terça-feira, 25 de junho de 2013

Flashes da Urca

Da mureta da Urca, um charmoso bairro histórico do Rio de Janeiro, Bento contempla o seu enquadramento preferido da cidade. À margem da Baía de Guanabara e vista para o Cristo Redentor, dali os fins de tarde de domingo têm tons alaranjados inesquecíveis. Bento se afasta das horas; medita e mergulha na paisagem. O vento que bate no rosto traz um frescor que lhe arranca um profundo suspiro.

Mas a paz de Bento é bruscamente interrompida pela desajeitada Júlia e sua vira-lata, Fiona. A cachorra, desembestada, corre em disparada e arremessa Júlia pra cima de Bento que, por pouco, não desce mureta abaixo. Apesar do desastre, os dois, colados pelo impacto, ficam estáticos com tamanho encantamento. Fiona late histericamente e desfaz o efeito ‘câmera-lenta’ que envolve os humanos.

– Poxa, me perdoe. Estava passeando com a Fiona quando ela ficou louca ao ver uma barata. Tudo foi tão rápido e, de repente, eu estava em cima de você!...

Júlia cora, desvia o olhar de Bento que continua ofuscado pelo encanto da moça.

– Oh, sem problemas. Eu entendo. Só levei um grande susto porque estava desconectado daqui e você quase me mata. Mas foi bom, quer dizer... Aceito seu pedido de desculpas desde que fique mais um pouco. Vamos bater um papo, quero te conhecer; a Fiona também.

Enrubescido, Bento ri do próprio convite e da piada sobre Fiona. Imagina conhecer uma cachorra, justo ele que nunca foi amante de bichos de estimação.

Ainda corada, Júlia assente com a cabeça, ajeita a roupa e se senta na mureta ao lado de Bento. O crepúsculo testemunha o nascimento de uma história. As horas passam e o papo flui com um encantamento mútuo. Fiona tira uma soneca ao lado do casal que conversa animadamente. Bento, não suportando mais o desejo, puxa a mão de Júlia para si. Apesar de nervosa, ela também não se contém, cedendo aos encantos e beijos do jovem rapaz. Entretanto, Júlia demora muito além do tempo de sua costumeira voltinha com Fiona e precisa voltar para casa. Se despede de Bento, trocam telefones e promessas de novos encontros; cada um segue seu rumo. Bento, logo chega em casa.

A semana se arrasta e Bento não tem notícias de Júlia. O telefone só cai na caixa postal, não há sinal da moça e ele fica enlouquecido, com cóleras de paixão. Sem sucesso nas tentativas durante a semana, Bento vai à mureta no domingo na esperança de encontrá-la. Chegando ao ponto de encontro, observa que há uma silhueta de um cachorro, é Fiona, mas nada de Júlia. Espera horas, nada dela. Resolve levar Fiona para casa, preocupado, pois a cadela está aparentemente abatida, faminta e doente. Mais uma semana e nada de Júlia. Mais um domingo na mureta, sem notícias. Os dias, semanas, meses e anos passam sem um único contato. Bento sente que a perdeu.

Lúcia, uma colega do colegial, reaparece na vida de Bento. Em um ano namoram e se casam. O nascimento do segundo filho é também marcado pela morte de Fiona, que esteve com Bento nos últimos oito anos. Embora tenha uma vida feliz, Bento passou a vida pensando em Júlia, no que deixou de viver com ela. Despede-se de Lúcia que, aos 62 anos, morre de uma doença degenerativa. O viúvo segue em frente, dedica-se ao trabalho, aos filhos e netos. Quase todos os domingos, durante esse tempo, Bento vai à mureta cheio de esperanças.

- Será que aquela garota linda, divertida e encantadora foi uma criação da minha cabeça? Como aqueles olhos cor de mel poderiam ter me enganado? Eu acreditei ser especial! Mas, e Fiona? Como ela apareceu? Muitas perguntas trovejavam dentro de Bento e ele desejava tanto ter respostas.     

Aos 65 anos, na mureta da Urca, Bento fecha os olhos e relembra aquele domingo de céu alaranjado em que conheceu Júlia. Chora de saudade, aperto no coração e nó na garganta. Quando se prepara para ir embora, repara uma senhora que chega com uma menina jovem, de uns 20 anos, incrivelmente a cara de Júlia. Bento não se contém e pergunta:

- Júlia? - Os olhos estão arregalados e cheios d’água.

- Não, eu sou a Clara. Mas esta é a Júlia, minha avó. Você o conhece, vovó?

Aos 63 anos, a senhora de olhos cor de mel olha para aquele senhor e franze a testa como quem busca uma recordação em um tempo perdido no espaço. Mas, ela não tem certeza. As lembranças são vagas e picadas, apenas alguns flashes. Bento sente que é ela e, mais uma vez, pede para conversarem.

Horas depois, Bento consegue, finalmente, suas respostas. A neta explica que há 40 anos, quando a avó tinha 23, ela sofreu um grave acidente ao voltar da caminhada com sua cachorra e por pouco não morreu. Após dois meses em coma, Júlia voltou à vida. Ela perdeu a memória dali para trás e precisou construir uma nova história. Casou-se, teve uma filha, que lhe deu Clara. Viúva há um ano, sem mais nem menos pediu à neta que a levasse à mureta aos domingos. Sem entender direito, Clara atendeu suas vontades. Só não imaginava que o coração da avó guardara um amor que o dano cerebral não conseguiu apagar. Desta vez, Bento fez questão de deixar Júlia em casa.      


Regina Rozin
(A volta)

Sabotagem


Sabotagem

 

Bela tarde do mês de outubro num dia de semana qualquer. Todos caminhando de pressa pela rua, naquele ir e vir, querendo resolver tudo ao mesmo tempo. Globalização, era das comunicações, onde a maioria deixou de se comunicar, já há muito tempo, e tudo fica num faz de conta.

Nisso tudo ia pensando quando, de repente, dei de cara com um homem que mudaria para sempre o conceito de doença de meu texto particular.

Naquele dia, Javier foi me apresentado por um amigo. Olhei aquele rosto marcado a fogo pelos seus cinquenta e dois anos, expressão ranzinza, estatura mediana, cabelos grisalhos, leve sotaque de gringo. Mais tarde soube que era espanhol e morava há muitos anos no Brasil.

Nesses poucos minutos de conversa, deu-me a impressão de ser ele um indivíduo extremamente ansioso. Por causa de sua fala atropelada, sua inquietação, seus gestos intempestivos, dava a impressão de que a qualquer momento ia desencadear um dilúvio, um terremoto, um tsunami, ou quem sabe que catástrofe, com suas próprias palavras. Palavras lançadas como torpedos sem direção.

Passaram-se dias, meses, e um dia, quando já praticamente nem lembrava mais de Javier, o encontrei novamente perto de casa. Resultou ser meu vizinho de rua. Quando me viu parou, me olhou, nos reconhecemos e nos lembramos de aquele dia.

