sábado, 22 de junho de 2013

Deus e o diabo (e outros fantasmas) na cabeça de Dona Sara



(a partir de “a volta”)
Flávio Limoncic

"A senhora estava sendo esperada”. Com tais palavras, Dona Eudete, do 302, venerada por alguns vizinhos, odiada por outros e temida por todos, abre a porta para Dona Sara, do 706, que sente um calafrio. Como assim, estava sendo esperada? Pouco importa. O que importa é que Dona Eudete representa sua última e desesperada tentativa de solucionar o problema que há meses mina suas forças, condena-a a noites em claro, erode sua vontade de viver e que atende pelo nome de Jaiminho. 

Sessentão, agarrado à barra da saia da mãe, horas e horas trancado no banheiro, Jaiminho foi presa fácil da armadilha de Kelly Chrystiny, a faxineira da cor do Brasil, corpinho-violão, vinte  anos de pura travessura. Pudera. A bisca seguiu à risca o manual: shortinhos apertados, posições provocantes na hora de limpar o espaço entre os tacos - Dona Sara jamais admitiu nada menos do que assepsia absoluta -, banhos intermináveis de porta entreaberta... Jaiminho caiu de quatro. Vivem um romance tórrido. 

Dona Sara nunca esteve à toa na vida. Se dependesse de Jonas, que viveu e morreu no mundo da lua, ainda estariam no Engenho Novo, em casa de vila, convivendo com pequenos funcionários, mascates, estoquistas, ele soltando pipa e organizando concursos infantis de cuspe a distância, ela pegando o trem para trabalhar na Zona Sul. Graças à sua organização e foco, aos seus peitos eternamente esparramados sobre o balcão, compraram o sala-e-dois-quartos da Viveiros de Castro e o imóvel da papelaria, na Siqueira Campos. Na pele de Fiscal do Sarney, aterrorizou os feirantes da Belfort Roxo. Como síndica, atormentou dia e noite, ano após ano, porteiros e zeladores. Mãe, sempre protegeu, e continuaria a proteger, seu Jaiminho - e seu patrimônio - daquela ou de qualquer pistoleira.  

E havia também um outro lado da questão: o que Hitler não tinha conseguido fazer, o Brasil estava conseguindo, com seus costumes frouxos, sua malemolência e essa coisa de sambinha em caixa de fósforos: acabar com os judeus. Devia isso à memória dos seis milhões: não seria avó de não-circuncidados. Além disso, não que fosse racista - sempre dissera que os judeus não podem ser preconceituosos, pois, através dos milênios, foram vítimas do anti-semitismo, sem falar na existência de judeus negros, como aqueles lá da Abissínia -, mas daí a ter netos cor de azeitona...  

No início dos fatos, apesar da sensível piora em sua enxaqueca, teve discernimento suficiente para perceber ser pouco prudente demitir sumariamente Kelly Chrystiny ou, mesmo, mostrar a Jaiminho o ridículo que era um rapaz da idade dele ter caído na conversa de uma moça da idade dela. Ao contrário, selecionou, do seu inesgotável arsenal, a arma mais do que testada e aprovada para o front familiar. O resultado, no entanto, foi decepcionante: à ameaça de suicídio, Jaiminho respondeu com um olhar em direção à janela; à ameaça de deixar tudo para uma sobrinha de Porto Alegre, Jaiminho respondeu assobiando "Ave Maria no morro". 

Pela segunda vez na vida, Dona Sara ouviu a banda tocar fora do seu ritmo. A primeira foi quando casou com Jonas, um casamento sem amor, uma imposição do velho Abrahão. Para compensar, dedicou-se, com consistência quase maníaca, a descontar no marido a sujeição ao pai. Como fez a inúmeros porteiros e zeladores, atormentou-o dia e noite, ano após ano, até que ele se deixou consumir. Sua morte não a jogou no luto. A ameaça de perder Jaiminho, sim. Suas amigas desde sempre, Dona Berta, Dona Raquel e Dona Rosa, preocupadas, aconselharam-na a conversar com um dos muitos rabinos cariocas, alguns deles bem jovens, rapazes ótimos, que certamente teriam dicas, sugestões e conselhos práticos e criativos, embora estritamente baseados na tradição judaica, para o seu drama. Ainda que não pisasse num templo desde o bar-mitzvah de Jaiminho, Dona Rosa decidiu procurá-los. Mal não faria. 

O rabino liberal, meia-idade, sotaque castelhano e rabo-de-cavalo, sugeriu-lhe substituir o luto pela vida, fez um discurso sobre a importância das conversões para a continuidade do Povo de Israel e se ofereceu para oficiar o casamento. Dona Sara sequer se despediu. O rabino ortodoxo, regulando idade com ela, chapéu de feltro e sotaque idiche, afirmou desconhecer o sentimento do luto, apenas suas regras, aplicadas com exclusividade em casos de morte física. Sugeriu a demissão sumária da moça, acrescentando duvidar que Jaiminho saísse do bem-bom de Copa para ir morar numa comunidade qualquer, esquecida por D's e pela prefeitura. Dona Sara preferiu não correr o risco. O rabino Lubavitch, mal saído das fraldas, sotaque inglês e barba no umbigo, disse que o caso, longe de ser de luto, era de regozijo. Kelly Chrystiny era a isca lançada por D’s para pescar Dona Sara para a religião. Simples assim: Dona Rosa reencontrando-se com o Eterno na sinagoga, Kelly Chrystiny perdendo-se de Jaiminho no mundo. Encantada pela oratória do rabino, Dona Sara se deixou fisgar. E, como não fosse mulher de meias medidas, até peruca passou a usar. Jaiminho e Kelly Chrystiny, no entanto, continuavam mais atracados do que nunca. Se os judeus esperavam o Messias há milênios, protestou o rabino Lubavitch, por que tanta pressa? 

