O chão onde deitava contava uns 80
anos de vida. Lúcia contava 25. O chão acompanhara da origem a história dela. Do berço às caixas e malas espalhadas pelo quarto. E embora Lúcia se achasse tão inédita no
mundo, ele sabia que essa história sobre pais, filhos e chãos de quarto já
havia sido contada tantas vezes. Já
havia ele mesmo, visto outras Lúcias irem embora e a outras veria ainda. Uma
vez que se encontrava em bom estado.
A moça há tempos se via aumentar
de tamanho. Seu corpo, uma massa em
expansão, já tinha quase o formato do quarto. Ia da porta à janela, da cama à
televisão. Em algum momento suas raízes,
nascendo tão fortes como nasciam, arrebentariam as paredes do quarto e a casa
explodiria. Por isso então, resolveu
buscar um apartamento para alugar antes que fosse tarde demais.
Naquela época de espera, a vida
tinha se tornado muito mais lenta e complicada.
O tempo não lhe pertencia mais, nem a casa dos pais. Suas vontades eram múltiplas e contraditórias.
Tudo estava fragmentado. Os pais de vez em quando se lembravam de
alguma história da infância da filha única, histórias que só virariam memória graças
à eles, pequena demais que era para se lembrar de qualquer coisa. Tinha também as memórias dela que apareciam
sozinhas em cada canto da casa. Crescera
em um lar feliz. Partir era perdê-lo. Ficar não era uma opção. Aquela época era a
época do medo.
As malas e caixas iam aos poucos
acomodando a vida. Alguns bichos de pelúcia a acompanhariam na jornada, outros ficariam
no quarto. As roupas iriam todas, os
livros não agora. Aos poucos seriam
levados, a cada visita aos pais. Ainda
tinha as fotos, os bibelôs, os sapatos, os sonhos, as memórias.
Aos poucos foi percebendo que não
conseguia mais se mexer, que o chão de alguma forma tinha virado ela mesma. Não sabia se estava presa ou se prendia. As coisas ao seu redor aumentando de quantidade
até sentir que ao seu lado estava uma montanha de objetos que jamais caberiam
em numa caixa ou mala. E por isso não teve outra opção que não adiar a mudança. Sentiu-se
aliviada.
De repente, começou a ouvir muito
distante, bem baixinho, o barulho do mar. A moça achou bem estranho já que
morava perto da praia, mas não perto o suficiente para ouvir o oceano. O chiado foi aumentado de volume, aumentando
de volume até ficar ao pé do ouvido, primeiro como se estivesse na praia,
e depois como estar à deriva em alto mar.
O barulho logo virou água, oceano
a arrebentar a janela, estilhaçar o vidro no chão e aos poucos encher o quarto,
sair pela porta, molhando a sala, o banheiro, o quarto dos pais. Enchendo, enchendo, até os peixes do aquário
nadarem livres pela casa. O mar logo a
desgrudou do chão desfez suas raízes e a carregou por ai.
Lúcia por um momento até tentou
debater-se contra as ondas, nadar, controlar o incontrolável, mas a fúria da
água era tão grande, que tudo o que ela podia fazer era boiar e se deixar levar
descendo as escadas do prédio, flutuando pela rua, pelas estrelas da noite de
um universo que não mais gravitava em torno dela, mas que a tornava um ponto
minúsculo num teto inacabável.
Logo notou que agora, as
estrelas de seu quarto tatuavam também o céu.
Nesse momento, Lúcia era maior do que o seu quarto. O quarto cabia
dentro dela. A Lúcia era um ponto e o
universo. Vagou pela noite levada pelas aguas, guiada pelas estrelas como um
barco em alto mar até ser deixada da mesma forma que tantas outras Lúcias tinham
sido, dentro da nova casa com suas malas, caixas e memórias.
Tema: O doce passaro da juventude. (atrasado)
ResponderExcluirThais, você escolheu um tom surrealista ou realista fantástico para construir seu conto. E se deu bem. Desde o início notamos que há algo estranho quando Lucia começa a ver estrelas no teto. E depois quando seu corpo cresce desmesuradamente. Isto vai transmitindo uma sensação de angústia ao leitor. Ao mesmo tempo, você vai mostrando os pais de Lúcia, vai acrescentando dados ao personagem e à situação.Mais adiante uma outra boa imagem: a Lúcia virou o chão, não sabia se estava presa ou se prendia. Você tem bastante imaginação e tem um modo pessoal de narrar. Isto são pontos a seu favor. Releia o conto e cuide mais de linguagem, coisas pequenas, como "perdê-lo" tem acento. E também: Lúcia pode ser grafado com ou sem acento, mas você deve optar por uma única forma e ir até o fim. Não dá para ter no mesmo tempo Lucia e Lúcia. Abs, até quinta, Elias
ResponderExcluirElias, muito obrigada pelos comentários! Vou reler e alterar o conto. :o)
ExcluirOlá, Thais,
ResponderExcluirVocê realmente tem um dom de criar imagens que é único. Eu, em geral, só consigo escrever sobre o palpável (limitação minha). Acho que é admirável.
Fiquei um pouquinho incomodado com o corte para a chegada do barulho do mar ("De repente..."). Achei que fiquei meio abrupto, meio repentino demais (rs...).
De qualquer forma, parabéns pelo conto.
Bjs.
Obrigada Robson! Acho que a dica é excelente! Vc sabe q eu cheguei a pensar nisso depois achei q era viagem minha? É que qdo o texto vai fluindo nao gosto de parar. Vou tentar reescrever(mas so depois de terminar os dois contos que tenho para semana que vem! hahahaah)
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