(a partir de “a volta”)
Flávio Limoncic
"A senhora estava sendo esperada”. Com tais palavras, Dona Eudete, do 302, venerada por alguns vizinhos, odiada por outros e temida por todos, abre a porta para Dona Sara, do 706, que sente um calafrio. Como assim, estava sendo esperada? Pouco importa. O que importa é que Dona Eudete representa sua última e desesperada tentativa de solucionar o problema que há meses mina suas forças, condena-a a noites em claro, erode sua vontade de viver e que atende pelo nome de Jaiminho.
Sessentão, agarrado à barra da saia da mãe, horas e horas trancado no banheiro, Jaiminho foi presa fácil da armadilha de Kelly Chrystiny, a faxineira da cor do Brasil, corpinho-violão, vinte anos de pura travessura. Pudera. A bisca seguiu à risca o manual: shortinhos apertados, posições provocantes na hora de limpar o espaço entre os tacos - Dona Sara jamais admitiu nada menos do que assepsia absoluta -, banhos intermináveis de porta entreaberta... Jaiminho caiu de quatro. Vivem um romance tórrido.
Dona Sara nunca esteve à toa na vida. Se dependesse de Jonas, que viveu e morreu no mundo da lua, ainda estariam no Engenho Novo, em casa de vila, convivendo com pequenos funcionários, mascates, estoquistas, ele soltando pipa e organizando concursos infantis de cuspe a distância, ela pegando o trem para trabalhar na Zona Sul. Graças à sua organização e foco, aos seus peitos eternamente esparramados sobre o balcão, compraram o sala-e-dois-quartos da Viveiros de Castro e o imóvel da papelaria, na Siqueira Campos. Na pele de Fiscal do Sarney, aterrorizou os feirantes da Belfort Roxo. Como síndica, atormentou dia e noite, ano após ano, porteiros e zeladores. Mãe, sempre protegeu, e continuaria a proteger, seu Jaiminho - e seu patrimônio - daquela ou de qualquer pistoleira.
E havia também um outro lado da questão: o que Hitler não tinha conseguido fazer, o Brasil estava conseguindo, com seus costumes frouxos, sua malemolência e essa coisa de sambinha em caixa de fósforos: acabar com os judeus. Devia isso à memória dos seis milhões: não seria avó de não-circuncidados. Além disso, não que fosse racista - sempre dissera que os judeus não podem ser preconceituosos, pois, através dos milênios, foram vítimas do anti-semitismo, sem falar na existência de judeus negros, como aqueles lá da Abissínia -, mas daí a ter netos cor de azeitona...
No início dos fatos, apesar da sensível piora em sua enxaqueca, teve discernimento suficiente para perceber ser pouco prudente demitir sumariamente Kelly Chrystiny ou, mesmo, mostrar a Jaiminho o ridículo que era um rapaz da idade dele ter caído na conversa de uma moça da idade dela. Ao contrário, selecionou, do seu inesgotável arsenal, a arma mais do que testada e aprovada para o front familiar. O resultado, no entanto, foi decepcionante: à ameaça de suicídio, Jaiminho respondeu com um olhar em direção à janela; à ameaça de deixar tudo para uma sobrinha de Porto Alegre, Jaiminho respondeu assobiando "Ave Maria no morro".
Pela segunda vez na vida, Dona Sara ouviu a banda tocar fora do seu ritmo. A primeira foi quando casou com Jonas, um casamento sem amor, uma imposição do velho Abrahão. Para compensar, dedicou-se, com consistência quase maníaca, a descontar no marido a sujeição ao pai. Como fez a inúmeros porteiros e zeladores, atormentou-o dia e noite, ano após ano, até que ele se deixou consumir. Sua morte não a jogou no luto. A ameaça de perder Jaiminho, sim. Suas amigas desde sempre, Dona Berta, Dona Raquel e Dona Rosa, preocupadas, aconselharam-na a conversar com um dos muitos rabinos cariocas, alguns deles bem jovens, rapazes ótimos, que certamente teriam dicas, sugestões e conselhos práticos e criativos, embora estritamente baseados na tradição judaica, para o seu drama. Ainda que não pisasse num templo desde o bar-mitzvah de Jaiminho, Dona Rosa decidiu procurá-los. Mal não faria.
