sexta-feira, 19 de abril de 2013

Bom dia a todos.
Como sempre, nosso encontro de ontem foi muito bom.
O Elias sugeriu que o conto fosse ampliado, para que as personagens, muitas, possam ser melhor construídas. Enquanto não faço isso - temos que escrever um novo conto para semana que vem! - envio o original.


A gente miúda 

(a partir de “dor e prazer”)


Flávio Limoncic

Com o trem em movimento, Leizer lançou um último olhar sobre o shteitl. A neve cobria os telhados e as ruas de barro. Ao longe, na casinha da estepe, pensou ter visto Nadia. Fechou os olhos e sentiu o vento frio no rosto. 

*


Poucos dias antes do bar-mitzvah, o Conde mandou chamar Leizer. Estabeleceu-se o alvoroço. Até então, apenas dois judeus haviam estado no castelo: Feivel, o aguadeiro, e Motl, o coletor. O que o Conde poderia querer com o menino? Fajga, a mãe, soluçava. Herschel, o pai, anunciava aos quatro ventos que o filho não iria. Com a autoridade de quem circulava pelos estábulos do castelo, Feivel decretou que o menino não tinha alternativa. Leizer foi. 

O Conde recebeu-o enquanto adestrava seu cavalo. Disse-lhe saber que meninos judeus tornavam-se homens pelo ato da leitura, mas que, entre os seus, meninos se faziam homens na guerra ou no sexo. Uma espada estava fora de questão, mas poderia oferecer-lhe Nadia, a puta. E antes que Leizer pudesse dizer qualquer coisa, ordenou que uma carroça o levasse até ela. O Conde ficou tão satisfeito com o encaminhamento das coisas que, para completar o dia, ordenou a presença de Herschel. Quando este chegou, disse-lhe que àquela altura seu filho já era homem nos modos da terra. Que brindassem! E Herschel brindou à saúde do Conde.  
 
Quando Leizer chegou em casa, encontrou o pai transtornado. Aos brados, Herschel o acusou de, por seus atos impuros, retardar ainda mais a vinda do Messias. Os vizinhos foram se acotovelando na janela, uns por cima, outros por baixo, todos dominados pela combinação de curiosidade e fascínio que despertam os dramas familiares que bem poderiam ser seus. Energizado pela audiência, Herschel amaldiçoou os amalequitas, chorou a destruição do Segundo Templo e, num crescendo de transe místico, pálpebras trêmulas e lábios salivados, expulsou de casa o pequeno sodomita, enquanto Fajga dava tapas nas próprias orelhas e batia a cabeça contra a parede. 

Informado do ocorrido, o Conde ficou possesso. Então não haviam, ele e Herschel, bebido juntos? Definitivamente, os judeus diziam uma coisa pela frente, faziam outra por trás. Recuperando os ensinamentos dos antigos, mandou espalhar o boato de que Motl cobrava impostos excessivos dos camponeses, embolsando a diferença e espalhando a pobreza. Por três dias e três noites, o shteitl teve o seu pogrom

Enquanto casas eram destruídas, Leizer, que não tinha mais a sua, foi buscar abrigo na de Nadia. Mudaram-se para uma casinha abandonada na estepe, fora dos domínios do Conde. Pela primeira vez, Nadia sentiu alegria por envolver com seu corpo o corpo de um homem, ao passo que Leizer maravilhava-se, mais e mais a cada dia, com a delícia de ter seu corpo envolvido pelo de uma mulher. 

Corpo dentro corpo, dia após dia, um dia a menstruação de Nádia faltou. Em outras ocasiões, ela chegara a enfiar galhos na vagina. Agora, seu filho teria um pai, um homem a quem    ela amava. Ao receber a notícia, Leizer enfiou-se nela com mais fome e amor do que nunca e, embora fossem dois, na hora do gozo foram um. Na manhã seguinte, Nadia acordou radiante de felicidade, mas Leizer havia partido. Deixara para ela, que sequer lia romeno, um bilhete em idiche. Abriu a porta e saiu para que o vento frio no rosto a tirasse do torpor. Ao longe, viu a locomotiva na qual Leizer, pensando tê-la visto, fechou os olhos para sentir no rosto o vento frio. 

Teve o filho sozinha. 