Acabamos tomando um café num barzinho qualquer. Fiquei então sabendo de algumas coisas da vida daquele homem. Falou-me de sua situação econômica com certa amargura.

-Estou quebrado – ele disse.

- Tinha uma loja de móveis e quando começaram a construir a estação Botafogo do Metrô as obras dificultavam o passar das pessoas e muitos dos meus clientes sumiram-

- Além do mais, meu sócio resultou ser um caloteiro, que acabou deixando-me sem nada-

-Como se não bastasse tudo isso, os médicos me descobriram um tumor de próstata, e disseram ser benigno, mas eu sei que é mentira. Minha mulher é médica e deve ter ficado de acordo para que eles não me falassem-

-Fui operado e aparentemente por enquanto, segundo dizem, está tudo bem-

-O pior é minha insônia. Passo noites sem dormir, caminhando pela casa, sem saber o que fazer-

-No dia seguinte, acordo tarde, sem disposição para nada, mal humorado, irritado, e não adianta tomar remédio: um monte de efeitos colaterais. Finalmente não tomo nada e tudo continua do mesmo jeito-

No dia seguinte, ainda as palavras de Javier ressoavam como estrondo nos meus ouvidos. Depois soube que a mulher dele, pouco contribuía para sua recuperação. Homeopata, achava que todos os remédios intoxicavam, colocava as bulas na internet, lia para ele todos os efeitos adversos e o convencia a não tomá-los.

O quadro de Javier foi se agravando. Ficou agressivo com a esposa que só vivia desvalorizando-o, porque não fazia nada na vida. Não saia de casa por medo de que lhe acontecesse alguma coisa, não dormia.

Até que um dia, finalmente, não quis mais se alimentar nem cuidar da sua higiene, nem nada...

Acabou caindo da cama, ou se deixou cair? Tomografias, exames, clínica psiquiátrica. Doença? Energias negativas? Autodestruição?

 

 

 

sábado, 22 de junho de 2013

Ligações perigosas


 Flávio Limoncic
(a partir de “É melhor ser alegre que ser triste”)


Por duas semanas, Maria Pia atazana Olavinho com essa história de um jantarzinho. Só os de casa, diz ela. Trezentos talheres, sabe ele. E não é só a questão da quantidade. Os de casa se satisfazem com uma massa folheada e um bom vinho, talvez um salmão, os trezentos talheres não se contentam com menos do que caviar de Baku servido sobre barquetes do Talho Capixaba, lagostins recheados, vinhos harmonizados e pâtisserie do Kurt. Se somados estes aos custos com segurança, cerimonial, valetes, sabonetes de pêssego e lavandas cítricas para os sete lavabos, mais a Banda Celebrare, sessenta mil dólares irão pelo ralo em uma única noite. Fácil, fácil. Não adianta ele falar, ela não se convence de que as coisas não andam bem, que a desaceleração do crescimento chinês tem resultado no cancelamento de encomendas de ferro-gusa e que as barreiras fitossanitárias da Rússia estão condenando à velhice os rebanhos de nelore, isso tudo sem falar da política cambial do governo, que fragiliza a capacidade de alavancagem das empresas. 

Ela diz que está pensando única e exclusivamente nele, que precisa ver um pouco de gente, respirar, sair do casulo, pois agora vive enfurnado, não encontra os amigos, parou de jogar tênis no Country e chegou ao cúmulo de abrir mão da mesa cativa no Satyricom. Ele diz que o que ela quer é mostrar ao Rio de Janeiro inteiro o loft de 450 m2 que fizeram para Ricardinho nos fundos da cobertura - com direito a Jacuzzi para dez, pois um rapaz de quatorze anos precisa de certa privacidade -, e vestir o modelito exclusivo que acabou de chegar do Atelier Gustavolins, discretamente coadjuvado pelo pingente de diamante sul-africano de 535 quilates.  
Por cansaço, e para não enlouquecer, Olavinho acaba cedendo. Cometera um equívoco, porém. Não são trezentos os talheres, são trezentos e cinquenta e três, Mariozinho vem sozinho, Silvinha está em Berna, e olha que cortei até sua irmã. 
O jantar é um su. Pudera. Maria Pia se dedicou a ele full time por três semanas, comandando uma equipe de sete profissionais - diversos nas atribuições, unidos na incompetência -, esquecendo-se de si mesma, como sempre, abrindo mão de tudo, alguma novidade?, até do aniversário de Athina, em Corfu, e, o que mais lhe doeu, dos seus pobres: justo no dia do concerto do Yo Yo Ma em prol dos órfãos do Lesoto, no Carnegie Hall, teve que escolher o arranjo floral das mesinhas de canto. O único compromisso a que fez questão de comparecer no período foi o bazar de artesanato nativo de Titina Saavedra, no Caiçaras, duas horinhas entre a aprovação da iluminação do palco e a escolha  dos chocolates, belgas ou suíços? Desde que se apaixonou por seu personnal guia no safari do Pantanal, um apache lindésimo chamado Evaristo, Titina Saavedra passou a dar um show de consciência social, coisa de arrepiar, com foco nos índios e outras questões ecológicas. O folder de papel couché, elaborado por um grupinho jovem, cabecinhas super-abertas, que Titina Saavedra contratou para sua ONG, explicava o objetivo do evento: fazer uma ponte entre os povos da floresta e o povo das cidades, gerando renda e estimulando o empreendedorismo entre silvícolas do Alto Solimões, em busca de alternativas para a construção de um modelo de desenvolvimento   socialmente includente e ambientalmente sustentável, na linha do pensar globalmente e agir localmente. Comprou um pente com a etiqueta “arte plumária Kanamari”, um tipo de canário ameaçado de extinção.  

