PRAZER E DOR
Betina Lima Niemeyer
Todo dia, toda noite
Toda hora, toda madrugada
Momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
Vive a eternidade da maçã.
Toda hora, toda madrugada
Momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
Vive a eternidade da maçã.
Caetano Veloso – Pecado Original
Então aconteceu uma festa numa casa belíssima.
Eu passei a tarde calmamente olhando as vitrines e procurando o vestido perfeito e, a cada olhar masculino, crescia meu sentimento de auto confiança e poder. Havia também o João Augusto, que era um namorado tão convenientemente quanto a situação pedisse ou permitisse. E eu habilmente manejava nossa relação. Nesta festa, por exemplo, a presença dele não era conveniente.
Lembro perfeitamente bem que, quem me convidou, eu mal conhecia, era um tipo musculoso e bem relacionado. Naquele verão, de praias intermináveis, ele era o meu “melhor amigo da praia”. Fomos de carro, animadamente, dividindo uma bebida qualquer numa garrafinha prateada. Não me lembro dos detalhes da casa, lembro que tinha dois andares e era bem grande e muito bonita, com sua varanda cheia de sofás confortáveis de vime, e suas portas de venezianas verdes abertas para a sala. Ao entrar na sala, cheia de fumaça e com o piso coberto de diferentes tapetes persas, vi algumas pessoas que conversavam barulhentamente em grupos, havia muita gente e quase nenhum móvel no ambiente. Alguns locais estavam imersos na penumbra e outros nem tanto. A escada que dava para o segundo pavimento ficava ao fundo e, embaixo da escada, estava uma mesa com muita comida...Completamente intocada...
A musica do Radiohead, altíssima, parecia feita sob encomenda para a festa, porque as pessoas dançavam meio amalucadamente num outro canto. Passei a mão numa bebida qualquer e resolvi explorar o lugar. Meu “melhor amigo” já havia sumido nas diversas penumbras da sala, mas eu estava completamente à vontade. Sai por uma das portas que davam para o jardim, muito iluminado, com algumas mesinhas e muitas pessoas. Mas toda a obviedade daquela claridade me intimidou um pouco. Dei meia volta e retornei para dentro da sala e, desta vez, resolvi andar ate a escada, que me chamou atenção pela imponência do mármore, a escada era adornada por um corrimão dourado. No caminho, entre musica, fumaça e barulho um homem segurou meu braço.
Ao encarar o estranho descobri alguém um pouco mais alto do que eu, ele tinha um sorriso quase inocente, e um rosto triangular de uma barba que era, apenas, uma insinuação de barba. Com o rosto ligeiramente inclinado ele me olhava, numa expressão entre divertida e curiosa. Começamos a falar ao mesmo tempo e em seguida rimos juntos. Não me esforcei para falar de novo e nem para perguntar o que ele havia dito, pois sentia-me maravilhosamente zonza e lenta. Apenas o olhei e finalizei, num gole só, a bebida que ainda restava no meu copo. Ele, que continuava segurando meu braço, puxou-me para aonde as pessoas dançavam.
Ele tinha um jeito todo especial dançando, no ritmo quase lento do Joy Division ele conseguia ser maleável, ao mesmo tempo em que era masculino, percebi imediatamente que ele sabia-se atraente e abusava deste poder. Eu estava naqueles raros dias autoconfiantes femininos, em que pressentimos que estamos com o vestido perfeito, o cabelo perfeito e, além disso, começava a sentir na minha boca, a mistura perfeita de ingenuidade com veneno.
Acho que, ate este dia, eu nunca tinha dançado “para” alguém como fiz para ele naquele dia. Era como se só tivesse existido aquele momento na minha vida, como se eu tivesse começado e fosse acabar minha vida ali, naquela musica, dançando com aquele estranho. O movimento que ele fazia provocava em mim uma reação de movimento complementar, mesmo sem nos tocarmos. E então começamos a nos esbarrar, a nos tocar de leve, numa nítida sintonia, num ritmo único e complementar que parecia obedecer também aos diversos focos de luz de cores diferentes, que rodavam pelo lugar, e que eram parte do nosso ritual. Meu corpo obedecia a uma lógica musical que minha razão não acompanhava. Eu olhava nossos corpos, absorvia a musica e isto me fazia cada vez mais focada e cheia de uma sensação que eu não sabia existir. Ele então foi chegando perto, sempre dançando, e eu senti seu cheiro, incomum, intimo e úmido, passava longe do perfume, era o cheiro dele, que eu rapidamente associei a canela. E a gente foi chegando muito perto um do outro, não se tocava e, mesmo assim, ele tinha uma maneira de estar com as mãos em todos os lugares do meu corpo ao mesmo tempo...e eu deixava, eu deixava tudo, e sentia, muito, como nunca senti com o João Augusto, alias, eu nem pensei no João naquele momento!!
