segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pote de ouro


Pela janela observava, hipnotizada, os pingos d’água que se formavam e escorriam em ritmo acelerado, orquestrados pela natureza. No alto do 7º andar do meu prédio, um apartamento velho da década de 50, me perdi em pensamentos, saudade e nos pingos d’água que rolavam e formavam figuras, talvez fragmentos da minha história ou pura alucinação.


Chovia muito, lembro bem. Mas o que mais me impressionou naquele fim de tarde molhado e frio foi o nosso primeiro encontro. Quer dizer, não sei bem se foi o primeiro, o último ou um de vários que se foram ou que virão.

Ele estava totalmente encharcado, começou a se debater contra a janela e eu tive de abri-la, apesar de saber que iria me molhar toda. Entretanto, poderia ser pior: podia me desequilibrar ou até mesmo cair, o que certamente me deixaria numa enrascada. O fato é que nem pensei nas consequências, agi como só fazemos na boa e velha juventude, no impulso, no calor, na paixão.  

Como um velho conhecido, ele buscou abrigo em meu colo, onde se secou e me fez companhia até a chuva passar. Quando os últimos pingos desceram janela abaixo, ele saltou do meu colo e, mais uma vez, se debateu contra o vidro. Eu sabia que ele queria a liberdade da sua doce juventude. Abri a janela e partiu. Junto com ele foram a melancolia e as minhas lamentações, afinal, àquelas horas eu já sentia que se tratava de um reencontro. Uma feliz despedida para uma nova chance, o próximo capítulo.

Tenho certeza que, apesar da escuridão, havia um arco-íris no horizonte (ou apenas na minha mente, no meu desejo) e que, ao final, não toparia com um pote de ouro repleto de moedas. Iria encontrar com a própria riqueza da renovação da minha jovialidade.

Desde aquela feliz visita de um jovem beija-flor, bati asas para encontrar um amor da juventude que me acompanhou até aqui. Ele se foi cedo e, percebendo a minha demora em ir ao seu encontro, eis que o danadinho veio me buscar em uma tarde chuvosa. Me livrei da cadeira de rodas, minha companheira desde o derrame, e voei rumo ao meu pote de ouro.

Regina Rozin
(O doce pássaro da juventude)

5 comentários:

  1. Achei super bonito o conto :o) Adorei. EU não estou certa se entendi o ultimo paragrafo. Especialmente de "desde (...) chuvosa". Talvez tenha sido um bloqueio meu.

    Mas gostei da supresa da cadeira de rodas e da imagem da liberdade, do tesoudo do arco iris. Bem bonito! :o)

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    1. Oi Thais. Obrigada pelo seu comentário. Então, sobre o trecho que você teve dúvida, trata-se de um encontro de almas. O beija-flor, na forma física, é o espírito de um amor do passado que veio buscá-la. Optei por tratar o assunto de forma implícita. Bjs, Regina.

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  2. Ai que lindo! Gostei :o)Obrigada por matar minha curiosidade :o)

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  3. Olá, Regina....
    Teu conto é bem delicado e poético. Também serviria para o próximo tema ("Amor") que, claro, é sempre um assunto recorrente. Gostei das imagens e especialmente dos primeiros parágrafos, em que não sabemos ainda que se trata de um beija-flor.
    A propósito, poste o teu conto desta semana, sobre o tema "dor e prazer", pois ficou bem legal.
    Parabéns!!

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    1. Oi, Robson! Acabei de postar. Obrigada pelos comentários e que bom que gostou. Abraço e até quinta!

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