São cinco horas e setenta e três mil, setecentos e oitenta dólares de comilança e intrigas, ao fim dos quais Maria Pia, embora exausta, tem a sensação do dever cumprido. Já Olavinho, o estraga-prazeres de sempre, vem às três da manhã lhe dizer que está pensando em vender o pavillon de chasse na Bretanha. Cento e vinte mil dólares anuais de manutenção para não mais do que uma semana a cada dois, três anos. Não faz sentido. Não bastam as casas de Angra e Campos do Jordão (para estar entre paulistas multitrilhiardários) e os apartamentos de Nova York, Paris e Milão? Ela finge não ouvir. Entram, ela no seu quarto, ele no dele. 
Essa não. Maria Pia está perdendo a paciência. Já reclamou inúmeras vezes com Olavinho de sua recente mania de tocar violão nas horas mais impróprias. Ele diz que está repensando tudo, que quer voltar a fazer coisas de que gostava quando jovem, na época em que se conheceram, ela no Sion, ele no Santo Inácio. Então, que comece fazendo isolamento acústico no quarto! Se continuar assim, logo, logo vai se mudar para Alto Paraíso e morar com Mariana, a queridinha do papi de sovaco cabeludo, entre maconheiros que catam piolhos uns dos outros e fazem sexo em copas de árvores. Já da até para ver a cena ridícula, fogueira, rodinha, fumacê, e ele ali, no meio, olho de peixe-morto, se achando o coroa maneiro, enquanto canta Apenas um rapaz latino-americano. Isso, claro, se a tal de Nanda, a namoradinha da desorientada, aceitá-lo na barraca de camping. Agora está aí, às três e meia da madrugada, enchendo o saco, tentando armar os acordes sem embaralhar os dedos, repetindo a mesma frase musical até à exaustão. 
Senta na penteadeira de jacarandá, herança da sogra, que retrofitou com espelhos e iluminação indireta para ressaltar os trabalhos de marchetaria, dando ao todo um ar mais contemporâneo, sempre detestou velharias. Inicia o processo de limpeza da maquiagem. Repassa mentalmente a agenda. Tem que ligar para, qual mesmo o nome?, Janjão, seu personnal professor de ginástica. Além de uns quinze minutos de sexo, precisa oxigenar células e eliminar radicais livres para o weekend com Steven e Kate, nos Hamptons. De lá, deve ir direto para Cefalônia, ao menos um abraço tem que dar em Athina. E, já que vai estar por ali, aproveitará para dar um pulinho em Antuérpia, o pingente precisa de um polimento. Se der, passa em casa para desejar boa noite a Ricardinho, caso contrário, emenda direto no retiro espiritual em um spa modernérrimo, com vista para o Everest e monges budistas que fazem o serviço de quarto. São tantos os compromissos! E os problemas? Melhor nem falar. Para começar, o câncer esofágico do Dr. Olavo. Outro dia mesmo tiveram que cancelar o almoço de domingo no Cipriani, sempre um programinha gostoso, porque o velho estava botando os bofes para fora. E o pior: esse aborrecimento na escola do Ricardinho. Paga uma fortuna e a diretora ainda quer que os pais resolvam frescuras de adolescentes. É coisa demais para sua cabeça, sente-se esgotada, os nervos à flor da pele. Lembra, com saudades, de Valdomiro, colosso de motorista, um metro e noventa, pele de ébano e dentes de marfim, que emprestou para Alicinha. De Bali, Alicinha o levou direto para a casa de Trancoso, onde ele é jardineiro e ela passa longas temporadas cuidando das bromélias. Diz que um dia vai devolvê-lo. Picuinha de irmã. Sonhadora e romântica, mas um pouco invejosa, Alicinha nunca aceitou muito bem estar no quinto casamento, a caminho do sexto - com um comerciante de armas, parece que paquistanês -, enquanto ela e Olavinho estão firmes e fortes há mais de vinte anos. Termina de limpar a maquiagem, cinco centímetros de espessura. Apesar das blefaroplastias, sua cara é um pé-de-galinha só. Tem que dar um pulinho em Ivo. 

Em seu quarto, Olavinho não vai além de “É melhor ser alegre que ser triste”. “É melhor ser alegre que ser triste”. “É melhor ser alegre que ser triste”.

Como se ela tivesse essa opção.  

Deus e o diabo (e outros fantasmas) na cabeça de Dona Sara



(a partir de “a volta”)
Flávio Limoncic

"A senhora estava sendo esperada”. Com tais palavras, Dona Eudete, do 302, venerada por alguns vizinhos, odiada por outros e temida por todos, abre a porta para Dona Sara, do 706, que sente um calafrio. Como assim, estava sendo esperada? Pouco importa. O que importa é que Dona Eudete representa sua última e desesperada tentativa de solucionar o problema que há meses mina suas forças, condena-a a noites em claro, erode sua vontade de viver e que atende pelo nome de Jaiminho. 

Sessentão, agarrado à barra da saia da mãe, horas e horas trancado no banheiro, Jaiminho foi presa fácil da armadilha de Kelly Chrystiny, a faxineira da cor do Brasil, corpinho-violão, vinte  anos de pura travessura. Pudera. A bisca seguiu à risca o manual: shortinhos apertados, posições provocantes na hora de limpar o espaço entre os tacos - Dona Sara jamais admitiu nada menos do que assepsia absoluta -, banhos intermináveis de porta entreaberta... Jaiminho caiu de quatro. Vivem um romance tórrido. 

Dona Sara nunca esteve à toa na vida. Se dependesse de Jonas, que viveu e morreu no mundo da lua, ainda estariam no Engenho Novo, em casa de vila, convivendo com pequenos funcionários, mascates, estoquistas, ele soltando pipa e organizando concursos infantis de cuspe a distância, ela pegando o trem para trabalhar na Zona Sul. Graças à sua organização e foco, aos seus peitos eternamente esparramados sobre o balcão, compraram o sala-e-dois-quartos da Viveiros de Castro e o imóvel da papelaria, na Siqueira Campos. Na pele de Fiscal do Sarney, aterrorizou os feirantes da Belfort Roxo. Como síndica, atormentou dia e noite, ano após ano, porteiros e zeladores. Mãe, sempre protegeu, e continuaria a proteger, seu Jaiminho - e seu patrimônio - daquela ou de qualquer pistoleira.  

E havia também um outro lado da questão: o que Hitler não tinha conseguido fazer, o Brasil estava conseguindo, com seus costumes frouxos, sua malemolência e essa coisa de sambinha em caixa de fósforos: acabar com os judeus. Devia isso à memória dos seis milhões: não seria avó de não-circuncidados. Além disso, não que fosse racista - sempre dissera que os judeus não podem ser preconceituosos, pois, através dos milênios, foram vítimas do anti-semitismo, sem falar na existência de judeus negros, como aqueles lá da Abissínia -, mas daí a ter netos cor de azeitona...  

No início dos fatos, apesar da sensível piora em sua enxaqueca, teve discernimento suficiente para perceber ser pouco prudente demitir sumariamente Kelly Chrystiny ou, mesmo, mostrar a Jaiminho o ridículo que era um rapaz da idade dele ter caído na conversa de uma moça da idade dela. Ao contrário, selecionou, do seu inesgotável arsenal, a arma mais do que testada e aprovada para o front familiar. O resultado, no entanto, foi decepcionante: à ameaça de suicídio, Jaiminho respondeu com um olhar em direção à janela; à ameaça de deixar tudo para uma sobrinha de Porto Alegre, Jaiminho respondeu assobiando "Ave Maria no morro". 

Pela segunda vez na vida, Dona Sara ouviu a banda tocar fora do seu ritmo. A primeira foi quando casou com Jonas, um casamento sem amor, uma imposição do velho Abrahão. Para compensar, dedicou-se, com consistência quase maníaca, a descontar no marido a sujeição ao pai. Como fez a inúmeros porteiros e zeladores, atormentou-o dia e noite, ano após ano, até que ele se deixou consumir. Sua morte não a jogou no luto. A ameaça de perder Jaiminho, sim. Suas amigas desde sempre, Dona Berta, Dona Raquel e Dona Rosa, preocupadas, aconselharam-na a conversar com um dos muitos rabinos cariocas, alguns deles bem jovens, rapazes ótimos, que certamente teriam dicas, sugestões e conselhos práticos e criativos, embora estritamente baseados na tradição judaica, para o seu drama. Ainda que não pisasse num templo desde o bar-mitzvah de Jaiminho, Dona Rosa decidiu procurá-los. Mal não faria. 