E de repente ele me segurou com um gesto quase violento, o que me agradou muito, parecia um novo ato na loucura da nossa dança, e me beijou. A boca dele estava seca e, depois do beijo, minha boca ficou inteiramente dormente, uma sensação incrível!
Eu me entregava e me deixava guiar, em um ritmo crescente, pelo homem do qual eu nem sabia o nome! E ele, percebendo minha fragilidade, mais uma vez, me pegou pela mão e puxou-me na direção da escada. Ao subir o primeiro degrau, eu finalmente pronunciei minha primeira frase:
- Acho que nós não podemos subir aqui!
Ele respondeu num tom de voz rouco e, pra mim, perfeito:
- Linda..., esta casa é minha!
E me puxou escada acima.
Neste momento eu já estava perdidamente apaixonada por ele.
A parte de cima da casa apresentava um espaçoso corredor com portas enormes, todas fechadas, e foi numa destas portas que entramos. Acho que não lembro bem do quarto, mas lembro de como ele estava à vontade. Na verdade, pensando bem, ele não esteve em momento nenhum pouco a vontade, eu sim, eu nunca havia passado por algo parecido, eu, sempre tão controladora de situações, apesar de estar um pouco bêbada, sentia meu corpo tremer e meus maxilares travados.
Ele trancou a porta e, num gesto rápido, arrancou minha saia e livrou-se da roupa que usava. Este iria ser o nosso ritmo dali pra frente. Ele, em pé mesmo, esfregou-se em mim e beijou meu pescoço, ao mesmo tempo em que murmurava pedidos, eu, mesmo tensa, ainda consegui sentir um arrepio de calor que percorreu todo meu corpo, mas, aos poucos, fui percebendo que ele mantinha os olhos totalmente fechados, era como se eu não estivesse lá. Transamos ali mesmo, de pé, em frente à porta. A transa deve ter demorado uns 5 minutos, se muito. Ele então se afastou de mim, andou ate o banheiro e, com a porta aberta inclinou o rosto na pia, molhou o rosto e uma parte dos cabelos. Eu estava tão pasma, que mal me movi do lugar aonde ele tinha me deixado. Ele segurou para trás os cabelos molhados, puxou a toalha e, ao mesmo tempo em que enxugava o rosto encarou-me pelo espelho e perguntou:
- Como é mesmo o seu nome?
Eu não queria encara-lo de volta e num gesto automático abaixei-me no chão e peguei minha saia, quando respondi, já estava novamente vestida:
- Lana.
Ele enrolou-se na toalha, voltou ao quarto e pegou sua calça no chão, de onde tirou a carteira e de dentro dela algumas notas. Desta vez ele olhou diretamente para mim e disse:
- Este valor é suficiente? Ana, você não precisa sair correndo, se quiser toma um banho fica a vontade, tá?!
Atônita, eu não tinha forças nem vontade de argumentar. Peguei o dinheiro da mão do estranho, guardei e disse.
- Não, acho que já vou.
E saí do quarto.
Ainda no corredor havia um espelho, e eu parei para me olhar. Minha maquiagem estava um pouco borrada, mas o vazio do meu olhar e a visível tensão da minha boca me chamaram mais atenção. Calcei melhor os meus sapatos e em seguida desci a escada lentamente, degrau por degrau, na direção daquele ambiente barulhento e cheio de fumaça que agora me soava totalmente inadequado. Atravessei as portas de veneziana verde e vi que começava a cair uma chuva torrencial. Estanquei e, me pareceu que aquelas cadeiras e mesas do jardim, agora tristemente vazias e com a agua escorrendo, conseguiam mostrar o que eu sentia. Não me detive mais, atravessei o jardim na direção do portão e, já totalmente molhada, pensei: O que será que o João esta fazendo agora?
Acho que eu já disse o quanto ADOREI esse conto. Para mim, o seu melhor conto até agora (vivo dizendo isso, uma prova de que esta cada vez se superando mais). Gostei muito das descrições que me fizeram "entrar no clima". E achei a situação super inusitada, um tema desafiador de se falar sobre. MEUS PARABENS!
ResponderExcluirBetina,
ResponderExcluirComo disse em sala, gostei bastante do teu conto. Não acho que a descrição inicial esteja excessiva. Pelo contrário, acho que contribui para criar a atmosfera do conto.
Gosto muito do ritmo, umas das coisas que mais me interessam nos contos. Você nos transpõe pra história inteiramente.
Se posso dar uma dica, acho que há algumas pontuações que poderiam ser corrigidas. Mas nada que prejudique o todo.
Parabéns!
Oi Betina,
ResponderExcluirO legal desse curso e desse blog é que a gente tem a possibilidade de ser alvo de diferentes leituras e opiniões.
Eu concordo inteiramente com a Thais e o Robson, gostei muito do seu conto, mas acho que você poderia ir mais direto à "jugular", sem tantas descrições. Mas isso é só questão de opinião, nada a ver com a qualidade do texto.
beijo,
Flávio