sábado, 25 de maio de 2013


o estranho
(tema: Insônia)
Robson Aguiar

Desiste de tentar dormir e levanta-se. Sente o corpo moído, cansado dos dias trabalhados a mais. Afasta com delicadeza o lençol, tentando não despertar a mulher. Passa pela sala e observa as cachorras em suas camas de patchwork. Acaricia suas barrigas com os pés e as bichinhas se refestelam. Tenta recordar a última vez que as levara pra passear.

Chega à cozinha, abre a torneira do filtro e observa a água pingar do filtro de marca exótica, comprado no canal de compras da televisão. Ou teria sido no site de compras coletivas? Não se lembra. Na verdade, não sabe. Perguntaria depois à mulher. Há quanto tempo aquela vela não era trocada? Precisava descobrir.

Volta e pára em frente ao quarto da filha. Ouve um ronronar suave. Entra, acomoda-se à beira da cama e observa. Acaricia seus cachos negros, quase com medo. (O que diria, deus, se acordasse?) Admira a beleza juvenil da menina, o viço sedutor da adolescência. Sobre a mesa de estudo, fotos organizadas em um quadro metálico. Ilumina com o celular, tenta identificar os amigos da garota. Não reconhece mais aqueles rostos. Estaria sua filha namorando algum daqueles meninos? Distrai-se, tentando adivinhar o tom pastel das paredes, algo entre o azul e o verde....



Resolve ir à varanda, contar as janelas iluminadas da madrugada. São poucas, e o movimento quase nenhum.... Uma ou outra tela de computador acesa, contatos virtuais em frenesi. Imagina o sono daquelas pessoas no dia seguinte, zumbis urbanos movidos a café, guaraná natural e outros estimulantes sintéticos. Pensa que elas deveriam dormir, e imediatamente se dá conta de que falta muito pouco para amanhecer.

Volta à cama e observa a mulher sob o lençol semitransparente. Admira seu rosto, lembra de sua beleza. Acaricia a pele, afaga coxas e bunda, sente vontade de dizer que a ama, de tocá-la intimamente. Não demora muito a perceber que não era ocasião de resgatar os muitos anos de vida esquecida. Afasta-se, ocupa seu lado na enorme cama king size e puxa o caderno de esportes da pilha dos jornais não lidos.

Logo abandona o jornal e abre o computador portátil. Ao navegar em uma de suas redes sociais, se depara com inúmeras mensagens que ensinam como se portar e conduzir a vida. (No colorido das imagens e dos textos, viver nem parece ser assim tão difícil). Fecha a máquina e pensa no que ainda lhe resta. Com o quê, afinal, poderia contar? Por ora, apenas a certeza de não dispor de muito, a insônia persistente, e a impressão de estar sempre à margem do fio da meada.

Rio de Janeiro, 23-24/maio/2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A mais longa das noites


(a partir de “insônia”)
Flávio Limoncic


Muito embora a semeadura, em abril, fosse época de muito trabalho, era na colheita, entre outubro e novembro, que o mundo girava em torno do milho. A prefeitura, agências bancárias, igrejas, escolas e clubes, mesmo os velórios, tudo exalava o cheiro das diferentes famílias de grãos, dos amassados aos encerados, passando pelos macios e os açucarados. 

Para crianças e adolescentes, a coroação da rainha do milho era o ponto alto da estação. Ainda que sardas e pernas compridas fossem bastante apreciadas (servindo ocasionalmente como critérios de desempate), a competição era geralmente vencida pela menina cujos cabelos tivessem a cor mais próxima da de uma espiga. Numa das coroações, atrás da barraca de ponche, passou a mão no peito de um garota. Beijo na boca já tinha dado, na prima, muitos e intermináveis. Mão no peito, nunca. Quando quis descer a mão, coração a mil, a menina, qual mesmo o nome dela?, não deixou. Sonhou com ela durante meses. Nos sonhos, ela não só deixava, como até pedia. 

A melhor estação do ano era o verão, com suas infinitas horas de luz e banhos de lago. Era quando as meninas tiravam seus casacos, luvas e cachecóis e era possível ver, ainda que por breves semanas, a textura das suas peles e a geometria dos seus corpos. O que não via, imaginava depois, sozinho, no banheiro. E foi no verão dos seus dezoito anos que o Pai o chamou para uma conversa. Pensou que fosse justamente falar de como, quando e o que com as garotas, mas não. Falou da fazenda, do amor que sentia pela terra, de como conhecia cada palmo da propriedade que pertencia à família desde que seus antepassados mataram ou expulsaram, ele não tinha bem certeza, o último dos Potawatomi. Um dia, a fazenda seria dele, precisava ter noção da luta que era para manter tudo funcionando, o silo, o trator, o depósito de combustível, os implementos, fertilizantes e defensivos, pois não bastava mais a um fazendeiro, em 1943, conhecer as estações do ano e o regime das chuvas, tinha também que saber dirigir, consertar equipamentos e manipular produtos químicos. E se não quisesse pôr tudo a perder, tinha, sobretudo, que dominar as quatro operações básicas, pois uma serpente traiçoeira, a quem só o cálculo impessoal interessava, rastejava à espreita, pronta para o bote: a Bumpbell’s. Desde que abrira um escritório na cidade, a Bumpbell's se tornara a única compradora de milho de toda aquela região do Meio-Oeste, impondo preços e arruinando fazendeiros. E, por trás da Bumpbell's, os especuladores da Bolsa, agentes hipotecários, fiscais sanitários,  gerentes de banco, representantes comerciais e vendedores de seguro, católicos e judeus da Costa Leste todos eles, obcecados por manter os sapatos sempre limpos, sem vestígio de terra, estrangeiros ainda que nascidos no país, alcoólatras, coletivistas, comunistas e ateus, parasitas e criminosos de toda sorte. Por isso, mesmo os avós gostavam muito da coroação da rainha do milho. Por alguns dias, sentiam-se fazendeiros à moda antiga, inocentes de comércio, rifle numa das mãos, arado na outra. Americanos.  