O rabino liberal, meia-idade, sotaque castelhano e rabo-de-cavalo, sugeriu-lhe substituir o luto pela vida, fez um discurso sobre a importância das conversões para a continuidade do Povo de Israel e se ofereceu para oficiar o casamento. Dona Sara sequer se despediu. O rabino ortodoxo, regulando idade com ela, chapéu de feltro e sotaque idiche, afirmou desconhecer o sentimento do luto, apenas suas regras, aplicadas com exclusividade em casos de morte física. Sugeriu a demissão sumária da moça, acrescentando duvidar que Jaiminho saísse do bem-bom de Copa para ir morar numa comunidade qualquer, esquecida por D's e pela prefeitura. Dona Sara preferiu não correr o risco. O rabino Lubavitch, mal saído das fraldas, sotaque inglês e barba no umbigo, disse que o caso, longe de ser de luto, era de regozijo. Kelly Chrystiny era a isca lançada por D’s para pescar Dona Sara para a religião. Simples assim: Dona Rosa reencontrando-se com o Eterno na sinagoga, Kelly Chrystiny perdendo-se de Jaiminho no mundo. Encantada pela oratória do rabino, Dona Sara se deixou fisgar. E, como não fosse mulher de meias medidas, até peruca passou a usar. Jaiminho e Kelly Chrystiny, no entanto, continuavam mais atracados do que nunca. Se os judeus esperavam o Messias há milênios, protestou o rabino Lubavitch, por que tanta pressa? 

Numa tarde em que esfregava furiosamente uma travessa para livrá-la de qualquer resquício de leite - não só porque sua pequena cozinha não comportava dois jogos de utensílios, mas também porque louças mal-lavadas eram garantia de infecções e úlceras -, Dona Sara ouviu gritinhos de alegria vindos da sala. Aguçou o ouvido. Jaiminho pedia Kelly Chystiny em casamento. Começou a esfregar a travessa com mais determinação e vigor, de modo a que D's notasse seu temor e entrega e a livrasse daquele pesadelo. Mas quando foi chamada para ser comunicada da novidade, Kelly Chystiny já usava o anel de noivado na mão direita. Da sala, pressão 37 por 28, Dona Sara foi direto para Dona Eudete. O policial bonzinho e o policial malvado, uma vela para D’s, outra para o Diabo. Ao menos Jonas estava morto. Vivo, certamente apoiaria o descaramento.

Toda a mobília de Dona Eudete, das cortinas aos bibelôs, parece impregnada de magia negra, de matança de bode e charuto barato. Percebendo a hesitação de Dona Sara, Dona Eudete tenta tranquilizá-la: “O que a sinagoga não resolve, Maria Padilha dá um jeito”. Dona Eudete afasta os    gatos e ambas se sentam, Dona Eudete, imensa, bem distribuída no sofá, Dona Sara, bem distribuída, confinada na pontinha da almofada, alternando discretamente as bandas das nádegas, as mãos sobre os joelhos. Não quer contato, por mínimo que seja, com um fiapo sequer de pelo, sua asma a mataria, para não falar no perigo das micoses e viroses, principalmente da mononucleose, dos microorganismos em suspensão, fungos, bacilos e lactobacilos vivos, protozoários, bactérias e ácaros, sempre em busca de mucosas, pequenas feridas, cortes, ranhuras, para que possam entrar no seu organismo e começar o lento e paciente trabalho de demolição de tecidos sadios e órgãos vitais, arruinando linfócitos, desvirtuando eosinófilos, infeccionando glândulas, alterando equilíbrios hormonais, tudo com o intuito de cumprir a função para a qual foram desde o início programados, todos eles, sem exceção, qual seja, a produção, reprodução e difusão massiva de tumores metastáticos por seu tronco, cabeça e membros. Por isso, sente-se mais alarmada com os móveis empoeirados, as guimbas de cigarro nos cinzeiros, o cheiro de quinquilharia mofando em armários e gavetas, a evidente falta de zelo e cuidados básicos e gerais, do que propriamente assustada com o esoterismo primitivo do lugar. Dona Eudete, indiferente à linguagem corporal da vizinha, afirma que é preciso fazer um trabalho. Uma matança. Para matar Kelly Chystiny no coração de Jaiminho, Dona Sara deve matar uma galinha com as próprias mãos, numa sexta-feira à meia-noite. 

Dona Sara sabe matar galinha. O problema é que nem o lendário Bugsy Siegal, seu primo distante, segundo a lenda familiar, matava no shabat. A janela teológica para a quebra do descanso, avidamente buscada em uma noite inteira de pesquisa em antigos livros do pai, é finalmente encontrada: salvar uma vida justifica ações de outro modo interditadas. E é assim que Dona Sara encara sua empreitada: a salvação não de uma, mas de duas vidas (a sua própria e a de Jaiminho).  

Sexta-feira, onze e meia. Lenço sobre a peruca, óculos escuros, capa de chuva com aba levantada, eczemas latejando, Dona Sara é uma sombra a deslizar sob as marquises. Numa das mãos, um embrulho com alguidar, copo, velas, farofa e cachaça. Na outra, dentro de um saco preto, a galinha, bico grudado com durex, pés atados com barbante. Busca uma encruzilhada escura e deserta, nem tão próxima de casa em que corra o risco de ser vista pelos vizinhos, nem tão longe que tenha que pegar ônibus. Onze e quarenta e cinco, descarta as esquinas formadas pelas transversais da Barata Ribeiro, onze e cinquenta, e Nossa Senhora de Copacabana, onze e cinquenta e cinco, até chegar, esbaforida, onze e cinquenta e nove, ao cruzamento ideal: Leopoldo Miguez com Barão de Ipanema. 