Numa tarde em que esfregava furiosamente uma travessa para livrá-la de qualquer resquício de leite - não só porque sua pequena cozinha não comportava dois jogos de utensílios, mas também porque louças mal-lavadas eram garantia de infecções e úlceras -, Dona Sara ouviu gritinhos de alegria vindos da sala. Aguçou o ouvido. Jaiminho pedia Kelly Chystiny em casamento. Começou a esfregar a travessa com mais determinação e vigor, de modo a que D's notasse seu temor e entrega e a livrasse daquele pesadelo. Mas quando foi chamada para ser comunicada da novidade, Kelly Chystiny já usava o anel de noivado na mão direita. Da sala, pressão 37 por 28, Dona Sara foi direto para Dona Eudete. O policial bonzinho e o policial malvado, uma vela para D’s, outra para o Diabo. Ao menos Jonas estava morto. Vivo, certamente apoiaria o descaramento.

Toda a mobília de Dona Eudete, das cortinas aos bibelôs, parece impregnada de magia negra, de matança de bode e charuto barato. Percebendo a hesitação de Dona Sara, Dona Eudete tenta tranquilizá-la: “O que a sinagoga não resolve, Maria Padilha dá um jeito”. Dona Eudete afasta os    gatos e ambas se sentam, Dona Eudete, imensa, bem distribuída no sofá, Dona Sara, bem distribuída, confinada na pontinha da almofada, alternando discretamente as bandas das nádegas, as mãos sobre os joelhos. Não quer contato, por mínimo que seja, com um fiapo sequer de pelo, sua asma a mataria, para não falar no perigo das micoses e viroses, principalmente da mononucleose, dos microorganismos em suspensão, fungos, bacilos e lactobacilos vivos, protozoários, bactérias e ácaros, sempre em busca de mucosas, pequenas feridas, cortes, ranhuras, para que possam entrar no seu organismo e começar o lento e paciente trabalho de demolição de tecidos sadios e órgãos vitais, arruinando linfócitos, desvirtuando eosinófilos, infeccionando glândulas, alterando equilíbrios hormonais, tudo com o intuito de cumprir a função para a qual foram desde o início programados, todos eles, sem exceção, qual seja, a produção, reprodução e difusão massiva de tumores metastáticos por seu tronco, cabeça e membros. Por isso, sente-se mais alarmada com os móveis empoeirados, as guimbas de cigarro nos cinzeiros, o cheiro de quinquilharia mofando em armários e gavetas, a evidente falta de zelo e cuidados básicos e gerais, do que propriamente assustada com o esoterismo primitivo do lugar. Dona Eudete, indiferente à linguagem corporal da vizinha, afirma que é preciso fazer um trabalho. Uma matança. Para matar Kelly Chystiny no coração de Jaiminho, Dona Sara deve matar uma galinha com as próprias mãos, numa sexta-feira à meia-noite. 

Dona Sara sabe matar galinha. O problema é que nem o lendário Bugsy Siegal, seu primo distante, segundo a lenda familiar, matava no shabat. A janela teológica para a quebra do descanso, avidamente buscada em uma noite inteira de pesquisa em antigos livros do pai, é finalmente encontrada: salvar uma vida justifica ações de outro modo interditadas. E é assim que Dona Sara encara sua empreitada: a salvação não de uma, mas de duas vidas (a sua própria e a de Jaiminho).  

Sexta-feira, onze e meia. Lenço sobre a peruca, óculos escuros, capa de chuva com aba levantada, eczemas latejando, Dona Sara é uma sombra a deslizar sob as marquises. Numa das mãos, um embrulho com alguidar, copo, velas, farofa e cachaça. Na outra, dentro de um saco preto, a galinha, bico grudado com durex, pés atados com barbante. Busca uma encruzilhada escura e deserta, nem tão próxima de casa em que corra o risco de ser vista pelos vizinhos, nem tão longe que tenha que pegar ônibus. Onze e quarenta e cinco, descarta as esquinas formadas pelas transversais da Barata Ribeiro, onze e cinquenta, e Nossa Senhora de Copacabana, onze e cinquenta e cinco, até chegar, esbaforida, onze e cinquenta e nove, ao cruzamento ideal: Leopoldo Miguez com Barão de Ipanema. 

Mesmo estando na última volta do ponteiro, é preciso método. Deposita o conteúdo da sacola no chão da esquerda para a direita, na ordem em que cada elemento será utilizado: alguidar, farofa, cachaça e copo, velas e fósforos. A seguir, enfia a mão no saco. A galinha, puro instinto, debate-se, furiosa. Mantendo-a amarrada e amordaçada, Dona Sara a executa com um só golpe. Ajeita o corpo morto no alguidar, acrescenta a farofa, despeja um pouco de cachaça no copo e se agacha para acender as velas. É quando a luz de um farol incide diretamente sobre ela. O motorista abre a janela, grita “saravá, Dona Sara!” e arranca cantando os pneus. Dona Sara, que não reconhece o sujeito ou sua voz, sente vontade de evaporar, mas lembra de Jaiminho enroscado na sirigaita. Bebe do gargalo três dedos de cachaça para tomar coragem, acende as velas, toma mais um gole, dessa vez do copo, o cheiro de pólvora do fósforo se mistura ao do sangue, ambos penetram suas narinas e quando chegam ao cérebro encontram o álcool, a encruzilhada gira, dá uma gargalhada jogando o corpo para trás, estará recebendo uma pomba-gira?, precisa puxar um ponto, entoa Adon Olam. De imediato a confusão mental se dissipa. Desesperada por invocar Deus numa cerimônia dedicada ao Diabo, começa a tremer. Então, vem-lhe à mente a metáfora da pesca, do rabino Lubavitch: Adon Olam foi um anzol que Deus lançou para içá-la do abismo. Substituindo o tremor pela fúria, destrói o alguidar como se fossem ela Josué, ele a muralha de Jericó (Josué, Versículos 5:13-6:27), espalha a oferenda pelo chão e pisa sobre ela até quebrar tudo, inclusive os ossos da galinha. Em seguida, parte em disparada, sem olhar para trás. Quando vai chegando ao prédio, sangue, penas e farofa cobrindo-lhe os sapatos e a barra da capa, peruca empapada, respiração ofegante, a herpes zoster pronta a explodir, seus olhos são atraídos para a janela do terceiro andar. Evita, a todo custo, levantar a cabeça, cola o queixo no peito, ensaia andar os metros finais de costas, mas em vão. Rende-se. Contra o fundo de uma luz vermelha, a silhueta de Dona Eudete balança vagarosamente a cabeça, em sinal de reprovação.  

