Conto apresentado no dia 28-03-13, com o tema: O doce pássaro da juventude, com as alterações sugeridas pelos colegas na oficina, pois as julguei pertinentes. Um abraço.
Meu avô contava muitas
histórias. Histórias de quando eu estava muito longe de existir. E eu sempre
gostei de ouvi-las. Algumas me deixavam angustiado, mas ouvia atentamente,
ainda assim fascinado com coisas diferentes das que eu conhecia. As imagens e
pessoas se criavam na minha mente num mundo cheio de cores e de caretas. Meu
avô ainda tinha bastante energia, e nossas conversas duravam horas e mais
horas. Ele sentado em sua cadeira de balanço e eu ali no chão, ao pé dele. Mesmo
as conversas mais banais também nos levavam a debates longos e vigorosos. Ele
dizia que gostava quando discutíamos. Mas em geral era ele falando e eu ali
sentado ao lado ouvindo.
O vô acordava cedo e depois de
beber um só gole de café ia limpar o quintal e cuidar da horta. Depois almoçava.
Depois do almoço sentava-se no sofá do quarto com a companhia de um livro e
logo pegava no sono. Quando acordava beliscava um pedaço de pão que ficava
sobre a mesa, bebia outro gole de café e arrastava sua velha cadeira de balanço
para a varanda. Parou de trabalhar na feira, mas não abandonou nem a horta, nem
as histórias.
Ali ficava com a caneca de café
vazia até não ter mais estrela.
Ele contava quase sempre a mesma
coisa, de como os pais dele vieram da roça e de como ele criou meu pai só
cuidando de jardins e trabalhando nas feiras pela cidade.
Lá no quintal dos fundos tinha
uma horta pequena, mas que o vô cuidava com carinho todos os dias. Ele sempre
cultivou ali. E foi com aquela horta que criou os filhos. Com a horta, com a
feira e com as histórias. E ele continuou fazendo isso por muito tempo ainda.
Quando chegava o fim de semana
eu ia para a casa dos meus avós, ansioso por ouvir aquelas histórias. Tempos
depois descobri que não eram as histórias que me fascinavam. Era estar ali com
o meu avô. Era aquele momento que nos unia tão intimamente.
Acho que nunca o beijei ou fui
beijado por ele. Para dizer a verdade, ele não tinha muito jeito para isso, não
era o tipo de pessoa que tem tato, que é afetuosa com os outros. Isso é
engraçado, porque ao mesmo tempo em que eu não me lembro de ter visto o vô
demonstrando afeto por ninguém – a não ser minha vó, a quem ele beijava a testa
todos os dias antes das refeições, ele devia estar agradecendo, não sei – lembro-me
dele como alguém muito carinhoso, de um jeito peculiar, talvez.
Mas, exceto por essas
demonstrações com a minha avó ele não fazia o mesmo nem com as filhas e menos
ainda com os filhos homens; nem os netos o amoleciam, essas crianças às vezes
imprudentes que abraçam os seus esperando o mesmo gesto. Parecem duas pessoas:
um é austero e fala pouco com os filhos; o outro é jovial, conta as histórias
do João-sem-dente lá da feira e sempre me olha direto nos olhos como que para
me fazer entender aquela lição.
Eu sempre ficava ansioso para
chegar o fim de semana ou as férias, porque era quando eu passava mais tempo
com ele.
No nosso último final de semana
ele estava calado, não conversamos muito. Fiquei triste, de um jeito
involuntário eu esperava por aquilo, não queria que acabasse. O vô ficou o
sábado inteiro calado, fez tudo como sempre fazia: um gole de café à tarde
depois da sesta e sentou-se na cadeira de balanço na varanda. Não falou muito,
não teve história alguma. À noite, antes de dormir ele foi até o quartinho onde
eu dormia, sentou-se na beira da cama, segurou forte a minha mão e me disse boa
noite. No dia seguinte, quando acordei e ele ainda não tinha se levantado fui
até o quarto dele e exigi uma história, uma conversa que fosse. Com os olhos
pequenos e voz bem baixa ele disse: “hoje não, criança”.
Elaine,
ResponderExcluirO seu conto foi um dos últimos lidos em sala. Foi uma pena, porque não houve tempo suficiente para expressarmos o quanto seu trabalho ficou maravilhoso, apresentando um equilíbrio perfeito entre narrativa, fluxo psicológico e poesia. Adorei.
bj
vera
Olá Vera, apesar do pouco tempo para discussão gostei muito da recepção dos colegas. Obrigada pelos elogios. Um abraço.
ExcluirElaine,
ResponderExcluirTeu conto parece muito autobiográfico. Fiquei com essa impressão. Acho que você pode trabalhar futuramente o encadeamento das frases, tentando usar menos conjunções (mas, e). Acho que seu texto crescerá ainda mais.
Você conseguiu uma coisa bastante difícil no seu conto. Encerrar bem. O desfecho do teu conto é lindo. Parabéns!! Bjs.
Olá Robson, os elementos autobiográficos são muito poucos, mas essa impressão pode ser por conta da narração em primeira pessoa. Obrigada pela sugestão. Um abraço.
ResponderExcluirOi Elaine! Gostei muito do seu conto também. Acho que entendi o que o Robson quis dizer. Da uma sensação de ser autobiográfico... Nao sei dizer o problema disso (ainda bem que temos um professor hahahah). Mas é como se a força do conto as vezes se perdesse por causa disso. Mais ou menos assim: a ideia é super legal, voce escreveu uma coisa de muita sensibilidade, mas as vezes a forma como vc escreve fica um pouco como um diário. COncordo com ele que seu texto vai crescer muito. Acho que a ideia é MUITO importante, "a alma do escritor" vc tem, a sensibilidade e tal. Mas acho que voce precisa trabalhar mais a forma.
ResponderExcluirLEMBRO QUE: nao sei nada. TO so dando aqui uma opinião de leitora que pode nao ter nada a ver.
Elaine, ao reler seu conto pude apreciá-lo melhor. Ele tem uma maneira de narrar bem simples, quase econômica, mas que é eficiente, na medida em que nos transmite sua ideia central, que é a de captar e, de certa forma, homenagear o personagem avô. Quanto à questão da presença de elementos autobiográficos ,penso que quase tudo o que escrevemos é, de certo modo, autobiográfico. Gustave Flaubert disse: "Madame Bovary sou eu!" Para mim, como autor e como leitor, o importante nao é se um texto é autobiográfico ou não, mas sim se ele está bem realizado, se tem o poder de envolver o leitor, de tomá-lo pela mão e levá-lo a passear pelo universo do autor. Guimarães Rosa, por exemplo, nunca foi um jagunço ou cangaceiro, mas "Grande Sertão: veredas", sua obra máxima, impressiona pela intensidade dramática dos personagens sertanejos. Numa próxima oportunidade falamos mais sobre isto. Abs, Elias
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