Mesmo estando na última volta do ponteiro, é preciso método. Deposita o conteúdo da sacola no chão da esquerda para a direita, na ordem em que cada elemento será utilizado: alguidar, farofa, cachaça e copo, velas e fósforos. A seguir, enfia a mão no saco. A galinha, puro instinto, debate-se, furiosa. Mantendo-a amarrada e amordaçada, Dona Sara a executa com um só golpe. Ajeita o corpo morto no alguidar, acrescenta a farofa, despeja um pouco de cachaça no copo e se agacha para acender as velas. É quando a luz de um farol incide diretamente sobre ela. O motorista abre a janela, grita “saravá, Dona Sara!” e arranca cantando os pneus. Dona Sara, que não reconhece o sujeito ou sua voz, sente vontade de evaporar, mas lembra de Jaiminho enroscado na sirigaita. Bebe do gargalo três dedos de cachaça para tomar coragem, acende as velas, toma mais um gole, dessa vez do copo, o cheiro de pólvora do fósforo se mistura ao do sangue, ambos penetram suas narinas e quando chegam ao cérebro encontram o álcool, a encruzilhada gira, dá uma gargalhada jogando o corpo para trás, estará recebendo uma pomba-gira?, precisa puxar um ponto, entoa Adon Olam. De imediato a confusão mental se dissipa. Desesperada por invocar Deus numa cerimônia dedicada ao Diabo, começa a tremer. Então, vem-lhe à mente a metáfora da pesca, do rabino Lubavitch: Adon Olam foi um anzol que Deus lançou para içá-la do abismo. Substituindo o tremor pela fúria, destrói o alguidar como se fossem ela Josué, ele a muralha de Jericó (Josué, Versículos 5:13-6:27), espalha a oferenda pelo chão e pisa sobre ela até quebrar tudo, inclusive os ossos da galinha. Em seguida, parte em disparada, sem olhar para trás. Quando vai chegando ao prédio, sangue, penas e farofa cobrindo-lhe os sapatos e a barra da capa, peruca empapada, respiração ofegante, a herpes zoster pronta a explodir, seus olhos são atraídos para a janela do terceiro andar. Evita, a todo custo, levantar a cabeça, cola o queixo no peito, ensaia andar os metros finais de costas, mas em vão. Rende-se. Contra o fundo de uma luz vermelha, a silhueta de Dona Eudete balança vagarosamente a cabeça, em sinal de reprovação.  

Vingança de Seu Tranca-Ruas pela ofensa no despacho: no dia seguinte, Jaiminho e Kelly Chystiny, felizes da vida, anunciam mudança para o depósito da papelaria. Ou seria vingança de Jonas, que veio sabe-se lá de que cafundós do além, para tirar a forra, através do filho, pelas ofensas sofridas durante toda a vida? Não, nesse caso, a ofendida era claramente ela, obrigada a conviver com suas carnes brancas e abundantes, quando suas próprias carnes clamavam por Jairo, da cor do Brasil como Kelly Chrystiny, goy e sem ter onde cair morto, o conjunto da obra desqualificando-o para casamento e procriação, mas não para o desejo, quando ainda o tinha, ou para as saudades, sempre presentes. Definitivamente, vigança de Seu Tranca-Ruas. Em três semanas, porém, não cabe dúvida, troco de Deus: Jaiminho está de volta. Dona Sara, exultante, cerca o filho de cuidados: prepara um lanche, pão com manteiga, Nescau e geléia de mocotó, você estão tão abatido, vá já lavar as mãos, tempera a água do chuveiro, está quentinha, como você gosta, separa uma roupa limpa, o conjuntinho de short e camiseta que compramos na Hering, que sabe saimos mais tarde para comprar um sapatinho-tênis? Jaiminho não come, não toma banho, não troca de roupa, seus olhos não brilham à menção do tênis. Dona Sara senta ao seu lado, suspira fundo, tosse, o diafrágma já não é mais o mesmo, pega na sua mão e lhe diz para contar tudo. Ela vai dar um jeito. Sempre dá.  

Hesitante a princípio, Jaiminho afinal se abre. No início, tudo foram flores, até que um dia Kelly Chystiny ficou irritadiça e distante. Apavorado com a perspectiva de perdê-la, prometeu passar os bens da família para o nome dela tão logo Dona Sara morresse, assim como despachar a mãe para o asilo, para que pudessem viver na Viveiros de Castro. Para que? Kelly Chystiny começou a chorar. Disse que ele era o amor dela, o amor, entende?, e que se lixava para os bens. Depois, acrescentando rancor à desilusão, disse que ele poderia pegar os tais dos bens, assim como os transferidores, borrachas, compassos, lapiseiras, apontadores, resmas A4, o estoque inteiro da papelaria, réguas incluídas, mais a Viveiros de Castro toda, com seus edifícios, árvores, lojas e carros, fazer um embrulho com papel de presente, tem sim, na prateleira de baixo, à esquerda, e enfiá-lo ele sabia muito bem em que buraco, sem esquecer depois de usar a mãe como tampa, para ficar tudo bem guardadinho e seguro. Fez as malas e foi embora.

Jaiminho se cala, olhos fixos na mãe, a implorar ajuda. Dona Sara sente-se incapaz de explicar ao filho, um homem de 63 anos, que mulheres têm seus dias. Sente-se, em verdade, incapaz de qualquer coisa. Vai para a área de serviço. Ignora as roupas lavadas na máquina e o lixo que precisa ser removido. Senta-se no banquinho. Não pensa em Deus ou no Diabo, no Engenho Novo ou em Copacabana, nem na esclerose lateral amiotrófica, sobre a qual lera qualquer coisa em algum lugar e que, cedo ou tarde, acabará por matá-la, muito menos em Jonas. Sequer em Jairo, que nos últimos tempos não lhe sai da cabeça, pensa. Pensa em Kelly Chrystiny, uma coisica de nada que entrou na sua vida pela porta dos fundos, balde e vassoura nas mãos, e saiu deixando-a com fama de macumbeira, o filho praticamente inutilizado e uma perplexidade sem fim.   

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A volta

“Depois de te perder,                                                                                   
Te encontro, com certeza,                                                                                    
Talvez num tempo da delicadeza,                                                                  
Onde não diremos nada;                                                                                         
Nada aconteceu.                                                                                               
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu”
 TODO O SENTIMENTO – Chico Buarque

“É na soma do seu olhar
 Que eu vou me conhecer inteiro
 Se eu nasci para enfrentar o mar
Ou faroleiro”
 TANTO AMAR – Chico Buarque 

Eram três. Os dois mais a roda.  A roda gigante girava imponente em seu eixo.   Sabia seu rumo, seu destino. Os outros dois, não.  João e Sônia entraram na cabine.  A partir daquele momento, não tinham mais passado comum.  O presente e o futuro seriam desenhados juntos e durariam o tempo da volta da roda.

João saboreou o silêncio tão bem vindo depois de tanto tempo. Sônia pulou na paisagem.  João tragou o silêncio, e o misturou no fundo de si, deixou-o ali, ludibriado, como se ele silêncio nunca tivesse deixado de fazer parte dele João.  Sônia voava naquele céu azul, era pássaro, era nuvem, era sol. Sônia era paisagem.

Sônia-paisagem de longe observava João, um feixe de luz que aumentava cada vez mais de tamanho e intensidade, até cobrir todo o espaço ao seu redor.  Exatamente como João sempre fazia.  João-silêncio olhava para dentro da Sônia habitante de sua memória, sua Sônia, de quem amava as sardas e vendavais.  Sônia se aproximou da roda num voo rasante e pegou pedaço desse tecido para plantar João em si.  João puxou Sônia-vento para dançar.

Enquanto a roda subia mais e mais, Sônia-paisagem voava fértil e João-silêncio via o amor que teciam povoar o espaço já todo tomado pelo silêncio.  Dentro dela, crescia um farol. Dentro dele, amor e silêncio dançavam. 

