Visões,
alucinações, cores e movimentos. Nada passa batido pelo astuto inconsciente de
Alice. Sua arte, vinda da inquietude da alma, reproduz a vida e a morte de desconhecidos.
Pessoas que passam a fazer parte de suas intermináveis madrugadas que acabam
sempre em manhãs sonolentas e dias arrastados.
Foi
em uma destas madrugadas em claro que Alice deu vida à sua primeira arte: o
cruel assassinato de Ana Muniz, amante do excêntrico Luiz Felizberto, um empresário
do setor hoteleiro do Rio de Janeiro. A
atriz pornô foi morta, amarrada à própria cama e algemada pelas pernas e
braços. Nua, sua fisionomia apavorada dá o tom de terror à tela pintada. Até
parece ter nascido pelas mãos do próprio assassino. Ao redor, policiais e suas
fisionomias perplexas buscam vestígios para iniciar a investigação.
Outra
tela retrata o caos de uma cidade devastada por um ciclone. Casas reviradas,
destroços pelas ruas, pessoas arrancadas de suas famílias. Uma trilha de
sofrimento com um céu acinzentado de arrepiar a alma. O cheiro da fumaça vinda
da fuligem e da carne queimada ao acaso entope os pulmões. Não dá pra respirar.
Alguns instantes e é possível sentir espinha acima o clamor, o pedido
desesperado por ajuda e as despedidas silenciadas pelo horror da tragédia.
Pilhas de corpos. O grande vento silenciou tudo em volta.
São
muitas as telas espalhadas pelo ateliê de Alice. Estão prontas para serem servidas
a um público seleto, os abutres, apreciadores de uma arte que revela a miséria
e a tragédia humana. A exposição é um sucesso pelo tom de realismo que a
artista projeta a cada peça.
As
telas de Alice, resultado de uma inspiração vinda de noites em claro, são
despertadores que clamam por revelações. Uma força que a tira da cama e a joga
entre telas vazias, cores e pincéis. Ela pinta compulsivamente, como se
atendesse a um chamado e, ali mesmo, aos pés de sua obra, desmaia em sono
profundo quando um novo dia começa a despertá-la. Uma soneca apenas, o
suficiente para esvaziar a mente e fazê-la estremecer com o que vê.
Alice seria apenas mais uma artista se não
fosse por uma razão: sua insônia, que lhe rouba as noites e o sossego, reproduz
notícias de grande repercussão. As cenas seriam facilmente retratadas por uma
artista de talento como ela. Entretanto, sua arte premonitória, ao ganhar fama
e os corredores das redações, entra na mira da polícia. Alice seria apenas
alguém que perde o sono na madrugada e pinta para fazê-lo voltar? Era isso o
que ela imaginava até um dia, inexplicavelmente, despertar de uma soneca com as
mãos ensanguentadas.
Regina
Rozin
(Insônia:
quando as histórias se fazem e desfazem)
Caramba, Regina, muito legal. O final é excelente.
ResponderExcluirQue bom que gostou! :)
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