sábado, 8 de junho de 2013

O ateliê de Alice

Visões, alucinações, cores e movimentos. Nada passa batido pelo astuto inconsciente de Alice. Sua arte, vinda da inquietude da alma, reproduz a vida e a morte de desconhecidos. Pessoas que passam a fazer parte de suas intermináveis madrugadas que acabam sempre em manhãs sonolentas e dias arrastados.

Foi em uma destas madrugadas em claro que Alice deu vida à sua primeira arte: o cruel assassinato de Ana Muniz, amante do excêntrico Luiz Felizberto, um empresário do setor hoteleiro do Rio de Janeiro.  A atriz pornô foi morta, amarrada à própria cama e algemada pelas pernas e braços. Nua, sua fisionomia apavorada dá o tom de terror à tela pintada. Até parece ter nascido pelas mãos do próprio assassino. Ao redor, policiais e suas fisionomias perplexas buscam vestígios para iniciar a investigação.

Outra tela retrata o caos de uma cidade devastada por um ciclone. Casas reviradas, destroços pelas ruas, pessoas arrancadas de suas famílias. Uma trilha de sofrimento com um céu acinzentado de arrepiar a alma. O cheiro da fumaça vinda da fuligem e da carne queimada ao acaso entope os pulmões. Não dá pra respirar. Alguns instantes e é possível sentir espinha acima o clamor, o pedido desesperado por ajuda e as despedidas silenciadas pelo horror da tragédia. Pilhas de corpos. O grande vento silenciou tudo em volta.

São muitas as telas espalhadas pelo ateliê de Alice. Estão prontas para serem servidas a um público seleto, os abutres, apreciadores de uma arte que revela a miséria e a tragédia humana. A exposição é um sucesso pelo tom de realismo que a artista projeta a cada peça. 

As telas de Alice, resultado de uma inspiração vinda de noites em claro, são despertadores que clamam por revelações. Uma força que a tira da cama e a joga entre telas vazias, cores e pincéis. Ela pinta compulsivamente, como se atendesse a um chamado e, ali mesmo, aos pés de sua obra, desmaia em sono profundo quando um novo dia começa a despertá-la. Uma soneca apenas, o suficiente para esvaziar a mente e fazê-la estremecer com o que vê.    

Alice seria apenas mais uma artista se não fosse por uma razão: sua insônia, que lhe rouba as noites e o sossego, reproduz notícias de grande repercussão. As cenas seriam facilmente retratadas por uma artista de talento como ela. Entretanto, sua arte premonitória, ao ganhar fama e os corredores das redações, entra na mira da polícia. Alice seria apenas alguém que perde o sono na madrugada e pinta para fazê-lo voltar? Era isso o que ela imaginava até um dia, inexplicavelmente, despertar de uma soneca com as mãos ensanguentadas.


Regina Rozin
(Insônia: quando as histórias se fazem e desfazem)

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