Se eu
imaginasse que tudo se resumiria a tanta dor teria pensado bem antes de abrir
as pernas. Vinho, ousadia, prazer, sexo, humor, piadinhas insolentes e
provocações sensuais. A noite foi boa,
sem sombra de dúvida, mas o dia seguinte foi trêmulo e embriagado pelos flashes de memórias não tão memoráveis
assim, certamente devido às três ou quatro, talvez cinco, garrafas de vinho
barato nos quais tropecei ao tentar chegar ao banheiro para mais uma sessão de
vômito. Ah, o vaso sanitário nunca antes foi tão convidativo e ombro amigo.
A vaga
lembrança de uma boa trepada, noite ardente, sem muito papo, amor ou qualquer insinuação
romântica, me fez lembrar que talvez tivesse fraturado a coluna ou o braço, sei
lá talvez uma perna. Enfim, de repente os ferimentos tenham atingido apenas
minha moral e os meus ‘ditos e repetidos’ bons costumes. Na verdade, mal
conseguia interpretar o que houve além da própria necessidade de algo urgente,
uma xícara de café.
Hummm,
um café forte e reconfortante é sempre uma boa pedida. Cheiro inebriante que
toma conta da casa e do meu corpo exausto, atordoado e humilhado. Não, não,
não, não... Por mais que eu tente evitar, de repente me vêem à cabeça mais
cenas da noite passada irrompendo minha serenidade latente. Lembro que acordei
sem roupas e que as vi espalhadas pela casa. Uma trilha que começa pela porta
de entrada da sala, segue pela cozinha e, a última peça, pelas minhas contas,
uma calcinha vermelha rendada, humm, bom, sumiu.
Os
dias se passaram e não vi mais aquele homem que me revirou a vida, talvez me
virou pelo avesso, devassou meu corpo e me deixou querendo mais, ardente.
Também não achei a peça que faltava no jogo, na trilha de roupas, a minha
micro-calcinha que deve ter se escondido de tão minúscula e vergonhosa que era.
Será que virou troféu e está exposto em alguma galeria do macho exibido e
esnobe? Alguém deve estar contando vantagem por aí.
Os
dias passaram, sendo uns mais leves outros mais pesados. Mas, de fato, nada se
compara ao peso da minha barriga que, de tão grande, me
fez parar na maternidade. E lá estava eu, entre contrações e recordações. Prazer
(pelas lembranças da noite em que me vi outra mulher) e uma dor de rasgar a
alma, desejar dormir profundamente e acordar inteira outra vez.
O
momento em que a Mel veio à luz, em um choro sofrido e saudoso do meu calor, me
fez lembrar o sorriso safadinho do pai dela ao entrar na sala de parto. Todo de
branco, nervoso, mas sem disfarçar um riso sacana na cara, a própria imagem da
vitória. Notando sua aparente satisfação, percebi um pontinho vermelho que
saltava do jaleco. Na altura do campeonato percebi para quem foi o troféu daquela
partida.
Mel
nasceu saudável, perfeita, com mais de 3 quilos e cheia de fome; um milagre.
Mal sabe ela que já nem tínhamos esperança de receber essa benção. Mais de dez
anos de casamento e a ausência de filhos fez de nós bons amigos, quase irmãos. A
libido em baixa fez fogo cessar.
Mas
aquela calcinha vermelha, símbolo da experiência apimentada que me deu uma
filha, agora é o nosso troféu. Meu jeito certinho e puritano de levar a vida e
o casamento, quem diria, foi massacrado por uma minúscula lingerie que me apontou o caminho da felicidade e, por que não
dizer, da promiscuidade e descobertas. Fico arrepiada só de pensar no que havia
deixado de conhecer até agora.
A
Mel vai bem. A calcinha também. Aliás, ela é o convite quando queremos abrir as
portas do desejo para lugares além-fronteiras, onde podemos viver histórias que
são apenas nossas, frutos da imaginação. O lugar onde eu posso ser eu ou
qualquer outra. Depende do convite, e se ele for minúsculo, vermelho e sem
qualquer pudor, melhor ainda.
Regina
Rozin
(O prazer e a dor)
Adorei, Regina. Quem sabe o meu texto da "história de amor", nossa próxima tarefa, não tenha sido inspirado nesse teu conto? ;)
ResponderExcluirMuito bacana, Rodrigo! Fiquei curiosa!!! :) Também estou aqui quebrando a cabeça para o próximo conto. Já pensei até em dar continuidade a este, mas, não sei, estou aguardando minha boa amiga (inspiração) bater à porta (rs). Ah, também adorei o seu conto, inteligentíssimo! Parabéns! Até quinta! Abs.
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