Vingança de Seu Tranca-Ruas pela ofensa no despacho: no dia seguinte, Jaiminho e Kelly Chystiny, felizes da vida, anunciam mudança para o depósito da papelaria. Ou seria vingança de Jonas, que veio sabe-se lá de que cafundós do além, para tirar a forra, através do filho, pelas ofensas sofridas durante toda a vida? Não, nesse caso, a ofendida era claramente ela, obrigada a conviver com suas carnes brancas e abundantes, quando suas próprias carnes clamavam por Jairo, da cor do Brasil como Kelly Chrystiny, goy e sem ter onde cair morto, o conjunto da obra desqualificando-o para casamento e procriação, mas não para o desejo, quando ainda o tinha, ou para as saudades, sempre presentes. Definitivamente, vigança de Seu Tranca-Ruas. Em três semanas, porém, não cabe dúvida, troco de Deus: Jaiminho está de volta. Dona Sara, exultante, cerca o filho de cuidados: prepara um lanche, pão com manteiga, Nescau e geléia de mocotó, você estão tão abatido, vá já lavar as mãos, tempera a água do chuveiro, está quentinha, como você gosta, separa uma roupa limpa, o conjuntinho de short e camiseta que compramos na Hering, que sabe saimos mais tarde para comprar um sapatinho-tênis? Jaiminho não come, não toma banho, não troca de roupa, seus olhos não brilham à menção do tênis. Dona Sara senta ao seu lado, suspira fundo, tosse, o diafrágma já não é mais o mesmo, pega na sua mão e lhe diz para contar tudo. Ela vai dar um jeito. Sempre dá.  

Hesitante a princípio, Jaiminho afinal se abre. No início, tudo foram flores, até que um dia Kelly Chystiny ficou irritadiça e distante. Apavorado com a perspectiva de perdê-la, prometeu passar os bens da família para o nome dela tão logo Dona Sara morresse, assim como despachar a mãe para o asilo, para que pudessem viver na Viveiros de Castro. Para que? Kelly Chystiny começou a chorar. Disse que ele era o amor dela, o amor, entende?, e que se lixava para os bens. Depois, acrescentando rancor à desilusão, disse que ele poderia pegar os tais dos bens, assim como os transferidores, borrachas, compassos, lapiseiras, apontadores, resmas A4, o estoque inteiro da papelaria, réguas incluídas, mais a Viveiros de Castro toda, com seus edifícios, árvores, lojas e carros, fazer um embrulho com papel de presente, tem sim, na prateleira de baixo, à esquerda, e enfiá-lo ele sabia muito bem em que buraco, sem esquecer depois de usar a mãe como tampa, para ficar tudo bem guardadinho e seguro. Fez as malas e foi embora.

Jaiminho se cala, olhos fixos na mãe, a implorar ajuda. Dona Sara sente-se incapaz de explicar ao filho, um homem de 63 anos, que mulheres têm seus dias. Sente-se, em verdade, incapaz de qualquer coisa. Vai para a área de serviço. Ignora as roupas lavadas na máquina e o lixo que precisa ser removido. Senta-se no banquinho. Não pensa em Deus ou no Diabo, no Engenho Novo ou em Copacabana, nem na esclerose lateral amiotrófica, sobre a qual lera qualquer coisa em algum lugar e que, cedo ou tarde, acabará por matá-la, muito menos em Jonas. Sequer em Jairo, que nos últimos tempos não lhe sai da cabeça, pensa. Pensa em Kelly Chrystiny, uma coisica de nada que entrou na sua vida pela porta dos fundos, balde e vassoura nas mãos, e saiu deixando-a com fama de macumbeira, o filho praticamente inutilizado e uma perplexidade sem fim.   

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A volta

“Depois de te perder,                                                                                   
Te encontro, com certeza,                                                                                    
Talvez num tempo da delicadeza,                                                                  
Onde não diremos nada;                                                                                         
Nada aconteceu.                                                                                               
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu”
 TODO O SENTIMENTO – Chico Buarque

“É na soma do seu olhar
 Que eu vou me conhecer inteiro
 Se eu nasci para enfrentar o mar
Ou faroleiro”
 TANTO AMAR – Chico Buarque 

Eram três. Os dois mais a roda.  A roda gigante girava imponente em seu eixo.   Sabia seu rumo, seu destino. Os outros dois, não.  João e Sônia entraram na cabine.  A partir daquele momento, não tinham mais passado comum.  O presente e o futuro seriam desenhados juntos e durariam o tempo da volta da roda.

João saboreou o silêncio tão bem vindo depois de tanto tempo. Sônia pulou na paisagem.  João tragou o silêncio, e o misturou no fundo de si, deixou-o ali, ludibriado, como se ele silêncio nunca tivesse deixado de fazer parte dele João.  Sônia voava naquele céu azul, era pássaro, era nuvem, era sol. Sônia era paisagem.

Sônia-paisagem de longe observava João, um feixe de luz que aumentava cada vez mais de tamanho e intensidade, até cobrir todo o espaço ao seu redor.  Exatamente como João sempre fazia.  João-silêncio olhava para dentro da Sônia habitante de sua memória, sua Sônia, de quem amava as sardas e vendavais.  Sônia se aproximou da roda num voo rasante e pegou pedaço desse tecido para plantar João em si.  João puxou Sônia-vento para dançar.

Enquanto a roda subia mais e mais, Sônia-paisagem voava fértil e João-silêncio via o amor que teciam povoar o espaço já todo tomado pelo silêncio.  Dentro dela, crescia um farol. Dentro dele, amor e silêncio dançavam. 

A roda já ia quase atingindo o topo quando Sônia-paisagem virou Sônia, e João-silêncio era João.  Olharam-se e souberam-se encantados, hipnotizados pela beleza do redondo, dentro do redondo, do redondo, do redondo. E agora estavam no topo da roda, no topo céu, do mundo, do universo, circulares.  Tão pequenos e tão únicos naquele segundo perfeito.  Aquele era o momento de tudo convergir para que tudo desse certo.  E movidos por uma certeza-fábula, fizeram o que acreditavam que deveriam e aguardaram.