A roda já ia quase atingindo o topo quando Sônia-paisagem virou Sônia, e João-silêncio era João.  Olharam-se e souberam-se encantados, hipnotizados pela beleza do redondo, dentro do redondo, do redondo, do redondo. E agora estavam no topo da roda, no topo céu, do mundo, do universo, circulares.  Tão pequenos e tão únicos naquele segundo perfeito.  Aquele era o momento de tudo convergir para que tudo desse certo.  E movidos por uma certeza-fábula, fizeram o que acreditavam que deveriam e aguardaram.

O sol e a roda agora lentamente começavam a cair.   Uma névoa aos poucos descia do céu e inexorável perfurava Sônia e João em seus caminhos. Arriscaram um beijo antes que fosse tarde demais, e embora até tenham tentado permanecer Sônia e João pelo tempo em que o beijo durou, não conseguiram. E de volta a paisagem, agora já escura e fragmentada, a moça não era mais capaz de ver João.  João e seu silêncio haviam perdido Sônia no labirinto de si.

A gravidade puxava a roda que por sua vez puxava as lágrimas sincronizadas que não paravam de correr nos olhos que se viam sem se ver.  As palavras não eram permitidas depois de tanto estrago, e nem seriam perfeitas o suficiente para comunicar e participar daquela conversa de ombros.  Ombros que naturalmente convidaram braços e peitos para um abraço.  Ao casal, só restava ir embora da roda que já tinha parado há algum tempo de girar aguardando que os dois saíssem e dessem lugar a novos outros casais a se aventurarem em seu giro.  E então, saíram João e Sônia de mãos dadas, sem nada mais a fazer a não ser partirem, cada par de mãos para seu lado.  

João e Sônia.
João, Sônia.
João. Sônia.
João.
Sônia.
Vento e Farol.
Vento-Farol
VentoFarol

Regeriam silêncios e tempestades para sempre.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Perecível

Acordo assustado me sentindo estranho. Percebo em desespero que meu corpo mudou de estado. Sou líquido. Ameaço escorrer, penetrar na cama e quase me desperdiço, mas por algum milagre consigo me conter entre as dobras do lençol e sua a trama, menos espessa que eu mesmo agora. Preciso de ajuda. Minha esposa Marta dorme como sempre, sólida em seu sono pesado. Penso em acordá-la, em pedir-lhe que me coloque em um saco plástico, em um pote, balde, qualquer coisa, mas me faltam braços, ou qualquer membro para tocá-la.

Minha gata Shakira então resolve pular na cama e dá um longo gole no meu corpo sem que eu consiga fazer qualquer coisa. O que resta de mim lembra-se da voz, da voz que talvez exista ainda mesmo neste estado. E grito. Acordo com Marta me consolando “Foi só um pesadelo, calma, calma” mas sua voz vem de lugar nenhum. Marta não esta ali. Agora pelo menos estou em estado sólido e corro pela casa procurando pela voz que eu acabei de ouvir. A voz ainda ecoa na casa, mas eu não a encontro. Marta sumiu e Shakira também.

Percebo que não tenho braços, lembro-me do gole da gata e desço as escadas correndo esbaforido. Quase esbarro no porteiro e pergunto somente por Marta.

“Seu Mário, o senhor é solteiro...” - responde espantado.

“Não entendo... E onde estão meus braços, o senhor os viu?”.

O homem responde que acha que sim: “Veja se não são braços nesse pacote que foi entregue ontem de manhã. Provavelmente alguma compra que o senhor fez pela internet”.

Peço ajuda para o porteiro, que encaixa rapidamente os novos braços. E me diz: “Vou precisar amputar suas pernas, tudo bem? Estou precisando delas”.

“Não, não. O senhor não pode fazer isso.... Eu preciso muito mais delas que você. Cadê as suas por sinal?”
“Dá as pernas para o homem” responde Marta com um serrote já iniciando o procedimento de retirada da primeira.

“Não! Não! Para, para, devolve minha perna... Me deixa em paz!”. Começo a espancá-la até minha raiva passar.

Logo lembro que Marta não existe e o porteiro me diz:

“ Ei! Fui eu que disse isso! Eu mudei de voz, de cara, de corpo, só pela delicia de te ver louco. Você ta acordado?”

Marta me sacode: “Querido você estava falando sozinho. O que aconteceu?”.

“Foi só um sonho, respondo”.

“Amor, cadê suas pernas?” - Marta grita.

“Eu não sei! Cadê minhas pernas?” E começo a chorar compulsivamente em completo desespero. “Eu achei que era um sonho...”

“Calma, não é para tanto também. Vou pegar aquelas antigas da Tia Rose mesmo. Ela não ta usando, mas depois vamos naquela loja de promoções comprar uma nova, ta bom? Amanha de manha, que tal? Acho que talvez seja bem o tempo de mudar mesmo para uma versão mais atualizada.”

Concordo com tudo aquilo com a cabeça somente, enquanto ela encaixa em mim as pernas da Tia Rose que são bem mais roliças que as minhas. Fica um pouco estranho, mas eu acabo achando melhor do que não ter qualquer perna.

Sem conseguir dormir o resto da noite, resolvo vagar pela cidade. Na frente do meu prédio sou atacado por lobos. Eles deixam meu corpo intacto mas dilaceram e estraçalham minha cabeça. Com ajuda dos vizinhos consigo matar todos. Encaixo em mim a cabeça de um dos lobos.

Ao andar pelas ruas na madrugada, vejo as mesmas figuras de sempre. Mendigos, prostitutas, a juventude voltando da noitada e observo em seus olhos que eu não sou mais eu. Ou ainda sou? Na verdade, ninguém parece se importar muito com isso. As pessoas continuam em seu ritmo, cuidado de sua vida. Estranhamente, uma versão camuflada de mim que é incapaz de chocar aos outros com minha aparência bizarra me soa inútil. Me sinto frágil, desamparado, perecível.

Sinto um vazio e uma fome incontrolável toma conta de mim. Ando até uma padaria sendo construída naquela noite e ainda inacabada. O padeiro, um homem estranho, de cabelos levemente alaranjados e roupa branca me diz:
“O sonho acabou.”

“O doce? Ou o sonho, de sonhar?

“O outro. O doce ainda tem. Vai querer quantos?”

“Dois”. – Respondo. “E o outro sonho, ta em falta? A humanidade vai parar de sonhar? Como vamos ficar?”

“Ninguém vai ficar sem sonhar. Por HOJE, o SEU sonho acabou.”
Acordo. São oito e meia da manhã! Não tive insônia afinal e estou super atrasado! Dou-me conta de que o despertador do celular não tocou de novo. O espelho me mostra que sou o mesmo de sempre. “Talvez alguns anos mais velho. Várias rugas, pernas que doem...”. O espelho me mostra que não sou o mesmo.

terça-feira, 11 de junho de 2013



(tema: “A VOLTA”)

Rio de Janeiro, 06 e 11 de junho de 2013
[a decisão]                                                              Robson Aguiar



Horas de estrada e até agora não tenho muito certa a ideia que me fez decidir voltar. Remoo pensamentos desconexos e não chego a conclusão alguma. Ainda não sei se torço pro tempo correr, ou refugar. Chove. Choverá dias afora.