As pálpebras fechadas, se não foram garantia de sono, ao menos refletiram, como telas de cinema, cenas da vida de um garoto descobrindo o mundo. Agora, no entanto, às três da manhã, a cólica, daquelas em que o cocô fica girando desgovernado pelas curvas do intestino, trem cego na escuridão, torna dolorosa a vigília. E, como se não bastasse esvaziar-se por baixo, esvazia-se também por cima. Às três e trinta, vômito. Pingos de diarréia e de vômito em torno da privada. Não. Em todo o banheiro, mesmo longe da privada. Mesmo fora do banheiro, no longo caminho até a cama. Na cama. Em dezenas de camas do imenso dormitório. 

Àquela altura, o que tinha de ser, estava feito. As semeaduras e colheitas, o que ficava entre, o que aprendera com o Pai a ser e a fazer no mundo, tudo é irrelevante. Só o futuro é importa. E, claro está, não o futuro de muitos anos, depois de incontáveis semeaduras e colheitas, tampouco o do médio prazo, do ser e fazer no mundo o aprendido com o Pai, mas o futuro das próximas horas, em que a ordem dos últimos meses - um presente pelos seus dezoito anos, enviado pelo Exército em forma de telegrama -, organizada em torno de normas e rotinas destituídas de sentido, dará lugar à ausência mesma de normas, à suspensão de todas as rotinas, ao território da mais completa falta de sentido. 

É preciso, portanto, manter os olhos abertos, encarar de frente o que lhe está reservado: tem quase dezenove anos e, embora seja novamente verão, o de 1944, nenhuma menina o espera numa tarde ensolarada, na beira do lago, pronta para recebê-lo, mas morteiros e balas numa praia cinzenta da Normandia, cujo nome sequer conhece, mas cujo codinome, para o bem ou para o mal, sabe que entrará para a História: Omaha. Então, que esse verão sem sol e que Omaha e a História tomem todos bem no meio do olho do cú e, junto com eles, o Dia D e todos aqueles que acham que têm o direito de mandar nele, de gritar com ele, do presidente, que o Pai garante ser acionista da Bumpbell's, ao filho da puta do sargento, assim como suas respectivas e inteiras hierarquias civis e militares, e também quem fez a porra da meia que causou uma bolha no calcanhar, pois todos enchem a burra de grana, a Bumpbell’s e a fábrica de meias, mas quem vai se foder é ele, que sequer distingue o bigode de Stalin do de Hitler, que só entende de milho, que gostaria de entender de boceta (nem que apenas o básico), e de sentir de novo o gosto do chocolate quente, forma líquida que a Mãe encontrou para demonstrar algum afeto, e também de enfiar a língua na boca da prima até a garganta dela, pois desde que ela soube da história da mão no peito da outra garota nunca mais quis beijá-lo, mas tudo vai desaparecer, a Mãe, a garganta da prima e todas as bocetas do mundo, será que o babaca do cabo vai ter coragem de descer a rampa da embarcação-de-assalto?, isso é, não desaparecerão, a Mãe, a garganta e as bocetas, ele é que não vai mais estar no mundo para tentar abraçá-la, tocar-lhe com a língua e enfiar-se nelas, assim como para desvendar o grande mistério que o assombra desde que seus pentelhos cresceram e que consiste em saber se meninas também têm pentelhos e, se tiverem, se são da mesma cor dos cabelos, porque se forem, a menina em cujos peitos passou a mão na coroação da rainha do milho tem pentelhos mais vermelhos do que um cravo. O soldado da terceira cama do lado esquerdo aperta um crucifixo. Será que o Pai estava errado quando disse que o Papa é o maior fomentador de guerras?

Quatro horas: toque de despertar. Quatro e trinta: ordem unida. Cinco horas: embarque. Garganta e olhos ardem, merda e vômito transbordam, o suor transborda, tudo-transborda-ao-mesmo-tempo-por-todos-os-buracos, mijo inclusive. Pelo menos o pau está quentinho. Será que dentro de uma menina é assim, molhado e quentinho? Talvez nunca saiba. 