O sol e a roda agora lentamente começavam a cair.   Uma névoa aos poucos descia do céu e inexorável perfurava Sônia e João em seus caminhos. Arriscaram um beijo antes que fosse tarde demais, e embora até tenham tentado permanecer Sônia e João pelo tempo em que o beijo durou, não conseguiram. E de volta a paisagem, agora já escura e fragmentada, a moça não era mais capaz de ver João.  João e seu silêncio haviam perdido Sônia no labirinto de si.

A gravidade puxava a roda que por sua vez puxava as lágrimas sincronizadas que não paravam de correr nos olhos que se viam sem se ver.  As palavras não eram permitidas depois de tanto estrago, e nem seriam perfeitas o suficiente para comunicar e participar daquela conversa de ombros.  Ombros que naturalmente convidaram braços e peitos para um abraço.  Ao casal, só restava ir embora da roda que já tinha parado há algum tempo de girar aguardando que os dois saíssem e dessem lugar a novos outros casais a se aventurarem em seu giro.  E então, saíram João e Sônia de mãos dadas, sem nada mais a fazer a não ser partirem, cada par de mãos para seu lado.  

João e Sônia.
João, Sônia.
João. Sônia.
João.
Sônia.
Vento e Farol.
Vento-Farol
VentoFarol

Regeriam silêncios e tempestades para sempre.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Perecível

Acordo assustado me sentindo estranho. Percebo em desespero que meu corpo mudou de estado. Sou líquido. Ameaço escorrer, penetrar na cama e quase me desperdiço, mas por algum milagre consigo me conter entre as dobras do lençol e sua a trama, menos espessa que eu mesmo agora. Preciso de ajuda. Minha esposa Marta dorme como sempre, sólida em seu sono pesado. Penso em acordá-la, em pedir-lhe que me coloque em um saco plástico, em um pote, balde, qualquer coisa, mas me faltam braços, ou qualquer membro para tocá-la.

Minha gata Shakira então resolve pular na cama e dá um longo gole no meu corpo sem que eu consiga fazer qualquer coisa. O que resta de mim lembra-se da voz, da voz que talvez exista ainda mesmo neste estado. E grito. Acordo com Marta me consolando “Foi só um pesadelo, calma, calma” mas sua voz vem de lugar nenhum. Marta não esta ali. Agora pelo menos estou em estado sólido e corro pela casa procurando pela voz que eu acabei de ouvir. A voz ainda ecoa na casa, mas eu não a encontro. Marta sumiu e Shakira também.

Percebo que não tenho braços, lembro-me do gole da gata e desço as escadas correndo esbaforido. Quase esbarro no porteiro e pergunto somente por Marta.

“Seu Mário, o senhor é solteiro...” - responde espantado.

“Não entendo... E onde estão meus braços, o senhor os viu?”.

O homem responde que acha que sim: “Veja se não são braços nesse pacote que foi entregue ontem de manhã. Provavelmente alguma compra que o senhor fez pela internet”.

Peço ajuda para o porteiro, que encaixa rapidamente os novos braços. E me diz: “Vou precisar amputar suas pernas, tudo bem? Estou precisando delas”.

“Não, não. O senhor não pode fazer isso.... Eu preciso muito mais delas que você. Cadê as suas por sinal?”
“Dá as pernas para o homem” responde Marta com um serrote já iniciando o procedimento de retirada da primeira.

“Não! Não! Para, para, devolve minha perna... Me deixa em paz!”. Começo a espancá-la até minha raiva passar.

Logo lembro que Marta não existe e o porteiro me diz:

“ Ei! Fui eu que disse isso! Eu mudei de voz, de cara, de corpo, só pela delicia de te ver louco. Você ta acordado?”

Marta me sacode: “Querido você estava falando sozinho. O que aconteceu?”.

“Foi só um sonho, respondo”.

“Amor, cadê suas pernas?” - Marta grita.

“Eu não sei! Cadê minhas pernas?” E começo a chorar compulsivamente em completo desespero. “Eu achei que era um sonho...”

“Calma, não é para tanto também. Vou pegar aquelas antigas da Tia Rose mesmo. Ela não ta usando, mas depois vamos naquela loja de promoções comprar uma nova, ta bom? Amanha de manha, que tal? Acho que talvez seja bem o tempo de mudar mesmo para uma versão mais atualizada.”

Concordo com tudo aquilo com a cabeça somente, enquanto ela encaixa em mim as pernas da Tia Rose que são bem mais roliças que as minhas. Fica um pouco estranho, mas eu acabo achando melhor do que não ter qualquer perna.

Sem conseguir dormir o resto da noite, resolvo vagar pela cidade. Na frente do meu prédio sou atacado por lobos. Eles deixam meu corpo intacto mas dilaceram e estraçalham minha cabeça. Com ajuda dos vizinhos consigo matar todos. Encaixo em mim a cabeça de um dos lobos.

Ao andar pelas ruas na madrugada, vejo as mesmas figuras de sempre. Mendigos, prostitutas, a juventude voltando da noitada e observo em seus olhos que eu não sou mais eu. Ou ainda sou? Na verdade, ninguém parece se importar muito com isso. As pessoas continuam em seu ritmo, cuidado de sua vida. Estranhamente, uma versão camuflada de mim que é incapaz de chocar aos outros com minha aparência bizarra me soa inútil. Me sinto frágil, desamparado, perecível.

Sinto um vazio e uma fome incontrolável toma conta de mim. Ando até uma padaria sendo construída naquela noite e ainda inacabada. O padeiro, um homem estranho, de cabelos levemente alaranjados e roupa branca me diz:
“O sonho acabou.”

“O doce? Ou o sonho, de sonhar?

“O outro. O doce ainda tem. Vai querer quantos?”

“Dois”. – Respondo. “E o outro sonho, ta em falta? A humanidade vai parar de sonhar? Como vamos ficar?”

