<Tema: “o prazer e a dor”>
[primeira página]
Robson Aguiar
Manchas de nascença e hematomas há muito se confundiam naquela pele. Ora formavam interseções, ora se sobrepunham, ora se delineavam distintas, perfeitas. Compunham desenhos disformes. Ana as olhava, da mesma forma que olhava as nuvens, tentando encontrar sentido.
Antes, muito antes, eram só ciúmes. Ciúme doentio, ciúme de encheção de saco, ciúme de interrogatório, ciúme de xingamento. Mais tarde, veio a proibição de trabalhar, de sair de casa, de visitar a mãe, de passear com as crianças. Ana passou a viver nas sombras, trancada, como se vivendo em uma solitária sem direito a banho de sol.
Uma vez por semana podia ir ao culto, na companhia das irmãs de Alberto. Elas a buscavam no portão e a deixavam de volta. Ana não se importava. Ana se distraía vendo o colorido do caminho, as roupas dos fiéis, os sapatos engraxados dos homens sisudos. Ana ouvia a voz do pastor, a doce voz do pastor, soando palavras bonitas. Admirava a pele lisa e barbeada daquele homem, o terno bem passado, a gravata florida que ele usara uma única vez. (Ana ouvira falar de uma música que contava a história de um homem de gravata florida. Para Ana o homem da gravata florida não podia ser outro, senão o pastor).
Alberto abandonara o emprego na cidade. Passara a viver de biscates mal remunerados que conseguia nas redondezas. Quase que de hora em hora fugia pra assuntar a casa, ver se as coisas estavam em ordem. A cada dia aumentava um pouquinho a vigília, estendia a ronda. Era um dedicado zelador da própria rotina.
Foi por essa época que as surras tiveram início. As crianças já iam crescidinhas, Rose com 7 e Junior com 4. Alberto esperava que as crianças dormissem, cerrava as cortinas e começava. Alternava o ritmo, mas nunca a sequência: tapa na cara, chute na barriga e golpes de cinto, nas costas e nas pernas. Pausa. Tapa na cara, chute na barriga e golpes de cinto, nas costas e nas pernas. Sempre na medida certa, no limite exato. Batia até perceber que, pela manhã, Ana estaria de pé pra tocar a casa. Orgulhava-se de nunca ter passado do ponto.
Três ou quatro vezes Ana tentara fugir. Esperava que Alberto saísse pro trabalho, mandava as crianças pra casa de sua mãe e, açodada, corria a esmo pelas ruas de barro da comunidade. Em geral, não passava muito da esquina, logo denunciada por algum alcaguete filha-da-puta baba-ovo do marido. Certa vez Alberto a deixara seminua, roupas rasgadas, humilhada frente aos vizinhos. Nos dias de fuga, Ana apanhava em dobro.
Naquela noite Ana se sentia estranha. Por todos os lados, calor de verão sem brisa. Ana voltara do culto se achando íntima de Satanás, tantas vezes ouvira aquele nome na pregação. Caminhando pra casa pensava nos filhos que, nas últimas semanas, haviam sido obrigados a assistir a surra, obrigados a testemunhar “como é que se trata uma vagabunda”.
Apanhou sem chorar. Não acusou a dor. O tempo parara. Algo maior estava em jogo, como se ela e Alberto não estivessem ali. A realidade lá de fora dependia do que aconteceria naquele quarto.... O mundo, quieto, esperava.
Apesar de exausta, não pregou os olhos. A seu lado, o homem que a tirara da casa dos pais, dormia pesado. Ana o fitava com raiva, com nojo, com ódio. Com muito ódio. Com todo ódio que jamais sentira. Em suas mãos, a raiva do mundo. Na faca que segurava, mágoa. Mágoa que, pouco a pouco, perfurou pele, gordura e tecidos.
Por alguns instantes admirou a agonia daquele corpo. O homem corpulento tentava reagir, pedir ajuda, se debatia. Algum tempo depois sossegou, tão completamente inerte que parecia nunca ter tido vida. Ana enfim soltou uma gargalhada imensa, desesperada. Gargalhou com prazer, até não poder mais. Gargalhou até tombar sobre o lençol imundo, empapado de suor e sangue.
Noite alta tragava a favela, há muito silenciosa. Agarrada aos filhos, Ana sonhava, fazia planos. Pensava no dia seguinte, no dia em que daria um abraço no homem da gravata florida. Para ela, nada importaria dali em diante. Apenas o abraço do homem da gravata florida, de barba feita e palavras doces.
Meus parabens Robson. Vale o mesmo que já falei para voce e para a Betina mas que é legal registrar aqui: o seu MELHOR conto ate agora na minha opinião (considerando a epoca da oficina da Nilza). Forte, ao mesmo tempo sutil nos momentos mais pesados. A gente fica com tanta raiva que o final da ate uma sensação de se se sentir vingado! Ou seja, um final politicamente incorreto que nos deixa aliviados de alguma forma
ResponderExcluirValeu, Thais. Engraçado que, mostrando pra um amigo que não é da Oficina, ele me passou impressões muito parecidas com as tuas. Também fiquei feliz com o resultado. Obrigado.
ResponderExcluirOi Robson, uma porrada. Excelente.
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