez por semana podia ir ao culto, na companhia das irmãs de Alberto. Elas a buscavam no portão e a deixavam de volta. Ana não se importava. Ana se distraía vendo o colorido do caminho, as roupas dos fiéis, os sapatos engraxados dos homens sisudos. Ana ouvia a voz do pastor, a doce voz do pastor, soando palavras bonitas. Admirava a pele lisa e barbeada daquele homem, o terno bem passado, a gravata florida que ele usara uma única vez. (Ana ouvira falar de uma música que contava a história de um homem de gravata florida. Para Ana o homem da gravata florida não podia ser outro, senão o pastor).

Alberto abandonara o emprego na cidade. Passara a viver de biscates mal remunerados que conseguia nas redondezas. Quase que de hora em hora fugia pra assuntar a casa, ver se as coisas estavam em ordem. A cada dia aumentava um pouquinho a vigília, estendia a ronda. Era um dedicado zelador da própria rotina.

Foi por essa época que as surras tiveram início. As crianças já iam crescidinhas, Rose com 7 e Junior com 4.  Alberto esperava que as crianças dormissem, cerrava as cortinas e começava. Alternava o ritmo, mas nunca a sequência: tapa na cara, chute na barriga e golpes de cinto, nas costas e nas pernas. Pausa. Tapa na cara, chute na barriga e golpes de cinto, nas costas e nas pernas. Sempre na medida certa, no limite exato. Batia até perceber que, pela manhã, Ana estaria de pé pra tocar a casa. Orgulhava-se de nunca ter passado do ponto.

Três ou quatro vezes Ana tentara fugir. Esperava que Alberto saísse pro trabalho, mandava as crianças pra casa de sua mãe e, açodada, corria a esmo pelas ruas de barro da comunidade. Em geral, não passava muito da esquina, logo denunciada por algum alcaguete filha-da-puta baba-ovo do marido. Certa vez Alberto a deixara seminua, roupas rasgadas, humilhada frente aos vizinhos. Nos dias de fuga, Ana apanhava em dobro.

Naquela noite Ana se sentia estranha. Por todos os lados, calor de verão sem brisa. Ana voltara do culto se achando íntima de Satanás, tantas vezes ouvira aquele nome na pregação. Caminhando pra casa pensava nos filhos que, nas últimas semanas, haviam sido obrigados a assistir a surra, obrigados a testemunhar “como é que se trata uma vagabunda”.

Apanhou sem chorar. Não acusou a dor. O tempo parara. Algo maior estava em jogo, como se ela e Alberto não estivessem ali. A realidade lá de fora dependia do que aconteceria naquele quarto.... O mundo, quieto, esperava.

Apesar de exausta, não pregou os olhos. A seu lado, o homem que a tirara da casa dos pais, dormia pesado. Ana o fitava com raiva, com nojo, com ódio. Com muito ódio. Com todo ódio que jamais sentira. Em suas mãos, a raiva do mundo. Na faca que segurava, mágoa. Mágoa que, pouco a pouco, perfurou pele, gordura e tecidos.

Por alguns instantes admirou a agonia daquele corpo. O homem corpulento tentava reagir, pedir ajuda, se debatia. Algum tempo depois sossegou, tão completamente inerte que parecia nunca ter tido vida. Ana enfim soltou uma gargalhada imensa, desesperada. Gargalhou com prazer, até não poder mais. Gargalhou até tombar sobre o lençol imundo, empapado de suor e sangue.

Noite alta tragava a favela, há muito silenciosa. Agarrada aos filhos, Ana sonhava, fazia planos. Pensava no dia seguinte, no dia em que daria um abraço no homem da gravata florida. Para ela, nada importaria dali em diante. Apenas o abraço do homem da gravata florida, de barba feita e palavras doces.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pote de ouro


Pela janela observava, hipnotizada, os pingos d’água que se formavam e escorriam em ritmo acelerado, orquestrados pela natureza. No alto do 7º andar do meu prédio, um apartamento velho da década de 50, me perdi em pensamentos, saudade e nos pingos d’água que rolavam e formavam figuras, talvez fragmentos da minha história ou pura alucinação.