O que sabe é que, na remota hipótese de sua sobrevivência, os cheiros de urina, fezes, suor e vômito vão se amalgamar aos de pólvora, querosene e sangue para produzir o odor que trará para sempre consigo, que nem água sanitária será capaz de combater e que o obrigará a conviver, em arriscada proximidade, com o espectro da própria morte. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Epifania


Conto alterado de acordo de acordo com sugestões da aula passada: 

Do jardim fértil, novas vidas eram geradas, vidas que brotavam para trazer novas vidas a rodeá-lo. No mesmo gramado, bebês engatinhavam onde mais tarde caminhariam de braços enlaçados, e então, trariam seus bebês para engatinhar, os mesmos que acompanhariam seus pais algum dia nos passeios matinais, num ciclo sem fim.

Helena não era parte de nenhuma daquelas histórias. Há 20 anos observava o jardim. Acompanhava  as histórias em pedaços contadas ali para depois embrenhar-se em cada uma delas, imaginando suas continuações. Contava e recontava para si mesma a vida daquelas pessoas, como se estivesse vivendo a sua própria. 

Única filha entre 4 irmãos, Helena cuidara da mãe durante aqueles 20 anos todos os dias, todas as horas e todos os minutos tirando os em que descia para o jardim. A doença a cada dia roubava um pouquinho da memória da mãe, de modo que pouco a pouco filha virava mãe que virava um corpo oco. As duas cada dia mais ocas: a mãe que perdia a memória e a filha não construía nenhuma, solidária. Sua função única era acompanhar a mãe desaparecer, cada dia mais, até virar um fantasma a vagar pela casa assombrada. Assombrada um pouco por medo da morte, mas principalmente por medo da vida. 

Naquele domingo inédito, Helena não seria plateia no palco-jardim. Só precisava de um banco e uma árvore para esconder seu rosto na sombra. A mulher chorava compulsivamente. Revivia na memória a mesma cena diversas e diversas vezes: o corpo de sua mãe sendo sugado para dentro da terra em um jardim ao revés.

Iam embora com ela os dias de chuva que ensolaravam-se em segundos quando de repente a mãe contava, depois de dias e dias em silêncio, do vestido que Helena usara no primeiro dia de aula. Iam embora com ela as noites que varou, os gritos que abafou para não acordar os vizinhos, cada vitória sobre a doença e cada derrota. Iam embora com ela suas histórias, seus sonhos, suas broncas, suas lágrimas.

Começou a sentir a saudade entalada em sua garganta subindo, virando angústia, pânico, falta de ar, e uma ânsia incontrolável a fez vomitar. Ninguém teria visto a cena se não fosse por um homem que a observava de longe há alguns minutos. João se levantou, andou ate ela e lhe ofereceu um lenço e um sorriso.

A história de João estava ligada a cada flor, borboleta e árvore do jardim. Conhecera a esposa na infância. Brincaram ali, ele, Vera e os amigos, de pique-esconde. Vera era a sempre a primeira a ser encontrada, mas João não a deixava perder. Ficava no pique em seu lugar, de olhos fechados contando, enquanto as crianças se escondiam novamente.

Os dois começaram a namorar muito jovens, e ficaram noivos por longos anos até terem condição de se responsabilizarem por suas próprias vidas. O casamento foi festejado no jardim, logo depois da cerimônia na igreja próxima. Não demorou até nascerem os meninos, que cresceram saudáveis e felizes, tão rápido como João ou Vera jamais teriam previsto.

Nos últimos anos viviam juntos apenas os três na mesma casa de tantos anos. João, Vera e o raro tipo de amor que os unia, lapidado a cada dia pela erosão do tempo. Quando a escultura finalmente ficou pronta, o tempo julgou ser hora de levar um deles, e escolheu Vera. Dali em diante, João parou de viver por meses, até aquele domingo.

O domingo em que ele e Helena se viram pela primeira, e pela última vez. Conversaram por muitas horas até a noite cair. E inspirados pela luz das estrelas vinda de longe para desenhar, no momento exato, um céu planejado há milhares de anos, convidaram-se para dançar. E embora nenhum dos dois tivesse dançado antes em um jardim observados pelo céu estrelado, souberam exatamente o que fazer naquela noite. E em todas as outras subsequentes.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O amor de Luisa


Quando o casamento de Luisa acabou, há quase dez anos, descobriu que era forte o suficiente para superar a traição, a humilhação e uma mágoa profunda. Mas fraquejou ao lidar com o fracasso no amor, afinal, acreditava ser para a vida toda. Um ano depois da separação, sentia que era o momento de tentar de novo, hora de redescobrir o sentimento que a apunhalou pelas costas.


Nessa nova etapa, Luisa quebra a cara algumas vezes e chega até a se relacionar com Marcos, um homem interessante, mas que não a atrai. Apesar disso, tenta se apaixonar, pois acredita ser possível treinar o coração para amar novamente. Não dá certo e, mais uma vez, se magoa e machuca outra pessoa. O que não esperava é que esse cara lhe daria o maior de todos os conselhos: “Não existe ninguém perfeito e, se continuar acreditando nisso, passará o resto da vida procurando alguém que não existe”.