“Ninguém vai ficar sem sonhar. Por HOJE, o SEU sonho acabou.”
Acordo. São oito e meia da manhã! Não tive insônia afinal e estou super atrasado! Dou-me conta de que o despertador do celular não tocou de novo. O espelho me mostra que sou o mesmo de sempre. “Talvez alguns anos mais velho. Várias rugas, pernas que doem...”. O espelho me mostra que não sou o mesmo.

terça-feira, 11 de junho de 2013



(tema: “A VOLTA”)

Rio de Janeiro, 06 e 11 de junho de 2013
[a decisão]                                                              Robson Aguiar



Horas de estrada e até agora não tenho muito certa a ideia que me fez decidir voltar. Remoo pensamentos desconexos e não chego a conclusão alguma. Ainda não sei se torço pro tempo correr, ou refugar. Chove. Choverá dias afora.

Foram semanas difíceis até conseguir as férias de urgência. Compromissos no trabalho, empregada extra pra cuidar da casa, hospedagem pras cachorras, compras de mercado e cuidados com as crianças que crio só, após a viuvez. Dinheiro, despesas, providências. Remoto controle.  Quanto maior o salário, maior o gasto. Trabalho muito, durmo nada e estou sempre atrasado.

Até tento especular, mas não consigo imaginar o que encontrarei. Há anos não revejo aqueles rostos. De muitos, não lembro a voz. Devem estar envelhecidos, como estou. Onde poderei dormir? Tivesse um hotel na região... Alberto talvez me receba na casa paroquial. Ao menos na primeira noite.

Primeira parada. O atendente de cavanhaque ralo serve o café. Observo a borra no fundo do copo nadyr e tento imaginar há quanto tempo teria sido coado. O relógio na parede se impõe, opressor. Aperto os olhos e tento decifrar o horário, mas logo percebo que não há ponteiros. Não interessa mesmo saber as horas em um lugar tão esquecido.

Volto para o ônibus. São 36 horas de viagem, e ainda resta metade. Meu pânico de voar há muito me causa contratempos. Tomo um relaxante muscular e espero que o sono venha. Meu companheiro de banco folheia “Quem mexeu no meu queijo?”. Todos leem os mesmos livros. Não espanta que pensem igual.

Tinha planos de voltar a Santana, evoluído e endinheirado. Não imaginava que fosse me acostumar à hostilidade paulistana. Graduação, especialização, mestrado, casamento, filhos, apartamento, trabalho, aulas, consultoria, prostitutas de luxo e whiskerias de fachada.  O cenário mudara nos últimos 15 anos. Não fosse por aquela decisão repentina, talvez não mais voltasse. Embora não consiga determinar, um impulso poderoso me pusera a caminho.

O ônibus segue velocidade constante. O programa de rádio alterna canções românticas e cartas de ouvintes, a maior parte delas contando desventuras com o sexo oposto. Um suposto entendedor das angústias do coração comenta, e o locutor anuncia a próxima música. Penso que poderia ter escrito uma carta daquelas. Qualquer delas.

A madrugada avança e não consigo distinguir as canções. Embaralho refrões, cochilo, acordo, faço imprecisas associações. Sinto saudades de minha filha. Lembro ter deixado papéis importantes sobre a escrivaninha do escritório. Como estará Mariana a essa hora? Acordo: meu companheiro da janela pede licença. Última parada antes de subirmos a serra. Devo descer - ele aconselha, austero.

Tenho preguiça de levantar. Vejo através do vidro o asfalto encharcado. Havia aprendido que não pode chover o tempo todo. Um filme. “O Corvo”, talvez. Não consigo recordar a última vez que fora ao cinema. Assim que retornar, levarei Mariana. Resolvo descer.  Afixado à porta de vidro, um mapa mostra minha cidade. Resta pouco, penso. Agora não há mais chance de dar meia volta.

Chego ao balcão da lanchonete e peço outro café. O médico dissera pra diminuir, que poupasse o estômago.  Fico devendo: duplo, por favor. Tento imaginar o que farei, quem procurarei primeiro, que palavras direi. Dois dias serão suficientes?  Me sinto atuando em uma peça ainda por escrever. O que diria Barbara? O balconista intervém: açúcar ou adoçante? Puro, amigo. Sinto falta do amargo. Sempre sentira.

sábado, 8 de junho de 2013

O ateliê de Alice

Visões, alucinações, cores e movimentos. Nada passa batido pelo astuto inconsciente de Alice. Sua arte, vinda da inquietude da alma, reproduz a vida e a morte de desconhecidos. Pessoas que passam a fazer parte de suas intermináveis madrugadas que acabam sempre em manhãs sonolentas e dias arrastados.

Foi em uma destas madrugadas em claro que Alice deu vida à sua primeira arte: o cruel assassinato de Ana Muniz, amante do excêntrico Luiz Felizberto, um empresário do setor hoteleiro do Rio de Janeiro.  A atriz pornô foi morta, amarrada à própria cama e algemada pelas pernas e braços. Nua, sua fisionomia apavorada dá o tom de terror à tela pintada. Até parece ter nascido pelas mãos do próprio assassino. Ao redor, policiais e suas fisionomias perplexas buscam vestígios para iniciar a investigação.

Outra tela retrata o caos de uma cidade devastada por um ciclone. Casas reviradas, destroços pelas ruas, pessoas arrancadas de suas famílias. Uma trilha de sofrimento com um céu acinzentado de arrepiar a alma. O cheiro da fumaça vinda da fuligem e da carne queimada ao acaso entope os pulmões. Não dá pra respirar. Alguns instantes e é possível sentir espinha acima o clamor, o pedido desesperado por ajuda e as despedidas silenciadas pelo horror da tragédia. Pilhas de corpos. O grande vento silenciou tudo em volta.

São muitas as telas espalhadas pelo ateliê de Alice. Estão prontas para serem servidas a um público seleto, os abutres, apreciadores de uma arte que revela a miséria e a tragédia humana. A exposição é um sucesso pelo tom de realismo que a artista projeta a cada peça. 

As telas de Alice, resultado de uma inspiração vinda de noites em claro, são despertadores que clamam por revelações. Uma força que a tira da cama e a joga entre telas vazias, cores e pincéis. Ela pinta compulsivamente, como se atendesse a um chamado e, ali mesmo, aos pés de sua obra, desmaia em sono profundo quando um novo dia começa a despertá-la. Uma soneca apenas, o suficiente para esvaziar a mente e fazê-la estremecer com o que vê.    