Chovia muito, lembro bem. Mas o que mais me impressionou naquele fim de tarde molhado e frio foi o nosso primeiro encontro. Quer dizer, não sei bem se foi o primeiro, o último ou um de vários que se foram ou que virão.

Ele estava totalmente encharcado, começou a se debater contra a janela e eu tive de abri-la, apesar de saber que iria me molhar toda. Entretanto, poderia ser pior: podia me desequilibrar ou até mesmo cair, o que certamente me deixaria numa enrascada. O fato é que nem pensei nas consequências, agi como só fazemos na boa e velha juventude, no impulso, no calor, na paixão.  

Como um velho conhecido, ele buscou abrigo em meu colo, onde se secou e me fez companhia até a chuva passar. Quando os últimos pingos desceram janela abaixo, ele saltou do meu colo e, mais uma vez, se debateu contra o vidro. Eu sabia que ele queria a liberdade da sua doce juventude. Abri a janela e partiu. Junto com ele foram a melancolia e as minhas lamentações, afinal, àquelas horas eu já sentia que se tratava de um reencontro. Uma feliz despedida para uma nova chance, o próximo capítulo.

Tenho certeza que, apesar da escuridão, havia um arco-íris no horizonte (ou apenas na minha mente, no meu desejo) e que, ao final, não toparia com um pote de ouro repleto de moedas. Iria encontrar com a própria riqueza da renovação da minha jovialidade.

Desde aquela feliz visita de um jovem beija-flor, bati asas para encontrar um amor da juventude que me acompanhou até aqui. Ele se foi cedo e, percebendo a minha demora em ir ao seu encontro, eis que o danadinho veio me buscar em uma tarde chuvosa. Me livrei da cadeira de rodas, minha companheira desde o derrame, e voei rumo ao meu pote de ouro.

Regina Rozin
(O doce pássaro da juventude)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Universos

Deitada no chão do quarto, Lúcia contava as estrelas do teto.  Constelações, planetas, galáxias e sois a gravitar em torno dela.  Seu universo.   A madeira do chão encostava-se à pele ganhando o formato do corpo de Lúcia como um colchão velho, o corpo impregnado do perfume da madeira, pele e madeira formando uma coisa só.  Lúcia plantada.

O chão onde deitava contava uns 80 anos de vida.  Lúcia contava 25.  O chão acompanhara da origem a história dela.  Do berço às caixas e malas espalhadas pelo quarto.  E embora Lúcia se achasse tão inédita no mundo, ele sabia que essa história sobre pais, filhos e chãos de quarto já havia sido contada tantas vezes.  Já havia ele mesmo, visto outras Lúcias irem embora e a outras veria ainda. Uma vez que se encontrava em bom estado.

A moça há tempos se via aumentar de tamanho.  Seu corpo, uma massa em expansão, já tinha quase o formato do quarto.  Ia da porta à janela, da cama à televisão.  Em algum momento suas raízes, nascendo tão fortes como nasciam, arrebentariam as paredes do quarto e a casa explodiria.  Por isso então, resolveu buscar um apartamento para alugar antes que fosse tarde demais.  


Naquela época de espera, a vida tinha se tornado muito mais lenta e complicada.  O tempo não lhe pertencia mais, nem a casa dos pais.  Suas vontades eram múltiplas e contraditórias. Tudo estava fragmentado.   Os pais de vez em quando se lembravam de alguma história da infância da filha única, histórias que só virariam memória graças à eles, pequena demais que era para se lembrar de qualquer coisa.  Tinha também as memórias dela que apareciam sozinhas em cada canto da casa.  Crescera em um lar feliz.  Partir era perdê-lo.  Ficar não era uma opção. Aquela época era a época do medo.  


As malas e caixas iam aos poucos acomodando a vida. Alguns bichos de pelúcia a acompanhariam na jornada, outros ficariam no quarto.  As roupas iriam todas, os livros não agora.  Aos poucos seriam levados, a cada visita aos pais.  Ainda tinha as fotos, os bibelôs, os sapatos, os sonhos, as memórias.  