Depois do alerta, recebeu outro conselho de Chico, um colega de trabalho. Devia abandonar os livros de auto-ajuda no amor, levantar a cabeça e acreditar no próprio potencial de ser feliz. Dias depois, o colega enviou uma agenda telefônica e um bilhete que dizia: “Fiquei revoltado. Como pode uma garota como você ficar de baixo-astral e (argh!) estar lendo livros de auto-ajuda? Você não deveria ler sobre planetas distantes (Marte e Vênus), sobre polvos, cobras e lagartos. Nos momentos em que precisasse de um ombro, deveria apenas pegar seu caderninho de telefones e escolher o nome da vez”.

Além do caderninho que Chico, como patrocinador, fez questão de preencher todas as letras com o próprio nome, ainda lhe deu um livro sobre as paixões com uma dedicatória especial: “A paixão é um sentimento que tanto nos eleva como nos derruba. Curtir uma grande paixão é sempre muito bom, mas ‘descurti-la’, quando tudo termina, é melhor. Apesar de tudo, o mundo ainda merece continuar vendo o sorriso no seu rosto”. As lágrimas presas há tempos se libertaram.    

Luisa sentiu um estalo. Chico estava certo. Era preciso coragem para seguir em frente. E foi revirando suas lembranças, depositadas em uma caixinha de recordações, que Luisa encontrou cartas, cartões, memórias. Veio à cabeça a saudosa lembrança de amigos, ex-namorados, da família... Um turbilhão de momentos inesquecíveis que adormeceram no tempo. É o caso do cartão postal enviado de Paris pela amiga Clarisse que, além de mostrar a luz da cidade e do amor que estava vivendo, pedia para a amiga se cuidar. “De vez em quando perca o juízo, mas nunca deixe de ter amor próprio”.

A madrugada avança e Luisa mergulha na caixinha.  Lembranças que a inspiram e ajudam a entender mais sobre o amor. Ri de si mesma, da tolice de ter esquecido que não há amor maior do que se olhar no espelho. Fez isso longamente, até se perder entre risos, choro e recordações. Finalmente, Luisa reencontra o amor. E, desde então, procura cultivá-lo todos os dias à frente do espelho. O amor próprio foi o maior presente que podia se dar. Adormeceu criança, acordou nova mulher.

Nos meses seguintes, Luisa saiu da toca inúmeras vezes. Até que certa noite convidou-se para jantar em um bom restaurante italiano. Deliciou-se com massa e uma generosa taça de vinho. A bebida ajudou a relaxar, rir de si mesma, fazer amizade com o garçom. Distraída em pensamentos, devaneios e na satisfação do momento, Luisa é bruscamente despertada pelo garçom ao lhe entregar um bilhete: “vejo que está em boa companhia, posso acompanhá-la no café?”.        

Regina Rozin
(Uma história de amor)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Amores cruzados



(a partir de “uma história de amor”)
Flávio Limoncic  


Feivel foi se fazendo necessário aos poucos. No início, levava apenas água. Depois, lenha e comida. Também começou a fazer pequenos reparos no telhado. Quando Nadia deu por si, já não   sobreviveria ao inverno sem ele. Por isso, e porque eram nove horas e ele não aparecia e sobre a mesa só restava um pedaço de moela, teve que se controlar para não cair em desespero. 


Cerca de dois meses antes, ele pedira para passar a noite. Nevava muito e ela não teve como recusar. Abraçou o filho na cama estreita, ao passo que ele se deitou no chão. Após alguns instantes, uma respiração ofegante cortou o silêncio. Ela se agarrou ao filho, coração na boca, olhos atentos na escuridão. Não trocaram palavra, mas o ritual repetiu-se algumas vezes, até que uma noite ela também ofegou. Pensando-se desejado, Feivel se lançou sobre ela, mas foi rejeitado com vigor. Confuso e humilhado, recolheu-se e partiu sem nada dizer.  

Não apareceu nas semanas seguintes. Além de cuidar do bebê, Nadia teve que colher ovos, supervisionar armadilhas de coelhos e buscar lenha e água. Seus dedos ficaram feridos, o nariz sangrava, as costas doíam. Rezou para que ele voltasse.  

Ele voltou, mas exigiu seios, coxas e pelos. O preço, alto, foi pago sem regateio, mas de olhos fechados. Nadia aguardou a curra. Nada aconteceu. Abriu os olhos. A um canto, costas contra a parede, Feivel se esfregava com a mão fria. Dois dias depois, quando voltou, Nadia tirou o avental antes mesmo que ele pedisse, pensando que um novo ritual havia se estabelecido. Estava enganada: desviando o olhar e mandando-a se vestir, Feivel pediu perdão e, de forma confusa e atabalhoada, declarou o seu amor. 

A princípio, Nadia sentiu repulsa. Não por muito tempo, pois ali estava ele, tão esquecido pelo mundo quanto ela. A verdade é que se ele se aproveitara da sua situação, também expusera, e de forma ainda mais humilhante, sua completa destituição de tudo. Não menos importante, ao contrário do Conde, que a violentara através de outros homens, ele utilizara apenas seus olhos e sua mão. Enfim, apesar de tudo, cuidava dela e de seu filho com zelo e precisão. Diante das circunstâncias, o que mais poderia pedir? 

