Pela janela observava,
hipnotizada, os pingos d’água que se formavam e escorriam em ritmo acelerado, orquestrados
pela natureza. No alto do 7º andar do meu prédio, um apartamento velho da
década de 50, me perdi em pensamentos, saudade e nos pingos d’água que rolavam
e formavam figuras, talvez fragmentos da minha história ou pura alucinação.
Chovia muito, lembro bem. Mas o que mais me impressionou naquele fim de tarde molhado e frio foi o nosso primeiro encontro. Quer dizer, não sei bem se foi o primeiro, o último ou um de vários que se foram ou que virão.
Ele estava totalmente encharcado,
começou a se debater contra a janela e eu tive de abri-la, apesar de saber que iria
me molhar toda. Entretanto, poderia ser pior: podia me desequilibrar ou até
mesmo cair, o que certamente me deixaria numa enrascada. O fato é que nem pensei
nas consequências, agi como só fazemos na boa e velha juventude, no impulso, no
calor, na paixão.
Como um velho conhecido, ele
buscou abrigo em meu colo, onde se secou e me fez companhia até a chuva passar.
Quando os últimos pingos desceram janela abaixo, ele saltou do meu colo e, mais
uma vez, se debateu contra o vidro. Eu sabia que ele queria a liberdade da sua
doce juventude. Abri a janela e partiu. Junto com ele foram a melancolia e as
minhas lamentações, afinal, àquelas horas eu já sentia que se tratava de um
reencontro. Uma feliz despedida para uma nova chance, o próximo capítulo.
Tenho certeza que, apesar da
escuridão, havia um arco-íris no horizonte (ou apenas na minha mente, no meu
desejo) e que, ao final, não toparia com um pote de ouro repleto de moedas.
Iria encontrar com a própria riqueza da renovação da minha jovialidade.
Desde aquela feliz visita de um
jovem beija-flor, bati asas para encontrar um amor da juventude que me
acompanhou até aqui. Ele se foi cedo e, percebendo a minha demora em ir ao seu
encontro, eis que o danadinho veio me buscar em uma tarde chuvosa. Me livrei da
cadeira de rodas, minha companheira desde o derrame, e voei rumo ao meu pote de
ouro.
Regina Rozin
(O doce pássaro da juventude)
Achei super bonito o conto :o) Adorei. EU não estou certa se entendi o ultimo paragrafo. Especialmente de "desde (...) chuvosa". Talvez tenha sido um bloqueio meu.
ResponderExcluirMas gostei da supresa da cadeira de rodas e da imagem da liberdade, do tesoudo do arco iris. Bem bonito! :o)
Oi Thais. Obrigada pelo seu comentário. Então, sobre o trecho que você teve dúvida, trata-se de um encontro de almas. O beija-flor, na forma física, é o espírito de um amor do passado que veio buscá-la. Optei por tratar o assunto de forma implícita. Bjs, Regina.
ExcluirAi que lindo! Gostei :o)Obrigada por matar minha curiosidade :o)
ResponderExcluirOlá, Regina....
ResponderExcluirTeu conto é bem delicado e poético. Também serviria para o próximo tema ("Amor") que, claro, é sempre um assunto recorrente. Gostei das imagens e especialmente dos primeiros parágrafos, em que não sabemos ainda que se trata de um beija-flor.
A propósito, poste o teu conto desta semana, sobre o tema "dor e prazer", pois ficou bem legal.
Parabéns!!
Oi, Robson! Acabei de postar. Obrigada pelos comentários e que bom que gostou. Abraço e até quinta!
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