Aos poucos foi percebendo que não conseguia mais se mexer, que o chão de alguma forma tinha virado ela mesma.  Não sabia se estava presa ou se prendia.  As coisas ao seu redor aumentando de quantidade até sentir que ao seu lado estava uma montanha de objetos que jamais caberiam em numa caixa ou mala. E por isso não teve outra opção que não adiar a mudança.   Sentiu-se aliviada.

De repente, começou a ouvir muito distante, bem baixinho, o barulho do mar. A moça achou bem estranho já que morava perto da praia, mas não perto o suficiente para ouvir o oceano.  O chiado foi aumentado de volume, aumentando de volume até ficar ao pé do ouvido, primeiro como se estivesse na praia, e depois como estar à deriva em alto mar.

O barulho logo virou água, oceano a arrebentar a janela, estilhaçar o vidro no chão e aos poucos encher o quarto, sair pela porta, molhando a sala, o banheiro, o quarto dos pais.  Enchendo, enchendo, até os peixes do aquário nadarem livres pela casa.  O mar logo a desgrudou do chão desfez suas raízes e a carregou por ai.

Lúcia por um momento até tentou debater-se contra as ondas, nadar, controlar o incontrolável, mas a fúria da água era tão grande, que tudo o que ela podia fazer era boiar e se deixar levar descendo as escadas do prédio, flutuando pela rua, pelas estrelas da noite de um universo que não mais gravitava em torno dela, mas que a tornava um ponto minúsculo num teto inacabável. 

Logo notou que agora, as estrelas de seu quarto tatuavam também o céu.  Nesse momento, Lúcia era maior do que o seu quarto. O quarto cabia dentro dela.  A Lúcia era um ponto e o universo. Vagou pela noite levada pelas aguas, guiada pelas estrelas como um barco em alto mar até ser deixada da mesma forma que tantas outras Lúcias tinham sido, dentro da nova casa com suas malas, caixas e memórias. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Doce Pássaro da Juventude
Betina Lima Niemeyer