Apenas uma coisa: que ele lesse o bilhete deixado por Leizer. Poderia até aceitá-lo em sua cama, quem sabe se afeiçoar a ele, mas precisava saber a razão pela qual havia sido abandonada, pois se recusava a aceitar que Leizer fugira por ter-lhe feito um filho. Feivel hesitou. Depois, leu o bilhete uma, duas, três vezes para si próprio. Por fim, leu em voz alta: 

Meu pai, 
Esta é Nadia, que traz meu filho na barriga. Não peço que os ame, apenas que cuide deles na minha ausência. Volto para buscá-los quando houver encontrado uma vida melhor para todos nós. Leizer  


Então Leizer os amava, desafiava o mundo para resgatá-los daquele pedaço de fim-de-mundo! Nadia abraçou o bebê, sentindo que a ordem natural das coisas, temporariamente suspensa, fora restabelecida. A felicidade plena, porém, logo se fez acompanhar pela consciência da fragilidade sobre a qual se baseiam as coisas da vida, pois teria bastado a Feivel omitir ou acrescentar algumas palavras para que toda a sua ordem, por mais natural que lhe parecesse, ruísse.  


Nadia sabia existirem muitos homens capazes de amor e arrependimento. De um ato de renúncia, poucos. E um deles estava bem à sua frente, olhando-a com olhos tristes. 

Aproximou-se dele e beijou-o na face. Depois, peça por peça, despiu-se em silêncio, vagarosamente, até ficar completamente nua. Trêmulo de emoção, Feivel precisou, como um menino, de ajuda para abaixar as calças. Ela o abraçou, envolvendo-o. Delicadamente de início, depois com uma audácia de que não se sabia capaz, Feivel cobriu-a de beijos e carícias, na ânsia de abarcá-la toda ao mesmo tempo e por todos os lados. Ao menos uma vez a teria, pernas abertas para ele, e ele, para quem nenhuma mulher jamais abrira as pernas, que sequer os braços abrira, viveria o momento da sua vida, desejando, a um só tempo e com a mesma urgência, o que sabia impossível: regá-la abundantemente com seu sêmen e evitar para sempre o gozo, pois quando este chegasse, tudo acabaria.


O bebê chorava, assustado com o barulho e o movimento. Feivel, esgotado, sentou-se por alguns instantes perto do fogão. Quando se recobrou, perguntou a Nadia, que amamentava o filho, o que era preciso providenciar para dali a dois dias.

Apesar do frio, Nadia abriu a porta, tentando adivinhar a silhueta de Feivel recortada na noite escura. Nove e meia. Desapontada, olhou para o chão. Foi quando viu, do lado esquerdo da porta, a cesta com água, lenha e codornas. 


Não tornariam a se ver até o fim do inverno, mas ele a manteve alimentada e aquecida até a chegada da primavera. 


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Queijos e Vinhos


Choveu a noite inteira. Os planos para o domingo diluíram-se com a tempestade e os cinco amigos ficaram sem saber se o encontro combinado há semanas aconteceria realmente. Não se viam com freqüência. Mas quando acertavam essas ocasiões os momentos juntos eram marcantes. Era apenas uma desculpa para brindarem a presença uns dos outros.
O encontro, como seria? O piquenique no domingo foi decidido em correspondências eletrônicas nas últimas semanas, a única comunicação possível nestes dias de trabalhos e família que exigem urgência. E agora teriam de mudar a decisão.
Está fora de questão para hoje, não é agradável banquetear-se com a grama e a terra molhadas. Ah, pena, um dia perdido. Mas quando se encontrariam novamente? Quando filhos, maridos e teses permitissem. Mas a depender das teses, não seria logo. Seria melhor deixar o encontro para a próxima semana e esperar que o sol os agraciasse com sua presença ou se encontrarem mais tarde, num lugar igualmente acolhedor e celebrarem ainda assim?
Decidiram em breves mensagens coletivas pelo celular que se encontrariam no quartel general, o lugar de sempre: o apartamento do único casal sem filhos do grupo. Um apartamento antigo numa parte tranqüila da cidade que fica numa ruazinha estreita no centro, tem uma sala ampla, um gato recém chegado a se esconder dos visitantes, e algumas garrafas de vinho levadas pelos convidados. Era um banquete e a verdade era também uma das convidadas.
O local foi decidido na última hora, e o horário também. Combinaram às cinco. Chegaram-se todos. Não pontualmente, mas isso é bastante comum nos encontros entre os amigos. Mesmo com alguns atrasos a noite correu bem, como era de se esperar. E por algum tempo as demandas de trabalho concentraram a temática da conversa, mas logo foram adiadas para a segunda-feira essas inconveniências.
O que seria um piquenique no final da manhã se transformou numa noite de banquete divino. E este era um bom momento para esquecer que o domingo já estava terminando e teriam de enfrentar a segunda-feira, agora com mais ânimo, ou quem sabe com uma ressaca – para lembrar-lhes de que, pelo menos, o dia anterior não foi em vão.
As comidinhas e os vinhos regavam esse encontro. O domingo não foi como o planejado, seguiu outro curso. Conversas e risadas desaceleravam a noite que passava e ninguém se dava conta. Ninguém se preocupava naquele momento.  Nenhum deles olhava para o relógio procurando uma desculpa para ir, não pensavam nas horas, na rotina, nas obrigações.
A chuva cessou, mas ainda não dava espaço para o luar. Os amigos chegaram-se aos poucos até a varanda. As folhas das plantas ainda pingavam, tinha cheiro de coisa nova e terra molhada. Sentaram-se na varanda. Ficaram ali a observar a rua e o asfalto ainda molhado, foram envolvidos por uma leve corrente de frio. O abraço suave do orvalho, as bochechas quentes, os lábios rosados, tudo isso os envolvia.
Não precisavam dizer tudo, dizer o quanto que se amavam, estavam ali somente, eram os melhores amigos brindando à vida e ao amor. Falavam sobre o tempo. As vozes baixas acompanhavam o ritmo da noite e das nuvens que dançavam sobre eles; o friozinho da noite os abraçava naquele instante revelando que as horas não foram sentidas naquele domingo. Não tinham pressa. Contemplavam o relento da noite procurando a beleza e a razão de todas as coisas. Estavam repletos.
Porém, a segunda-feira começa a dar sinais de chegada e mesmo a noite irresistível não consegue pará-la. Ei-la: é hora de irem todos, hora de voltarem para os maridos e filhos e, quem sabe, para as teses. As taças, os guardanapos, as garrafas, os talheres voltarão para seus lugares quando a luz do dia chegar, não agora.

