Seria a última
vez que experimentaria o “kimchi”, prato típico coreano feito de repolho, alho
e pimenta. Entrou de forma confiante no restaurante, sentou-se sozinha à mesa e
pediu ao garçom o prato. Falou em coreano quase perfeito, com um leve sotaque
do sul do país. Em verdade, essa era a única palavra que falava bem na língua
local. A dificuldade do idioma e a facilidade com que se comunicava na
linguagem dos gestos a fizeram desistir de aprender na expressão do lugar.
Parecia até que eles entendiam o português escorreito que falava
simultaneamente ao meticuloso gestual.
Esperou sentada
o prato ser montado, relembrando como havia parado ali naquela longínqua parte
do planeta. Recém-formada, após idas e vindas com o ex-namorado do qual não conseguia
se desvincular, resolveu sair da gaiola que parecia ser a casa de seus pais e
voar para o outro lado do mundo, em uma oportunidade de trabalho que havia
surgido. Não sabia o que lhe esperava, só pulou quando viu a janela aberta.
Agora estava
ali, esperando servirem seu derradeiro “kimchi”. Quando chegou àquela nova
terra não conhecia ninguém, toda a página estava em branco para escrever sua
história. Se o trabalho serviu para acumular experiência, nos períodos de
descanso desbravava seu insólito destino asiático, sempre levada pela sua
habilidade em significar coisas e desejos por meio das mãos. À noite, no quarto
de hotel, sempre ligava a televisão e ficava só observando os programas,
prestando atenção nos ininteligíveis sons emitidos pelas vozes de nativos da
Coreia. Via tevê até adormecer, mesmo não entendendo quase nada do que se
passava.
Viu o atendente
trazer o seu “kimchi” e lembrou como achou tudo diferente quando chegou, mas
também como rápida foi a sua adaptação. Sentia-se livre, desprendida de sua
raiz, sem a quem dar satisfações ou com quem ter preocupações. Os rostos que
pareciam todos iguais quando chegou continuavam a parecer todos iguais, mas a
imagem era agora familiar, não causava estranhamento. Chegou a ter alguns
casos, com nativos ou estrangeiros, alguns até brasileiros, porém fez questão
que todos fossem passageiros, flertes casuais para satisfação dos apelos
corporais.
Seu “kimchi”
foi colocado à sua frente. Agora, depois daquele último “kimchi”, iria voltar
ao Brasil, e conseguir um emprego. Não sabia também o que lhe esperava na
volta, só sabia que ela significava o início da vida adulta. Aluguel, contas a
pagar, ter amigos, voltar a se relacionar de verdade, quem sabe até ter filhos,
talvez um cachorro, essas coisas que, no íntimo, bem lá no fundo, sempre sonhou
durante esse tempo de liberdade. Isso tudo era o que sonhava; não tinha e não
poderia ter certeza de nada. A única coisa que lhe dava prazer nesse momento
era que seria, aí sim com certeza, a última vez que seria obrigada a comer um
“kimchi”. Começou então a lentamente comer aquele odiado prato com um largo
sorriso nos lábios.
Caro Rodrigo,
ResponderExcluirGostei da tua ideia e da surpresa de, na verdade, ela "odiar" aquele prato que, então, passou a ter outro significado no contexto do conto. Teria duas coisas a observar: me incomodou o fato de ela não saber coreano tendo morado lá, tido casos, trabalhado, enfim.... E talvez alguns parágrafos pudessem ser mais curtos, e conter menos ideias. Parabéns!
Exatamente o que o Robson falou! Achei super interessante e inusitado a moça odiar o prato. Ficou bem legal. Não sei se me incomodou ter muitas ideias os paragrafos. Acho que o que incomodou mesmo foi a repetiçao excessiva de algumas palavras... Eu acho que a ideia é boa, mas que talvez voce não tenha tido paciencia para trabalhar o texto. Uma coisa muito importante mas que as vezes é chata mesmo...
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