Foram semanas difíceis até conseguir as férias de urgência. Compromissos no trabalho, empregada extra pra cuidar da casa, hospedagem pras cachorras, compras de mercado e cuidados com as crianças que crio só, após a viuvez. Dinheiro, despesas, providências. Remoto controle.  Quanto maior o salário, maior o gasto. Trabalho muito, durmo nada e estou sempre atrasado.

Até tento especular, mas não consigo imaginar o que encontrarei. Há anos não revejo aqueles rostos. De muitos, não lembro a voz. Devem estar envelhecidos, como estou. Onde poderei dormir? Tivesse um hotel na região... Alberto talvez me receba na casa paroquial. Ao menos na primeira noite.

Primeira parada. O atendente de cavanhaque ralo serve o café. Observo a borra no fundo do copo nadyr e tento imaginar há quanto tempo teria sido coado. O relógio na parede se impõe, opressor. Aperto os olhos e tento decifrar o horário, mas logo percebo que não há ponteiros. Não interessa mesmo saber as horas em um lugar tão esquecido.

Volto para o ônibus. São 36 horas de viagem, e ainda resta metade. Meu pânico de voar há muito me causa contratempos. Tomo um relaxante muscular e espero que o sono venha. Meu companheiro de banco folheia “Quem mexeu no meu queijo?”. Todos leem os mesmos livros. Não espanta que pensem igual.

Tinha planos de voltar a Santana, evoluído e endinheirado. Não imaginava que fosse me acostumar à hostilidade paulistana. Graduação, especialização, mestrado, casamento, filhos, apartamento, trabalho, aulas, consultoria, prostitutas de luxo e whiskerias de fachada.  O cenário mudara nos últimos 15 anos. Não fosse por aquela decisão repentina, talvez não mais voltasse. Embora não consiga determinar, um impulso poderoso me pusera a caminho.

O ônibus segue velocidade constante. O programa de rádio alterna canções românticas e cartas de ouvintes, a maior parte delas contando desventuras com o sexo oposto. Um suposto entendedor das angústias do coração comenta, e o locutor anuncia a próxima música. Penso que poderia ter escrito uma carta daquelas. Qualquer delas.

A madrugada avança e não consigo distinguir as canções. Embaralho refrões, cochilo, acordo, faço imprecisas associações. Sinto saudades de minha filha. Lembro ter deixado papéis importantes sobre a escrivaninha do escritório. Como estará Mariana a essa hora? Acordo: meu companheiro da janela pede licença. Última parada antes de subirmos a serra. Devo descer - ele aconselha, austero.

Tenho preguiça de levantar. Vejo através do vidro o asfalto encharcado. Havia aprendido que não pode chover o tempo todo. Um filme. “O Corvo”, talvez. Não consigo recordar a última vez que fora ao cinema. Assim que retornar, levarei Mariana. Resolvo descer.  Afixado à porta de vidro, um mapa mostra minha cidade. Resta pouco, penso. Agora não há mais chance de dar meia volta.

Chego ao balcão da lanchonete e peço outro café. O médico dissera pra diminuir, que poupasse o estômago.  Fico devendo: duplo, por favor. Tento imaginar o que farei, quem procurarei primeiro, que palavras direi. Dois dias serão suficientes?  Me sinto atuando em uma peça ainda por escrever. O que diria Barbara? O balconista intervém: açúcar ou adoçante? Puro, amigo. Sinto falta do amargo. Sempre sentira.

sábado, 8 de junho de 2013

O ateliê de Alice

Visões, alucinações, cores e movimentos. Nada passa batido pelo astuto inconsciente de Alice. Sua arte, vinda da inquietude da alma, reproduz a vida e a morte de desconhecidos. Pessoas que passam a fazer parte de suas intermináveis madrugadas que acabam sempre em manhãs sonolentas e dias arrastados.

Foi em uma destas madrugadas em claro que Alice deu vida à sua primeira arte: o cruel assassinato de Ana Muniz, amante do excêntrico Luiz Felizberto, um empresário do setor hoteleiro do Rio de Janeiro.  A atriz pornô foi morta, amarrada à própria cama e algemada pelas pernas e braços. Nua, sua fisionomia apavorada dá o tom de terror à tela pintada. Até parece ter nascido pelas mãos do próprio assassino. Ao redor, policiais e suas fisionomias perplexas buscam vestígios para iniciar a investigação.

Outra tela retrata o caos de uma cidade devastada por um ciclone. Casas reviradas, destroços pelas ruas, pessoas arrancadas de suas famílias. Uma trilha de sofrimento com um céu acinzentado de arrepiar a alma. O cheiro da fumaça vinda da fuligem e da carne queimada ao acaso entope os pulmões. Não dá pra respirar. Alguns instantes e é possível sentir espinha acima o clamor, o pedido desesperado por ajuda e as despedidas silenciadas pelo horror da tragédia. Pilhas de corpos. O grande vento silenciou tudo em volta.

São muitas as telas espalhadas pelo ateliê de Alice. Estão prontas para serem servidas a um público seleto, os abutres, apreciadores de uma arte que revela a miséria e a tragédia humana. A exposição é um sucesso pelo tom de realismo que a artista projeta a cada peça. 

As telas de Alice, resultado de uma inspiração vinda de noites em claro, são despertadores que clamam por revelações. Uma força que a tira da cama e a joga entre telas vazias, cores e pincéis. Ela pinta compulsivamente, como se atendesse a um chamado e, ali mesmo, aos pés de sua obra, desmaia em sono profundo quando um novo dia começa a despertá-la. Uma soneca apenas, o suficiente para esvaziar a mente e fazê-la estremecer com o que vê.    

Alice seria apenas mais uma artista se não fosse por uma razão: sua insônia, que lhe rouba as noites e o sossego, reproduz notícias de grande repercussão. As cenas seriam facilmente retratadas por uma artista de talento como ela. Entretanto, sua arte premonitória, ao ganhar fama e os corredores das redações, entra na mira da polícia. Alice seria apenas alguém que perde o sono na madrugada e pinta para fazê-lo voltar? Era isso o que ela imaginava até um dia, inexplicavelmente, despertar de uma soneca com as mãos ensanguentadas.