Alice seria apenas mais uma artista se não fosse por uma razão: sua insônia, que lhe rouba as noites e o sossego, reproduz notícias de grande repercussão. As cenas seriam facilmente retratadas por uma artista de talento como ela. Entretanto, sua arte premonitória, ao ganhar fama e os corredores das redações, entra na mira da polícia. Alice seria apenas alguém que perde o sono na madrugada e pinta para fazê-lo voltar? Era isso o que ela imaginava até um dia, inexplicavelmente, despertar de uma soneca com as mãos ensanguentadas.


Regina Rozin
(Insônia: quando as histórias se fazem e desfazem)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Insonia- modificado conforme aula de 23/05

INSONIA - modificado
Betina Lima Niemeyer

Era um beco asfaltado e um tipo de neblina impedia-me de enxergar o que havia em torno, talvez edifícios pequenos, não sei, o que sei é que o lugar estava deserto, mas eu sentia a presença de alguém pelo calor que esta presença transmitia. A neblina deixava tudo confuso, mesmo assim, eu consegui ver, na minha frente, duas mãos e, como se fosse em câmara lenta, as mãos foram subindo até a altura do meu rosto, envolveram meu pescoço suavemente e aos poucos começaram a apertar com força minha garganta, com tanta força, que eu não consegui mais respirar.
Tossindo, sufocado e com o coração aos pulos, acordei. Sentei na cama e fiquei alguns segundos paralisado, zonzo de pavor e grudando de suor. Mais uma vez, era o pesadelo, que vinha em versões diferentes: Ora era a chave de casa que eu procurava, mas não achava, ora era um telefone que eu precisava usar, mas não conseguia mover os dedos. O que os pesadelos tinham em comum era que eu sempre acordava e não conseguia dormir novamente. Acendi a luz da cabeceira e resolvi beber agua na cozinha. No caminho, passei pelo quarto da minha irmã, que dormia de boca aberta. Parei na porta e senti inveja dela, inveja daquele sono profundo, pensei em como a vida devia ser fácil de ser vivida e dormida quando se tem certezas!
Enquanto eu bebia vagarosamente o copo d’água, pensava em cada um dos quatro habitantes daquela casa. Meu pai, o engenheiro que raramente estava em casa, mas quando estava era distante e frio, minha mãe, a médica sempre ocupada com plantões e consultório, minha irmã, uma pessoa objetiva e direcionada que, ainda criança, tinha um quadro negro e alunos (eu e as bonecas) para quem ela dava aulas. E a família completava-se comigo: O estrangeiro dentro da própria casa, aquele que precisava decidir que curso universitário iria fazer. Eu; o cara que sempre odiou tudo que dizia respeito às matérias escolares, eu; que gastava horas esboçando desenhos, eu; com minhas espinhas, minha introversão, o skate e os grafites solitários pela cidade, que meu pai, com o olhar indiferente por trás do jornal, um dia classificou como: “coisa de bandido, de vagabundo que não deu pra nada na vida”.
Em pé na cozinha, voltei a pensar no pesadelo e, subitamente, me veio à boca um amargor que misturava fracasso com inadequação, naquele instante, pesou dentro de mim uma impressão de estar vivendo a época errada no lugar errado. Ao mesmo tempo, tive a certeza de que as paredes do apartamento se aproximavam e iriam espremer meu corpo, lentamente. Sem raciocinar, sai porta afora e só consegui respirar de novo quando já estava na rua, cruzei a avenida e encontrei a praça, um lugar querido da minha infância. Sentei-me num dos bancos e o ar limpo me encheu os pulmões, olhei em volta e o lugar estava quase deserto. Um senhor se aproximou e sentou ao meu lado. Por uns instantes ele nada disse, como se procurasse a melhor maneira de começar, quando falou, achei que ele estava bêbado, pois a voz era pastosa, mas não havia odor de álcool:
- A solidão é um bem tão precioso que devia ser obrigatório, mas tem vezes que ela vira uma megera, vira uma péssima conselheira.
Fez um muxoxo e, ajeitando-se no banco, continuou ainda mais arrastado:
- Nossa mente consegue aumentar os problemas, consegue fazer eles insolúveis, principalmente se os problemas nos acordam no meio da noite.
Quando voltei meu olhar para o homem, fiquei surpreso, pois ele não era tão velho quanto eu imaginava, era apenas mal tratado, talvez morasse na rua, não sei. Da distancia que eu estava, percebi que o seu olhar era quase liquido, por conta da catarata e fiquei comovido com aquela figura e mais ainda com o que ele falou. Fiquei sem saber se deveria dizer algo, mas ele, talvez sentindo minha hesitação, disse:
- Tem algum dinheiro pra mim?
- Não, não tenho. Se tivesse eu certamente te daria, mas saí de casa sem dinheiro nenhum.
O desconhecido, sem dizer nada, levantou, cambaleou, mas encontrou o prumo e, pé ante pé, sumiu na escuridão.
É estranho como as madrugadas apresentam personagens prisioneiros desta hora, seres que só fazem sentido se existirem nesta hora do dia. Pensei no que o homem disse e percebi que eu conseguia me apropriar daqueles pensamentos, eles faziam todo sentido para mim. Fiz um paralelo com as raras conversas que eu tinha com o meu pai, quando ele sempre me tratava como um incapaz e me fazia sentir pior do que eu estava antes de conversar com ele. Como no dia que sentei ao seu lado, num dos escassos momentos em que ele parecia disponível, e tentei dizer que não me sentia seguro para escolher uma carreira. Mas foi apenas uma tentativa, porque ele, antevendo o rumo que a conversa ia tomar, cortou a conversa valendo-se de uma frase feita, que repetia incansavelmente:
- A perseverança é a virtude pela qual todas as outras virtudes dão fruto.
E continuou com a voz grave:
 - A sua obrigação é estudar, não tente mudar o que você não pode.
E, sem dizer mais nada, cravou os olhos novamente no jornal.
 Ainda na praça, vagando entre meus pensamentos, comecei a achar que eu talvez fosse um cara tão inadequado, que tinha perdido ate mesmo o direito de ser um personagem que existe apenas em uma determinada hora do dia.
Os dias que se seguiram foram de sono irregular e pesadelos mais frequentes, alguns eu conseguia lembrar, outros não, mas todos me despertavam no momento em que havia uma situação limite. Raras eram as noites que eu conseguia encarar a insônia pós-pesadelo em casa, quando isto era impossível, eu pegava qualquer coisa que me servisse para desenhar e andava ate a praça. Uma noite, sentei num dos quatro bancos que cercavam as mesinhas de granito, e, quando ia espalhar meu material sobre a mesa, reparei que havia um grupo de pessoas reunindo-se. Eram pessoas de todos os tipos, eram barulhentos e, a cada momento, chegava mais alguém. Fiquei observando de longe quando uma jovem, que parecia ser a líder do grupo, se aproximou de mim perguntando:
- Você esta conosco, não é? Nós queremos todos juntos ali porque já vamos indo...Não podemos ficar muito tempo aqui na praça. A policia está sempre pronta pra dar o “bote”...vamos...
- Eu...
- Você faz parte do grupo dos desenhistas sem fronteiras, não é? Nosso grafite hoje vai ser no muro da escola pública ali da outra rua.
Dito isto, ela esticou a mão na minha direção e disse:
- Vamos?
Novos “personagens prisioneiros” em seu próprio contexto, mas, desta vez, este também era o meu contexto! Os “desenhistas sem fronteiras” eram artistas como eu não sabia ser também, eles eram a turma que eu procurava, sem saber, há muito tempo.  
Minhas noites de insônia passaram a ser bem frequentadas, o que não tornou menos reais minhas próprias assombrações, que continuavam a existir dentro de mim e dentro de casa, e teriam que ser encaradas em algum momento. Eu, ao menos, me livrei dos pesadelos e sentia na pele que, quem vive com pelo menos uma certeza, vive muito melhor!