*
João não dormiu ao chegar a casa, não se importava com o que deveria fazer quando o dia chegasse. As tarefas, o trabalho que sempre lhe chamava logo cedo, nada conduziu João para a cama. Ele queria ver o sol nascer. Poucas vezes fazia isso. Riu sozinho quando se deu conta da loucura que planejava. Largaria tudo, pelo menos hoje.
Foi arrebatado. João se lembrava da noite que passara com os amigos, de toda a vida que eles despertaram. Abraçou-se a um lençol, encostou a cabeça na janela e observava os carros e ônibus que abriam a avenida para mais um dia de outros. Quando viu que o sol se aproximava sentou-se no sofá para escrever.
João piscava os olhos, a noite o vencia.

*
O dia já desperta e com ele as obrigações, o café forte, o remédio para curar a dor de cabeça. E cada um, do seu lugar, no seu tempo, sai de casa outra vez. Desta vez para outro ritual, o burocrático e sem graça, anestésico. A segunda-feira passa, e os cinco enófilos se distanciam cada vez mais da noite anterior, consumidos pelas tarefas do dia, quando são lembrados por João, através de uma longa mensagem por email, do quanto a reunião na noite anterior foi bela e importante.
A embriaguez do domingo retorna.
João, o mais jovem a se juntar ao grupo, a peça que faltava. E que a partir de agora não voltaria mais. Foi a última mensagem de João. Mensagem pronta, proposital e que espantou a todos com palavras tão bonitas sobre o significado daquele encontro para ele. João se entregou. Mas não tinha importância só para ele, tinha para todos, e com aquela mensagem cada um, do seu lugar, percebeu isso. 
O telefone toca, não é João, ele não é mais, ele quis e decidiu assim.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Entre o Rio e o Mar


Tema: O prazer e a dor

Nunca tinha visto o mar e agora voava plainando em sua direção como uma gaivota solitária no seu céu azul.  Da janela do avião, podia sentir a brisa no rosto, o sol aquecendo seu corpo, o universo a acolhê-la, a dar-lhe boas-vindas como um feto no útero da mãe. Naquele exato segundo era feliz sabendo disso.

Ana aguardava a cidade inquieta e ansiosa.  Para o Rio de Janeiro - sua cidade dos sonhos - iam juntos ela, o marido de algumas horas, as malas da vida inteira até então e os sonhos de toda a vida por vir.

A garota havia morado no município de Capixaba no Acre desde sempre. A família que era do Espirito Santo mudara para lá no final da década de 70 e tinha uma pequena fazenda.  Com muito esforço, conseguira terminar o segundo grau e aos 19 anos seus sonhos para o futuro deveriam se concentrar em trabalhar na fazenda da família, conhecer um rapaz correto, casar-se e ter filhos. 

Acontece que a moça não era quem deveria ser e constantemente se sentia inadequada.  Nessa terra onde as linhas de expressão tão cedo marcavam peles muito morenas queimadas pelo sol, os rostos formavam labirintos a levar todos eles para um mesmo lugar.  Um lugar onde Ana não estava e nem nunca estaria. 

No verão onde completou 20 anos, e como em todos os verões, Ana viajou para Rio Branco onde ficaria por um mês na casa da tia.  E foi em uma das festas de forró para onde ia com frequência na companhia da prima, que conheceu Mauro.  Um carioca de 30 anos que estava morando há alguns meses na cidade.  Mauro, que era advogado, tinha passado para um concurso publico recentemente e havia sido transferido para o Acre. 

O homem apesar de não ser bonito, era gentil e simpático e poderia ter se divertido com sua vida de solteiro por muito mais tempo naquela cidade onde não desejava permanecer.  Mas quis o destino ou a sorte que ele se apaixonasse por Ana.  E Ana por ele.  Não tardou para que os dois começassem a namorar e entre idas e vindas para as duas cidades, construíram quatro anos de uma historia feliz.  Quando soube que finalmente havia conseguido a transferência para o Rio de Janeiro, Mauro fez o pedido.

