sábado, 20 de abril de 2013

A Tanatopraxia



Este conto foi escrito para o conto do Drummond, para que serve o homem, para estrumar flores, tecer contos. Como não deu tempo de ser lido em sala, publico aqui.

A tanatopraxia

O tanatório estava vazio, com exceção do tanatopraxista e o defunto. “Mas para que serve o homem?”, pensava, enquanto aquele corpo já em estado de putrefação ia sendo embalsamado, com a técnica chamada de tanatopraxia. A palavra vem do grego “Tanatos”, significando o Deus da morte, e de “práxis”, ou prática. Assim, nada mais é do que o que se faz habitualmente perante a morte, como pensar para que serve toda uma vida. Seria algo rápido, pois o que estava sendo feito ali era somente uma prática comum de preparar o corpo que ia ser velado e enterrado logo mais. Nada demais. Não iria haver remoção de órgãos ou um processo maior de mumificação, como se faz com os ditadores que pretendem ser eternos. Não, aquele corpo era a representação material de um ser que tinha bem menores pretensões de imortalidade, baseadas em sua maioria na crença do Paraíso pós-morte ou nas promessas da ciência da eternidade terrena.  
Enquanto do corpo era retirado todo o sangue, por meio de uma bomba barulhenta de sucção, o pensamento continuava: “a gente nasce, logo nos colocam os limites para nossos desejos. Construímos sonhos, fazemos planos, criamos teses nos botequins acerca da vida, adquirimos patrimônio, lutamos por um posto de trabalho, batalhamos por uma ascensão na carreira, escrevemos livros, para terminarmos assim, como estes restos que jazem aqui, que agorinha serão colocados em uma sepultura fria e úmida?”
O ruído da máquina atrapalhava um pouco os pensamentos. “Conhecer uma garota, se apaixonar, esforçar-se para que dê certo, ouvir as lamúrias, chorar nos descompassos, rir dos percalços, sorrir nas pequenas felicidades que o dia-a-dia vai apresentando e terminar separados pela morte?” O corpo então recebe injeção do líquido que vai mantê-lo pelas horas do velório até a tumba.
“Mas, afinal, para que fazemos tudo isso?” Agora a maquiagem vai sendo feita, o corpo recebe um pouco da cor que um dia teve. “Fazer filhos e os ver crescer; passar noites em claro de preocupação, seja quando são crianças e ficam doentes, seja quando saem à noite para a diversão, quando jovens; vê-los alçar voo para a vida própria...”
A melhor roupa era colocada no corpo enrijecido e gelado enquanto pensava, calmamente: “envelhece-se, alguns amigos se vão antes, os prazeres se modificam, o tempo passa mais lento e mais rápido ao mesmo tempo.”
Com o defunto já vestido, as flores foram cuidadosamente colocadas, adornando-o, até o último buraco no caixão ser preenchido. “É, acho que o homem serve só para isso tudo mesmo. Bem, é melhor eu parar com essas besteiras que acho que o cara aí já acabou de me preparar e logo vão me levar para a sala de velório. Deixa eu me concentrar que logo estarão chorando em cima do meu corpo, talvez a última homenagem que eu vou receber. Espero só que reconheçam o quanto eu me esforcei para ter sido um homem que servisse.”

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