Regina Rozin
(Insônia: quando as histórias se fazem e desfazem)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Insonia- modificado conforme aula de 23/05

INSONIA - modificado
Betina Lima Niemeyer

Era um beco asfaltado e um tipo de neblina impedia-me de enxergar o que havia em torno, talvez edifícios pequenos, não sei, o que sei é que o lugar estava deserto, mas eu sentia a presença de alguém pelo calor que esta presença transmitia. A neblina deixava tudo confuso, mesmo assim, eu consegui ver, na minha frente, duas mãos e, como se fosse em câmara lenta, as mãos foram subindo até a altura do meu rosto, envolveram meu pescoço suavemente e aos poucos começaram a apertar com força minha garganta, com tanta força, que eu não consegui mais respirar.
Tossindo, sufocado e com o coração aos pulos, acordei. Sentei na cama e fiquei alguns segundos paralisado, zonzo de pavor e grudando de suor. Mais uma vez, era o pesadelo, que vinha em versões diferentes: Ora era a chave de casa que eu procurava, mas não achava, ora era um telefone que eu precisava usar, mas não conseguia mover os dedos. O que os pesadelos tinham em comum era que eu sempre acordava e não conseguia dormir novamente. Acendi a luz da cabeceira e resolvi beber agua na cozinha. No caminho, passei pelo quarto da minha irmã, que dormia de boca aberta. Parei na porta e senti inveja dela, inveja daquele sono profundo, pensei em como a vida devia ser fácil de ser vivida e dormida quando se tem certezas!
Enquanto eu bebia vagarosamente o copo d’água, pensava em cada um dos quatro habitantes daquela casa. Meu pai, o engenheiro que raramente estava em casa, mas quando estava era distante e frio, minha mãe, a médica sempre ocupada com plantões e consultório, minha irmã, uma pessoa objetiva e direcionada que, ainda criança, tinha um quadro negro e alunos (eu e as bonecas) para quem ela dava aulas. E a família completava-se comigo: O estrangeiro dentro da própria casa, aquele que precisava decidir que curso universitário iria fazer. Eu; o cara que sempre odiou tudo que dizia respeito às matérias escolares, eu; que gastava horas esboçando desenhos, eu; com minhas espinhas, minha introversão, o skate e os grafites solitários pela cidade, que meu pai, com o olhar indiferente por trás do jornal, um dia classificou como: “coisa de bandido, de vagabundo que não deu pra nada na vida”.
Em pé na cozinha, voltei a pensar no pesadelo e, subitamente, me veio à boca um amargor que misturava fracasso com inadequação, naquele instante, pesou dentro de mim uma impressão de estar vivendo a época errada no lugar errado. Ao mesmo tempo, tive a certeza de que as paredes do apartamento se aproximavam e iriam espremer meu corpo, lentamente. Sem raciocinar, sai porta afora e só consegui respirar de novo quando já estava na rua, cruzei a avenida e encontrei a praça, um lugar querido da minha infância. Sentei-me num dos bancos e o ar limpo me encheu os pulmões, olhei em volta e o lugar estava quase deserto. Um senhor se aproximou e sentou ao meu lado. Por uns instantes ele nada disse, como se procurasse a melhor maneira de começar, quando falou, achei que ele estava bêbado, pois a voz era pastosa, mas não havia odor de álcool:
- A solidão é um bem tão precioso que devia ser obrigatório, mas tem vezes que ela vira uma megera, vira uma péssima conselheira.
Fez um muxoxo e, ajeitando-se no banco, continuou ainda mais arrastado:
- Nossa mente consegue aumentar os problemas, consegue fazer eles insolúveis, principalmente se os problemas nos acordam no meio da noite.
Quando voltei meu olhar para o homem, fiquei surpreso, pois ele não era tão velho quanto eu imaginava, era apenas mal tratado, talvez morasse na rua, não sei. Da distancia que eu estava, percebi que o seu olhar era quase liquido, por conta da catarata e fiquei comovido com aquela figura e mais ainda com o que ele falou. Fiquei sem saber se deveria dizer algo, mas ele, talvez sentindo minha hesitação, disse:
- Tem algum dinheiro pra mim?
- Não, não tenho. Se tivesse eu certamente te daria, mas saí de casa sem dinheiro nenhum.
O desconhecido, sem dizer nada, levantou, cambaleou, mas encontrou o prumo e, pé ante pé, sumiu na escuridão.
É estranho como as madrugadas apresentam personagens prisioneiros desta hora, seres que só fazem sentido se existirem nesta hora do dia. Pensei no que o homem disse e percebi que eu conseguia me apropriar daqueles pensamentos, eles faziam todo sentido para mim. Fiz um paralelo com as raras conversas que eu tinha com o meu pai, quando ele sempre me tratava como um incapaz e me fazia sentir pior do que eu estava antes de conversar com ele. Como no dia que sentei ao seu lado, num dos escassos momentos em que ele parecia disponível, e tentei dizer que não me sentia seguro para escolher uma carreira. Mas foi apenas uma tentativa, porque ele, antevendo o rumo que a conversa ia tomar, cortou a conversa valendo-se de uma frase feita, que repetia incansavelmente:
- A perseverança é a virtude pela qual todas as outras virtudes dão fruto.
E continuou com a voz grave:
 - A sua obrigação é estudar, não tente mudar o que você não pode.
E, sem dizer mais nada, cravou os olhos novamente no jornal.
 Ainda na praça, vagando entre meus pensamentos, comecei a achar que eu talvez fosse um cara tão inadequado, que tinha perdido ate mesmo o direito de ser um personagem que existe apenas em uma determinada hora do dia.
Os dias que se seguiram foram de sono irregular e pesadelos mais frequentes, alguns eu conseguia lembrar, outros não, mas todos me despertavam no momento em que havia uma situação limite. Raras eram as noites que eu conseguia encarar a insônia pós-pesadelo em casa, quando isto era impossível, eu pegava qualquer coisa que me servisse para desenhar e andava ate a praça. Uma noite, sentei num dos quatro bancos que cercavam as mesinhas de granito, e, quando ia espalhar meu material sobre a mesa, reparei que havia um grupo de pessoas reunindo-se. Eram pessoas de todos os tipos, eram barulhentos e, a cada momento, chegava mais alguém. Fiquei observando de longe quando uma jovem, que parecia ser a líder do grupo, se aproximou de mim perguntando:
- Você esta conosco, não é? Nós queremos todos juntos ali porque já vamos indo...Não podemos ficar muito tempo aqui na praça. A policia está sempre pronta pra dar o “bote”...vamos...
- Eu...
- Você faz parte do grupo dos desenhistas sem fronteiras, não é? Nosso grafite hoje vai ser no muro da escola pública ali da outra rua.
Dito isto, ela esticou a mão na minha direção e disse:
- Vamos?
Novos “personagens prisioneiros” em seu próprio contexto, mas, desta vez, este também era o meu contexto! Os “desenhistas sem fronteiras” eram artistas como eu não sabia ser também, eles eram a turma que eu procurava, sem saber, há muito tempo.  
Minhas noites de insônia passaram a ser bem frequentadas, o que não tornou menos reais minhas próprias assombrações, que continuavam a existir dentro de mim e dentro de casa, e teriam que ser encaradas em algum momento. Eu, ao menos, me livrei dos pesadelos e sentia na pele que, quem vive com pelo menos uma certeza, vive muito melhor!