O rabino liberal, meia-idade, sotaque castelhano e rabo-de-cavalo, sugeriu-lhe substituir o luto pela vida, fez um discurso sobre a importância das conversões para a continuidade do Povo de Israel e se ofereceu para oficiar o casamento. Dona Sara sequer se despediu. O rabino ortodoxo, regulando idade com ela, chapéu de feltro e sotaque idiche, afirmou desconhecer o sentimento do luto, apenas suas regras, aplicadas com exclusividade em casos de morte física. Sugeriu a demissão sumária da moça, acrescentando duvidar que Jaiminho saísse do bem-bom de Copa para ir morar numa comunidade qualquer, esquecida por D's e pela prefeitura. Dona Sara preferiu não correr o risco. O rabino Lubavitch, mal saído das fraldas, sotaque inglês e barba no umbigo, disse que o caso, longe de ser de luto, era de regozijo. Kelly Chrystiny era a isca lançada por D’s para pescar Dona Sara para a religião. Simples assim: Dona Rosa reencontrando-se com o Eterno na sinagoga, Kelly Chrystiny perdendo-se de Jaiminho no mundo. Encantada pela oratória do rabino, Dona Sara se deixou fisgar. E, como não fosse mulher de meias medidas, até peruca passou a usar. Jaiminho e Kelly Chrystiny, no entanto, continuavam mais atracados do que nunca. Se os judeus esperavam o Messias há milênios, protestou o rabino Lubavitch, por que tanta pressa?
Numa tarde em que esfregava furiosamente uma travessa para livrá-la de qualquer resquício de leite - não só porque sua pequena cozinha não comportava dois jogos de utensílios, mas também porque louças mal-lavadas eram garantia de infecções e úlceras -, Dona Sara ouviu gritinhos de alegria vindos da sala. Aguçou o ouvido. Jaiminho pedia Kelly Chystiny em casamento. Começou a esfregar a travessa com mais determinação e vigor, de modo a que D's notasse seu temor e entrega e a livrasse daquele pesadelo. Mas quando foi chamada para ser comunicada da novidade, Kelly Chystiny já usava o anel de noivado na mão direita. Da sala, pressão 37 por 28, Dona Sara foi direto para Dona Eudete. O policial bonzinho e o policial malvado, uma vela para D’s, outra para o Diabo. Ao menos Jonas estava morto. Vivo, certamente apoiaria o descaramento.
Toda a mobília de Dona Eudete, das cortinas aos bibelôs, parece impregnada de magia negra, de matança de bode e charuto barato. Percebendo a hesitação de Dona Sara, Dona Eudete tenta tranquilizá-la: “O que a sinagoga não resolve, Maria Padilha dá um jeito”. Dona Eudete afasta os gatos e ambas se sentam, Dona Eudete, imensa, bem distribuída no sofá, Dona Sara, bem distribuída, confinada na pontinha da almofada, alternando discretamente as bandas das nádegas, as mãos sobre os joelhos. Não quer contato, por mínimo que seja, com um fiapo sequer de pelo, sua asma a mataria, para não falar no perigo das micoses e viroses, principalmente da mononucleose, dos microorganismos em suspensão, fungos, bacilos e lactobacilos vivos, protozoários, bactérias e ácaros, sempre em busca de mucosas, pequenas feridas, cortes, ranhuras, para que possam entrar no seu organismo e começar o lento e paciente trabalho de demolição de tecidos sadios e órgãos vitais, arruinando linfócitos, desvirtuando eosinófilos, infeccionando glândulas, alterando equilíbrios hormonais, tudo com o intuito de cumprir a função para a qual foram desde o início programados, todos eles, sem exceção, qual seja, a produção, reprodução e difusão massiva de tumores metastáticos por seu tronco, cabeça e membros. Por isso, sente-se mais alarmada com os móveis empoeirados, as guimbas de cigarro nos cinzeiros, o cheiro de quinquilharia mofando em armários e gavetas, a evidente falta de zelo e cuidados básicos e gerais, do que propriamente assustada com o esoterismo primitivo do lugar. Dona Eudete, indiferente à linguagem corporal da vizinha, afirma que é preciso fazer um trabalho. Uma matança. Para matar Kelly Chystiny no coração de Jaiminho, Dona Sara deve matar uma galinha com as próprias mãos, numa sexta-feira à meia-noite.