sábado, 25 de maio de 2013


o estranho
(tema: Insônia)
Robson Aguiar

Desiste de tentar dormir e levanta-se. Sente o corpo moído, cansado dos dias trabalhados a mais. Afasta com delicadeza o lençol, tentando não despertar a mulher. Passa pela sala e observa as cachorras em suas camas de patchwork. Acaricia suas barrigas com os pés e as bichinhas se refestelam. Tenta recordar a última vez que as levara pra passear.

Chega à cozinha, abre a torneira do filtro e observa a água pingar do filtro de marca exótica, comprado no canal de compras da televisão. Ou teria sido no site de compras coletivas? Não se lembra. Na verdade, não sabe. Perguntaria depois à mulher. Há quanto tempo aquela vela não era trocada? Precisava descobrir.

Volta e pára em frente ao quarto da filha. Ouve um ronronar suave. Entra, acomoda-se à beira da cama e observa. Acaricia seus cachos negros, quase com medo. (O que diria, deus, se acordasse?) Admira a beleza juvenil da menina, o viço sedutor da adolescência. Sobre a mesa de estudo, fotos organizadas em um quadro metálico. Ilumina com o celular, tenta identificar os amigos da garota. Não reconhece mais aqueles rostos. Estaria sua filha namorando algum daqueles meninos? Distrai-se, tentando adivinhar o tom pastel das paredes, algo entre o azul e o verde....



Resolve ir à varanda, contar as janelas iluminadas da madrugada. São poucas, e o movimento quase nenhum.... Uma ou outra tela de computador acesa, contatos virtuais em frenesi. Imagina o sono daquelas pessoas no dia seguinte, zumbis urbanos movidos a café, guaraná natural e outros estimulantes sintéticos. Pensa que elas deveriam dormir, e imediatamente se dá conta de que falta muito pouco para amanhecer.

Volta à cama e observa a mulher sob o lençol semitransparente. Admira seu rosto, lembra de sua beleza. Acaricia a pele, afaga coxas e bunda, sente vontade de dizer que a ama, de tocá-la intimamente. Não demora muito a perceber que não era ocasião de resgatar os muitos anos de vida esquecida. Afasta-se, ocupa seu lado na enorme cama king size e puxa o caderno de esportes da pilha dos jornais não lidos.

Logo abandona o jornal e abre o computador portátil. Ao navegar em uma de suas redes sociais, se depara com inúmeras mensagens que ensinam como se portar e conduzir a vida. (No colorido das imagens e dos textos, viver nem parece ser assim tão difícil). Fecha a máquina e pensa no que ainda lhe resta. Com o quê, afinal, poderia contar? Por ora, apenas a certeza de não dispor de muito, a insônia persistente, e a impressão de estar sempre à margem do fio da meada.

Rio de Janeiro, 23-24/maio/2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A mais longa das noites


(a partir de “insônia”)
Flávio Limoncic


Muito embora a semeadura, em abril, fosse época de muito trabalho, era na colheita, entre outubro e novembro, que o mundo girava em torno do milho. A prefeitura, agências bancárias, igrejas, escolas e clubes, mesmo os velórios, tudo exalava o cheiro das diferentes famílias de grãos, dos amassados aos encerados, passando pelos macios e os açucarados. 

Para crianças e adolescentes, a coroação da rainha do milho era o ponto alto da estação. Ainda que sardas e pernas compridas fossem bastante apreciadas (servindo ocasionalmente como critérios de desempate), a competição era geralmente vencida pela menina cujos cabelos tivessem a cor mais próxima da de uma espiga. Numa das coroações, atrás da barraca de ponche, passou a mão no peito de um garota. Beijo na boca já tinha dado, na prima, muitos e intermináveis. Mão no peito, nunca. Quando quis descer a mão, coração a mil, a menina, qual mesmo o nome dela?, não deixou. Sonhou com ela durante meses. Nos sonhos, ela não só deixava, como até pedia. 

