O Doce Pássaro da Juventude
Betina Lima Niemeyer
A aula de português seguia monótona na voz do professor que, virado para o quadro, escrevia freneticamente um verdadeiro tratado sobre orações coordenadas e subordinadas. O olhar de J alternava entre os garranchos abreviados no caderno e o relógio na parede, cujos ponteiros pareciam tardar uma eternidade para anunciar o fim daquela tortura.
Quando finalmente o estridente soar de uma campainha anunciou o fim das aulas do dia, como num passe de magica, J sentiu-se livre. A balburdia do grupo de alunos guardando os cadernos e fazendo brincadeiras em voz alta entre si proporcionavam a ela, como de costume uma sensação de identidade e proteção. J guardou seus cadernos na mochila e, ato continuo, ligou seu I phone para retornar ao “seu” mundo, para inteirar-se do que tinha acontecido, enquanto ela permanecia off line. Com a mochila já nas costas e caminhando com a atenção agora voltada totalmente para a tela do telefone, J subitamente lembrou-se que havia prometido a avó que passaria na casa dela depois da aula. Mentalmente refez seus planos, que já incluíam um sorvete com os amigos perto do colégio, desculpou-se com eles no portão da saída e seguiu a rua para pegar um ônibus que a levasse ao bairro vizinho aonde a avó, desde que J se entendia por gente, sempre morou.
Ao acomodar-se no banco do onibus, colocou seu fone de ouvido para ouvir musicas e pensou na avó e na cumplicidade que ela sempre sentiu entre as duas, fato este tão claro, que provocava ciúmes na mãe de J. Lembrou-se de uma passagem em que, com febre e ainda bem criança, a avó foi visita-la levando chocolates e histórias saborosas, contadas ao longo da tarde, e que, certamente, contribuíram para seu completo restabelecimento, pois no dia seguinte a febre havia desaparecido. Lembrou-se de cada uma das bonecas lindas que ganhava de presente de Natal e aniversario, cujo desejo, a avó parecia sempre adivinhar.
No ponto de ônibus, já velho conhecido, J saltou e seguiu pela rua transversal onde os barulhos do transito iam silenciando a cada passo. De frente para a portaria do prédio art deco, enquanto esperava o porteiro, que a conhecia desde bebê, abrir o portão, J fantasiou novamente a ideia de estar num filme antigo. Ali tudo rescendia ao passado: A rua, o estilo do prédio, os transeuntes e o portão dourado e enorme, que subitamente abriu-se a sua frente. Cumprimentou o respeitoso porteiro e tomou o elevador, que também fazia parte do filme antigo, com sua porta pantográfica ainda manual!!
Ao saltar no andar, a empregada, já com a porta dos fundos aberta, anunciou com a voz baixa e submissa:
- Boa tarde, J. Sua avó está na sala.
A primeira coisa que J percebeu foi o aroma do bolo, tão familiar, que, ela tinha certeza, estava no forno. J dirigiu-se para a sala, mas parou antes de entrar no ambiente. A sala estava envolta numa semi penumbra e quase em silencio, só quebrado pelo tic-tac do enorme relógio, que, de tão antigo, era quase um parente. Com o olhar, percorreu a sala de moveis escuros, a enorme estante com os livros encadernados a um canto, no centro, a mesa de jantar oval, escura, de madeira muito lustrosa, e, em torno dela, seis cadeiras cuidadosamente arrumadas. Na parede oposta, o console antigo, fazendo conjunto com a estante e, sob este, muitos porta retratos de prata com fotografias, entre antigas e recentes. Aos poucos, J foi também percebendo o aroma doce da madeira dos móveis, que se realçava, graças a um costume da avó de conservar sempre tudo fechado. Sem mover-se de onde estava, viu, ao fundo, aonde havia mais luz entrando por uma janela, o conjunto de sofá, duas poltronas e uma mesa de centro. Numa das poltronas, a avó estava sentada, distraída, fazendo um trabalho manual qualquer, não havia se dado conta de que ela havia chegado.
J olhou a avó com enorme ternura e percebeu que a velhinha estava agora menor do que jamais havia sido. Neste momento sentiu o coração transbordar de tanto amor, sentiu uma nostalgia ancestral, misturada novamente com a lembrança da infância, e foi assim, voltando no tempo e pensando uma coisa depois da outra que pensou na morte, sentiu queimar dentro dela a impermanência da vida, e pensou que talvez, num espaço de tempo bem curto, não tivesse mais a avó por perto. Como seria a vida sem ela? Emocionou-se e sentiu lagrimas nos olhos e um aperto no coração. Neste momento a avó percebeu-se da presença da neta, sorriu, e, com uma voz entre surpresa e frágil chamou-a para perto.
J abriu os braços e, num sorriso, disfarçou a emoção. Juntou-se a avó e esqueceu os pensamentos tristes. As duas tomaram suco com bolo, conversaram e riram juntas, mas a insistência dos diversos sons emitidos pelo I phone e a agitação crescente da menina, a cada vez que o aparelho a solicitava, ditaram a duração da visita.
Intensa como um temporal de verão, J passou pela casa da avó. Quando depediu-se, com um beijo e um longo abraço, aproveitou para sussurrar no ouvido da senhora o quanto a amava. Levantou-se da poltrona e, ao fixar o olhar no dela, descobriu nos olhos da avó um brilho intenso que, talvez momentaneamente, tivesse feito a avó alguns anos mais jovem. Matutou que, naquela noite, como em quase todas, ela ficaria sozinha naquele apartamento enorme, com seus afazeres manuais, suas lembranças e os odores característicos do lugar.
Mas não teve tempo para ficar triste, a foto que aparecia no telefone solicitando sua atenção era... dele...!!! Uma verdadeira surpresa, um presente !!...J atendeu com uma voz tão sedutora quanto possível, virou-se de costas e andou na direção da porta de saída. O mundo de J, naquele instante, se tivesse uma cor, certamente seria cor de rosa!!
Gostei muito desse conto! Como já te disse, voce decreve muito bem sensações e ambientes! :o) Eu fui lendo e imaginando perfeitamente a avó, a casa dela... etc.
ResponderExcluirLindo, simples e real
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