Dona Sara sabe matar galinha. O problema é que nem o lendário Bugsy Siegal, seu primo distante, segundo a lenda familiar, matava no shabat. A janela teológica para a quebra do descanso, avidamente buscada em uma noite inteira de pesquisa em antigos livros do pai, é finalmente encontrada: salvar uma vida justifica ações de outro modo interditadas. E é assim que Dona Sara encara sua empreitada: a salvação não de uma, mas de duas vidas (a sua própria e a de Jaiminho).
Sexta-feira, onze e meia. Lenço sobre a peruca, óculos escuros, capa de chuva com aba levantada, eczemas latejando, Dona Sara é uma sombra a deslizar sob as marquises. Numa das mãos, um embrulho com alguidar, copo, velas, farofa e cachaça. Na outra, dentro de um saco preto, a galinha, bico grudado com durex, pés atados com barbante. Busca uma encruzilhada escura e deserta, nem tão próxima de casa em que corra o risco de ser vista pelos vizinhos, nem tão longe que tenha que pegar ônibus. Onze e quarenta e cinco, descarta as esquinas formadas pelas transversais da Barata Ribeiro, onze e cinquenta, e Nossa Senhora de Copacabana, onze e cinquenta e cinco, até chegar, esbaforida, onze e cinquenta e nove, ao cruzamento ideal: Leopoldo Miguez com Barão de Ipanema.
Mesmo estando na última volta do ponteiro, é preciso método. Deposita o conteúdo da sacola no chão da esquerda para a direita, na ordem em que cada elemento será utilizado: alguidar, farofa, cachaça e copo, velas e fósforos. A seguir, enfia a mão no saco. A galinha, puro instinto, debate-se, furiosa. Mantendo-a amarrada e amordaçada, Dona Sara a executa com um só golpe. Ajeita o corpo morto no alguidar, acrescenta a farofa, despeja um pouco de cachaça no copo e se agacha para acender as velas. É quando a luz de um farol incide diretamente sobre ela. O motorista abre a janela, grita “saravá, Dona Sara!” e arranca cantando os pneus. Dona Sara, que não reconhece o sujeito ou sua voz, sente vontade de evaporar, mas lembra de Jaiminho enroscado na sirigaita. Bebe do gargalo três dedos de cachaça para tomar coragem, acende as velas, toma mais um gole, dessa vez do copo, o cheiro de pólvora do fósforo se mistura ao do sangue, ambos penetram suas narinas e quando chegam ao cérebro encontram o álcool, a encruzilhada gira, dá uma gargalhada jogando o corpo para trás, estará recebendo uma pomba-gira?, precisa puxar um ponto, entoa Adon Olam. De imediato a confusão mental se dissipa. Desesperada por invocar Deus numa cerimônia dedicada ao Diabo, começa a tremer. Então, vem-lhe à mente a metáfora da pesca, do rabino Lubavitch: Adon Olam foi um anzol que Deus lançou para içá-la do abismo. Substituindo o tremor pela fúria, destrói o alguidar como se fossem ela Josué, ele a muralha de Jericó (Josué, Versículos 5:13-6:27), espalha a oferenda pelo chão e pisa sobre ela até quebrar tudo, inclusive os ossos da galinha. Em seguida, parte em disparada, sem olhar para trás. Quando vai chegando ao prédio, sangue, penas e farofa cobrindo-lhe os sapatos e a barra da capa, peruca empapada, respiração ofegante, a herpes zoster pronta a explodir, seus olhos são atraídos para a janela do terceiro andar. Evita, a todo custo, levantar a cabeça, cola o queixo no peito, ensaia andar os metros finais de costas, mas em vão. Rende-se. Contra o fundo de uma luz vermelha, a silhueta de Dona Eudete balança vagarosamente a cabeça, em sinal de reprovação.