Foi naquele cair de tarde com o sol alaranjado rasgando o céu que a moça viu o mar pela primeira vez. As pernas bambearam um pouco e seus joelhos teimaram em tombar.  Saudavam a imensidão do mar. E embora estivesse acostumada a imensidão de rio, as duas paisagens eram tão diferentes quanto a personalidade dela quando comparada a de sua familia. Foi naquele cair de tarde que Ana teve a certeza: olhar para o mar era olhar para dentro de si mesma. Pela primeira vez soube quem era.

A vida no Rio era a das possibilidades, do céu perfeito, dos homens e das moças esculturais, do gingado de uma cidade dançante, das delícias da Lapa noturna, dos prédios altos no centro.  Sentia-se uma estrela da novela esperando a qualquer momento que coisas maravilhosas acontecessem. 

Mauro com os meses foi se mostrando um marido exemplar.  Carinhoso, atencioso e apaixonado, exatamente como deveria ser.  Seus olhos eram sempre para Ana a quem admirava a cada dia mais, um amor que crescia à medida que via a menina meio “bicho do mato” virar uma mulher decidida, forte e linda diante de seus olhos.  

Ana dividia seu tempo entre os estudos na faculdade de direito que Mauro concordara em pagar e passeios deslumbrados pelo Rio.  A cidade exercia sobre ela uma paixão viva exatamente igual ao primeiro dia em que a tinha visto.  E enquanto o amor de Ana pela cidade, seus vícios e prazeres crescia, o amor que sentia por Mauro murchava, como se tudo não tivesse passado de uma grande ilusão.  Uma miopia de sentidos.

Era como se os moveis e utensílios de uma casa fossem sendo retirados pouco a pouco: primeiro os utensílios menores, insignificantes, depois os móveis menores, os maiores e um dia, quando finalmente estivesse realmente enxergando, a casa oca  revelaria a ela verdade.  Uma verdade dolorosa, traiçoeira, na qual não quis acreditar a princípio.  Sentia-se ingrata, confusa, sem rumo.  E por mais que tentasse estancar a fuga daquilo que fosse que ainda a mantinha feliz ao lado do marido, nada funcionava.  Ao fim daquele primeiro ano de casamento, viver com Mauro tinha se tornado insustentável.

No dia em que seu corpo parou de lhe obedecer, suas pernas a levaram para o mar.  E o mar que lhe revelou quem era, lhe mostrou dessa vez o caminho a seguir.  Ao cair na água foi atropelada por um surfista.

Ana não pôde resistir e se entregou a conversa dele, aos beijos, ao corpo dele enroscando no seu, abraçando o homem como quem abraçava a paisagem, voando naquele céu de Copacabana, virando ar, sol alaranjado.  Ela se fundia nele como quem ajoelhava na areia e chorava vendo o mar pela primeira vez. Ele era a vida derretendo na pele que ardia.

Quando a tarde caiu, tão linda quanto na primeira vez, Ana recuperou o controle de seu corpo.   Se viu exausta, plena, múltipla e real. Fechava ela um ciclo. Como um rio que desemboca no mar.

domingo, 21 de abril de 2013

Contrações e recordações

Se eu imaginasse que tudo se resumiria a tanta dor teria pensado bem antes de abrir as pernas. Vinho, ousadia, prazer, sexo, humor, piadinhas insolentes e provocações sensuais.  A noite foi boa, sem sombra de dúvida, mas o dia seguinte foi trêmulo e embriagado pelos flashes de memórias não tão memoráveis assim, certamente devido às três ou quatro, talvez cinco, garrafas de vinho barato nos quais tropecei ao tentar chegar ao banheiro para mais uma sessão de vômito. Ah, o vaso sanitário nunca antes foi tão convidativo e ombro amigo.

A vaga lembrança de uma boa trepada, noite ardente, sem muito papo, amor ou qualquer insinuação romântica, me fez lembrar que talvez tivesse fraturado a coluna ou o braço, sei lá talvez uma perna. Enfim, de repente os ferimentos tenham atingido apenas minha moral e os meus ‘ditos e repetidos’ bons costumes. Na verdade, mal conseguia interpretar o que houve além da própria necessidade de algo urgente, uma xícara de café.

Hummm, um café forte e reconfortante é sempre uma boa pedida. Cheiro inebriante que toma conta da casa e do meu corpo exausto, atordoado e humilhado. Não, não, não, não... Por mais que eu tente evitar, de repente me vêem à cabeça mais cenas da noite passada irrompendo minha serenidade latente. Lembro que acordei sem roupas e que as vi espalhadas pela casa. Uma trilha que começa pela porta de entrada da sala, segue pela cozinha e, a última peça, pelas minhas contas, uma calcinha vermelha rendada, humm, bom, sumiu.

Os dias se passaram e não vi mais aquele homem que me revirou a vida, talvez me virou pelo avesso, devassou meu corpo e me deixou querendo mais, ardente. Também não achei a peça que faltava no jogo, na trilha de roupas, a minha micro-calcinha que deve ter se escondido de tão minúscula e vergonhosa que era. Será que virou troféu e está exposto em alguma galeria do macho exibido e esnobe? Alguém deve estar contando vantagem por aí.