A aula de português seguia monótona na voz do professor que, virado para o quadro, escrevia freneticamente um verdadeiro tratado sobre orações coordenadas e subordinadas. O olhar de J alternava entre os garranchos abreviados no caderno e o relógio na parede, cujos ponteiros pareciam tardar uma eternidade para anunciar o fim daquela tortura.
Quando finalmente o estridente soar de uma campainha anunciou o fim das aulas do dia, como num passe de magica, J sentiu-se livre. A balburdia do grupo de alunos guardando os cadernos e fazendo brincadeiras em voz alta entre si proporcionavam a ela, como de costume uma sensação de identidade e proteção. J guardou seus cadernos na mochila e, ato continuo, ligou seu I phone para retornar ao “seu” mundo, para inteirar-se do que tinha acontecido, enquanto ela permanecia off line. Com a mochila já nas costas e caminhando com a atenção agora voltada totalmente para a tela do telefone, J subitamente lembrou-se que havia prometido a avó que passaria na casa dela depois da aula.  Mentalmente refez seus planos, que já incluíam um sorvete com os amigos perto do colégio, desculpou-se com eles no portão da saída e seguiu a rua para pegar um ônibus que a levasse ao bairro vizinho aonde a avó, desde que J se entendia por gente, sempre morou.
Ao acomodar-se no banco do onibus, colocou seu fone de ouvido para ouvir musicas e pensou na avó e na cumplicidade que ela sempre sentiu entre as duas, fato este tão claro, que provocava ciúmes na mãe de J. Lembrou-se de uma passagem em que, com febre e ainda bem criança, a avó foi visita-la levando chocolates e histórias saborosas, contadas ao longo da tarde, e que, certamente, contribuíram para seu completo restabelecimento, pois no dia seguinte a febre havia desaparecido. Lembrou-se de cada uma das bonecas lindas que ganhava de presente de Natal e aniversario, cujo desejo, a avó parecia sempre adivinhar.
No ponto de ônibus, já velho conhecido, J saltou e seguiu pela rua transversal onde os barulhos do transito iam silenciando a cada passo. De frente para a portaria do prédio art deco, enquanto esperava o porteiro, que a conhecia desde bebê, abrir o portão, J fantasiou novamente a ideia de estar num filme antigo. Ali tudo rescendia ao passado: A rua, o estilo do prédio, os transeuntes e o portão dourado e enorme, que subitamente abriu-se a sua frente. Cumprimentou o respeitoso porteiro e tomou o elevador, que também fazia parte do filme antigo, com sua porta pantográfica ainda manual!!
Ao saltar no andar, a empregada, já com a porta dos fundos aberta, anunciou com a voz baixa e submissa:
- Boa tarde, J. Sua avó está na sala.
A primeira coisa que J percebeu foi o aroma do bolo, tão familiar, que, ela tinha certeza, estava no forno. J dirigiu-se para a sala, mas parou antes de entrar no ambiente.  A sala estava envolta numa semi penumbra e quase em silencio, só quebrado pelo tic-tac do enorme relógio, que, de tão antigo, era quase um parente.   Com o olhar, percorreu a sala de moveis escuros, a enorme estante com os livros encadernados a um canto, no centro, a mesa de jantar oval, escura, de madeira muito lustrosa, e, em torno dela, seis cadeiras cuidadosamente arrumadas. Na parede oposta, o console antigo, fazendo conjunto com a estante e, sob este, muitos porta retratos de prata com fotografias, entre antigas e recentes. Aos poucos, J foi também percebendo o aroma doce da madeira dos móveis, que se realçava, graças a um costume da avó de conservar sempre tudo fechado. Sem mover-se de onde estava, viu, ao fundo, aonde havia mais luz entrando por uma janela, o conjunto de sofá, duas poltronas e uma mesa de centro. Numa das poltronas, a avó estava sentada, distraída, fazendo um trabalho manual qualquer, não havia se dado conta de que ela havia chegado.
J olhou a avó com enorme ternura e percebeu que a velhinha estava agora menor do que jamais havia sido. Neste momento sentiu o coração transbordar de tanto amor, sentiu uma nostalgia ancestral, misturada novamente com a lembrança da infância, e foi assim, voltando no tempo e pensando uma coisa depois da outra que pensou na morte, sentiu queimar dentro dela a impermanência da vida, e pensou que talvez, num espaço de tempo bem curto, não tivesse mais a avó por perto. Como seria a vida sem ela? Emocionou-se e sentiu lagrimas nos olhos e um aperto no coração. Neste momento a avó percebeu-se da presença da neta, sorriu, e, com uma voz entre surpresa e frágil chamou-a para perto.
J abriu os braços e, num sorriso, disfarçou a emoção. Juntou-se a avó e esqueceu os pensamentos tristes. As duas tomaram suco com bolo, conversaram e riram juntas, mas a insistência dos diversos sons emitidos pelo I phone e a agitação crescente da menina, a cada vez que o aparelho a solicitava, ditaram a duração da visita.
Intensa como um temporal de verão, J passou pela casa da avó. Quando depediu-se, com um beijo e um longo abraço, aproveitou para sussurrar no ouvido da senhora o quanto a amava. Levantou-se da poltrona e, ao fixar o olhar no dela, descobriu nos olhos da avó um brilho intenso que, talvez momentaneamente, tivesse feito a avó alguns anos mais jovem. Matutou que, naquela noite, como em quase todas, ela ficaria sozinha naquele apartamento enorme, com seus afazeres manuais, suas lembranças e os odores característicos do lugar.
Mas não teve tempo para ficar triste, a foto que aparecia no telefone solicitando sua atenção era... dele...!!! Uma verdadeira surpresa, um presente !!...J atendeu com uma voz tão sedutora quanto possível, virou-se de costas e andou na direção da porta de saída. O mundo de J, naquele instante, se tivesse uma cor, certamente seria cor de rosa!!