Vingança de Seu Tranca-Ruas pela ofensa no despacho: no dia seguinte, Jaiminho e Kelly Chystiny, felizes da vida, anunciam mudança para o depósito da papelaria. Ou seria vingança de Jonas, que veio sabe-se lá de que cafundós do além, para tirar a forra, através do filho, pelas ofensas sofridas durante toda a vida? Não, nesse caso, a ofendida era claramente ela, obrigada a conviver com suas carnes brancas e abundantes, quando suas próprias carnes clamavam por Jairo, da cor do Brasil como Kelly Chrystiny, goy e sem ter onde cair morto, o conjunto da obra desqualificando-o para casamento e procriação, mas não para o desejo, quando ainda o tinha, ou para as saudades, sempre presentes. Definitivamente, vigança de Seu Tranca-Ruas. Em três semanas, porém, não cabe dúvida, troco de Deus: Jaiminho está de volta. Dona Sara, exultante, cerca o filho de cuidados: prepara um lanche, pão com manteiga, Nescau e geléia de mocotó, você estão tão abatido, vá já lavar as mãos, tempera a água do chuveiro, está quentinha, como você gosta, separa uma roupa limpa, o conjuntinho de short e camiseta que compramos na Hering, que sabe saimos mais tarde para comprar um sapatinho-tênis? Jaiminho não come, não toma banho, não troca de roupa, seus olhos não brilham à menção do tênis. Dona Sara senta ao seu lado, suspira fundo, tosse, o diafrágma já não é mais o mesmo, pega na sua mão e lhe diz para contar tudo. Ela vai dar um jeito. Sempre dá.
Hesitante a princípio, Jaiminho afinal se abre. No início, tudo foram flores, até que um dia Kelly Chystiny ficou irritadiça e distante. Apavorado com a perspectiva de perdê-la, prometeu passar os bens da família para o nome dela tão logo Dona Sara morresse, assim como despachar a mãe para o asilo, para que pudessem viver na Viveiros de Castro. Para que? Kelly Chystiny começou a chorar. Disse que ele era o amor dela, o amor, entende?, e que se lixava para os bens. Depois, acrescentando rancor à desilusão, disse que ele poderia pegar os tais dos bens, assim como os transferidores, borrachas, compassos, lapiseiras, apontadores, resmas A4, o estoque inteiro da papelaria, réguas incluídas, mais a Viveiros de Castro toda, com seus edifícios, árvores, lojas e carros, fazer um embrulho com papel de presente, tem sim, na prateleira de baixo, à esquerda, e enfiá-lo ele sabia muito bem em que buraco, sem esquecer depois de usar a mãe como tampa, para ficar tudo bem guardadinho e seguro. Fez as malas e foi embora.
Jaiminho se cala, olhos fixos na mãe, a implorar ajuda. Dona Sara sente-se incapaz de explicar ao filho, um homem de 63 anos, que mulheres têm seus dias. Sente-se, em verdade, incapaz de qualquer coisa. Vai para a área de serviço. Ignora as roupas lavadas na máquina e o lixo que precisa ser removido. Senta-se no banquinho. Não pensa em Deus ou no Diabo, no Engenho Novo ou em Copacabana, nem na esclerose lateral amiotrófica, sobre a qual lera qualquer coisa em algum lugar e que, cedo ou tarde, acabará por matá-la, muito menos em Jonas. Sequer em Jairo, que nos últimos tempos não lhe sai da cabeça, pensa. Pensa em Kelly Chrystiny, uma coisica de nada que entrou na sua vida pela porta dos fundos, balde e vassoura nas mãos, e saiu deixando-a com fama de macumbeira, o filho praticamente inutilizado e uma perplexidade sem fim.