Numa manhã em que buscava água no Prut, Nadia ouviu dois viajantes conversarem a respeito do assassinato de um arquiduque, meses antes, e de uma guerra que chegaria à região. Guerras. Em todas, mulheres como ela viam-se obrigadas a prestar serviços para exércitos inteiros,  taifeiros e desertores incluídos. Não poderia pedir proteção ao Conde. Fora ele, justamente, que a colocara naquela situação. Encantara-se pela órfã camponesa, jamais tivera coragem de violentá-la, mas, exasperado por suas sucessivas negativas, não apenas permitiu, como estimulou, que outros o fizessem. Primeiro, obrigou-a a dar-se à alta nobreza, depois à baixa e, empurrando-a em espiral descendente, entregou-a ao clero, depois aos cavalariços e camponeses, até que, para completar o arco da sociedade, no que para ele era o seu estrato mais baixo, encaminhou-lhe o menino judeu. Embora soubesse que soldados, em geral, fossem tão delicados com judeus quanto com putas,  Nadia decidiu entregar a Herschel o bilhete de Leizer. Se não para si, precisava buscar proteção para o filho. 

Chegou cedo à casa do shteitl. Bateu a porta. Ninguém respondeu. Entrou assim mesmo. Imaginava Herschel uma figura bíblica, cajado e voz, mas encontrou um quase-ancião. Ele pensava-a uma rameira, cigarro e vodka, mas viu-se diante de uma quase-menina. Evitou os olhos dela. Sabia, agora, ter vingado no mais fraco a ofensa que sofrera do mais forte e remorsos mortificavam cada palmo do seu corpo e espírito. Mas olhou para o bebê que ela trazia no colo e nele adivinhou os traços do filho. Circuncidado ou não, era seu neto, concretamente seu neto, ao passo que o Messias, quando muito, não passava de uma esperança. Disse algo em idiche e esboçou um movimento, mas conteve-se. Olhou para o fundo do cômodo e, com seu olhar, conduziu o de Nadia. Para além da mesa coberta por restos de pão, da cama desfeita e do armário sem portas, Fajga, protegida pela penumbra, esfregava as orelhas. Herschel foi até ela. Beijou-lhe a testa e afagou seus cabelos. Procurou acalmá-la, mais por gestos do que por palavras, pois estas já estavam perdidas. Quando voltou-se, no espaço entre ele e a porta restavam apenas a mesa, a cama e o armário. 

Na estepe, Nadia e o bebê enfrentavam a primeira neve da estação. O inverno, com seus campos silenciosos e cheiro de lenha.



shteitl: aldeia judaica da Europa Oriental
bar-mitzvah: cerimônia na qual o menino judeu é chamado pela primeira vez, aos 13 anos, a ler a Torá (Antigo Testamento).
pogrom: massacre de judeus no Império Russo, principalmente após o assassinato do Czar Alexander II, em 1881. 
idiche: língua dos judeus da Europa Oriental. Forma de alemão com influências eslavas e grafado em hebraico. 

4 comentários:

  1. Como ja disse, achei esse conto fenomenal! Quando escrever o romance eu compro! Um dos melhores contos do dia de ontem (que eu diria foi cheio de boas surpresas)

    ResponderExcluir
  2. Olá Flávio,

    novamente um lindo texto. Fiquei pensando uma coisa sobre o título, me pareceu que a "miudeza" se refere a muitos personagens, seja como ironia ou contraponto: o menino que se torna homem, crescendo; o Conde, que apesar do título demonstra sua baixeza nas ações com os subalternos; e os judeus que sempre excluídos de alguma maneira, como se fossem "menores".
    Bom, não sei se foi essa a tua intenção, relendo hoje me apareceram essas questões. Um abraço.

    ResponderExcluir
  3. Olá Flávio,
    Gostei muito do teu conto. A ambientação me fez lembrar O CASTELO, de KAFKA, livro que adoro. O título é ótimo, e eu o li como se fosse miúda fosse sinônimo de miserável.
    Além da boa história, está muito bem escrito.
    Parabéns!!!!

    ResponderExcluir
  4. Olá Thais, Elaine e Robson,
    Valeu, pessoal. A idéia do título, pelo menos a inicial, era essa aí que o Robson apontou, ou seja, das pessoas pequenas, destituídas, que vivem à mercê dos caprichos e vontades dos grandes.

    ResponderExcluir