Os dias passaram, sendo uns mais leves outros mais pesados. Mas, de fato, nada se compara ao peso da minha barriga que, de tão grande, me fez parar na maternidade. E lá estava eu, entre contrações e recordações. Prazer (pelas lembranças da noite em que me vi outra mulher) e uma dor de rasgar a alma, desejar dormir profundamente e acordar inteira outra vez.

O momento em que a Mel veio à luz, em um choro sofrido e saudoso do meu calor, me fez lembrar o sorriso safadinho do pai dela ao entrar na sala de parto. Todo de branco, nervoso, mas sem disfarçar um riso sacana na cara, a própria imagem da vitória. Notando sua aparente satisfação, percebi um pontinho vermelho que saltava do jaleco. Na altura do campeonato percebi para quem foi o troféu daquela partida.
Mel nasceu saudável, perfeita, com mais de 3 quilos e cheia de fome; um milagre. Mal sabe ela que já nem tínhamos esperança de receber essa benção. Mais de dez anos de casamento e a ausência de filhos fez de nós bons amigos, quase irmãos. A libido em baixa fez fogo cessar.

Mas aquela calcinha vermelha, símbolo da experiência apimentada que me deu uma filha, agora é o nosso troféu. Meu jeito certinho e puritano de levar a vida e o casamento, quem diria, foi massacrado por uma minúscula lingerie que me apontou o caminho da felicidade e, por que não dizer, da promiscuidade e descobertas. Fico arrepiada só de pensar no que havia deixado de conhecer até agora.

A Mel vai bem. A calcinha também. Aliás, ela é o convite quando queremos abrir as portas do desejo para lugares além-fronteiras, onde podemos viver histórias que são apenas nossas, frutos da imaginação. O lugar onde eu posso ser eu ou qualquer outra. Depende do convite, e se ele for minúsculo, vermelho e sem qualquer pudor, melhor ainda.   

  
Regina Rozin
(O prazer e a dor)

sábado, 20 de abril de 2013

A Tanatopraxia



Este conto foi escrito para o conto do Drummond, para que serve o homem, para estrumar flores, tecer contos. Como não deu tempo de ser lido em sala, publico aqui.

A tanatopraxia

O tanatório estava vazio, com exceção do tanatopraxista e o defunto. “Mas para que serve o homem?”, pensava, enquanto aquele corpo já em estado de putrefação ia sendo embalsamado, com a técnica chamada de tanatopraxia. A palavra vem do grego “Tanatos”, significando o Deus da morte, e de “práxis”, ou prática. Assim, nada mais é do que o que se faz habitualmente perante a morte, como pensar para que serve toda uma vida. Seria algo rápido, pois o que estava sendo feito ali era somente uma prática comum de preparar o corpo que ia ser velado e enterrado logo mais. Nada demais. Não iria haver remoção de órgãos ou um processo maior de mumificação, como se faz com os ditadores que pretendem ser eternos. Não, aquele corpo era a representação material de um ser que tinha bem menores pretensões de imortalidade, baseadas em sua maioria na crença do Paraíso pós-morte ou nas promessas da ciência da eternidade terrena.  
Enquanto do corpo era retirado todo o sangue, por meio de uma bomba barulhenta de sucção, o pensamento continuava: “a gente nasce, logo nos colocam os limites para nossos desejos. Construímos sonhos, fazemos planos, criamos teses nos botequins acerca da vida, adquirimos patrimônio, lutamos por um posto de trabalho, batalhamos por uma ascensão na carreira, escrevemos livros, para terminarmos assim, como estes restos que jazem aqui, que agorinha serão colocados em uma sepultura fria e úmida?”
O ruído da máquina atrapalhava um pouco os pensamentos. “Conhecer uma garota, se apaixonar, esforçar-se para que dê certo, ouvir as lamúrias, chorar nos descompassos, rir dos percalços, sorrir nas pequenas felicidades que o dia-a-dia vai apresentando e terminar separados pela morte?” O corpo então recebe injeção do líquido que vai mantê-lo pelas horas do velório até a tumba.
“Mas, afinal, para que fazemos tudo isso?” Agora a maquiagem vai sendo feita, o corpo recebe um pouco da cor que um dia teve. “Fazer filhos e os ver crescer; passar noites em claro de preocupação, seja quando são crianças e ficam doentes, seja quando saem à noite para a diversão, quando jovens; vê-los alçar voo para a vida própria...”
A melhor roupa era colocada no corpo enrijecido e gelado enquanto pensava, calmamente: “envelhece-se, alguns amigos se vão antes, os prazeres se modificam, o tempo passa mais lento e mais rápido ao mesmo tempo.”
Com o defunto já vestido, as flores foram cuidadosamente colocadas, adornando-o, até o último buraco no caixão ser preenchido. “É, acho que o homem serve só para isso tudo mesmo. Bem, é melhor eu parar com essas besteiras que acho que o cara aí já acabou de me preparar e logo vão me levar para a sala de velório. Deixa eu me concentrar que logo estarão chorando em cima do meu corpo, talvez a última homenagem que eu vou receber. Espero só que reconheçam o quanto eu me esforcei para ter sido um homem que servisse.”