A melhor estação do ano era o verão, com suas infinitas horas de luz e banhos de lago. Era quando as meninas tiravam seus casacos, luvas e cachecóis e era possível ver, ainda que por breves semanas, a textura das suas peles e a geometria dos seus corpos. O que não via, imaginava depois, sozinho, no banheiro. E foi no verão dos seus dezoito anos que o Pai o chamou para uma conversa. Pensou que fosse justamente falar de como, quando e o que com as garotas, mas não. Falou da fazenda, do amor que sentia pela terra, de como conhecia cada palmo da propriedade que pertencia à família desde que seus antepassados mataram ou expulsaram, ele não tinha bem certeza, o último dos Potawatomi. Um dia, a fazenda seria dele, precisava ter noção da luta que era para manter tudo funcionando, o silo, o trator, o depósito de combustível, os implementos, fertilizantes e defensivos, pois não bastava mais a um fazendeiro, em 1943, conhecer as estações do ano e o regime das chuvas, tinha também que saber dirigir, consertar equipamentos e manipular produtos químicos. E se não quisesse pôr tudo a perder, tinha, sobretudo, que dominar as quatro operações básicas, pois uma serpente traiçoeira, a quem só o cálculo impessoal interessava, rastejava à espreita, pronta para o bote: a Bumpbell’s. Desde que abrira um escritório na cidade, a Bumpbell's se tornara a única compradora de milho de toda aquela região do Meio-Oeste, impondo preços e arruinando fazendeiros. E, por trás da Bumpbell's, os especuladores da Bolsa, agentes hipotecários, fiscais sanitários,  gerentes de banco, representantes comerciais e vendedores de seguro, católicos e judeus da Costa Leste todos eles, obcecados por manter os sapatos sempre limpos, sem vestígio de terra, estrangeiros ainda que nascidos no país, alcoólatras, coletivistas, comunistas e ateus, parasitas e criminosos de toda sorte. Por isso, mesmo os avós gostavam muito da coroação da rainha do milho. Por alguns dias, sentiam-se fazendeiros à moda antiga, inocentes de comércio, rifle numa das mãos, arado na outra. Americanos.  

As pálpebras fechadas, se não foram garantia de sono, ao menos refletiram, como telas de cinema, cenas da vida de um garoto descobrindo o mundo. Agora, no entanto, às três da manhã, a cólica, daquelas em que o cocô fica girando desgovernado pelas curvas do intestino, trem cego na escuridão, torna dolorosa a vigília. E, como se não bastasse esvaziar-se por baixo, esvazia-se também por cima. Às três e trinta, vômito. Pingos de diarréia e de vômito em torno da privada. Não. Em todo o banheiro, mesmo longe da privada. Mesmo fora do banheiro, no longo caminho até a cama. Na cama. Em dezenas de camas do imenso dormitório. 

Àquela altura, o que tinha de ser, estava feito. As semeaduras e colheitas, o que ficava entre, o que aprendera com o Pai a ser e a fazer no mundo, tudo é irrelevante. Só o futuro é importa. E, claro está, não o futuro de muitos anos, depois de incontáveis semeaduras e colheitas, tampouco o do médio prazo, do ser e fazer no mundo o aprendido com o Pai, mas o futuro das próximas horas, em que a ordem dos últimos meses - um presente pelos seus dezoito anos, enviado pelo Exército em forma de telegrama -, organizada em torno de normas e rotinas destituídas de sentido, dará lugar à ausência mesma de normas, à suspensão de todas as rotinas, ao território da mais completa falta de sentido. 

É preciso, portanto, manter os olhos abertos, encarar de frente o que lhe está reservado: tem quase dezenove anos e, embora seja novamente verão, o de 1944, nenhuma menina o espera numa tarde ensolarada, na beira do lago, pronta para recebê-lo, mas morteiros e balas numa praia cinzenta da Normandia, cujo nome sequer conhece, mas cujo codinome, para o bem ou para o mal, sabe que entrará para a História: Omaha. Então, que esse verão sem sol e que Omaha e a História tomem todos bem no meio do olho do cú e, junto com eles, o Dia D e todos aqueles que acham que têm o direito de mandar nele, de gritar com ele, do presidente, que o Pai garante ser acionista da Bumpbell's, ao filho da puta do sargento, assim como suas respectivas e inteiras hierarquias civis e militares, e também quem fez a porra da meia que causou uma bolha no calcanhar, pois todos enchem a burra de grana, a Bumpbell’s e a fábrica de meias, mas quem vai se foder é ele, que sequer distingue o bigode de Stalin do de Hitler, que só entende de milho, que gostaria de entender de boceta (nem que apenas o básico), e de sentir de novo o gosto do chocolate quente, forma líquida que a Mãe encontrou para demonstrar algum afeto, e também de enfiar a língua na boca da prima até a garganta dela, pois desde que ela soube da história da mão no peito da outra garota nunca mais quis beijá-lo, mas tudo vai desaparecer, a Mãe, a garganta da prima e todas as bocetas do mundo, será que o babaca do cabo vai ter coragem de descer a rampa da embarcação-de-assalto?, isso é, não desaparecerão, a Mãe, a garganta e as bocetas, ele é que não vai mais estar no mundo para tentar abraçá-la, tocar-lhe com a língua e enfiar-se nelas, assim como para desvendar o grande mistério que o assombra desde que seus pentelhos cresceram e que consiste em saber se meninas também têm pentelhos e, se tiverem, se são da mesma cor dos cabelos, porque se forem, a menina em cujos peitos passou a mão na coroação da rainha do milho tem pentelhos mais vermelhos do que um cravo. O soldado da terceira cama do lado esquerdo aperta um crucifixo. Será que o Pai estava errado quando disse que o Papa é o maior fomentador de guerras?

Quatro horas: toque de despertar. Quatro e trinta: ordem unida. Cinco horas: embarque. Garganta e olhos ardem, merda e vômito transbordam, o suor transborda, tudo-transborda-ao-mesmo-tempo-por-todos-os-buracos, mijo inclusive. Pelo menos o pau está quentinho. Será que dentro de uma menina é assim, molhado e quentinho? Talvez nunca saiba. 

O que sabe é que, na remota hipótese de sua sobrevivência, os cheiros de urina, fezes, suor e vômito vão se amalgamar aos de pólvora, querosene e sangue para produzir o odor que trará para sempre consigo, que nem água sanitária será capaz de combater e que o obrigará a conviver, em arriscada proximidade, com o espectro da própria morte. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Epifania


Conto alterado de acordo de acordo com sugestões da aula passada: 

Do jardim fértil, novas vidas eram geradas, vidas que brotavam para trazer novas vidas a rodeá-lo. No mesmo gramado, bebês engatinhavam onde mais tarde caminhariam de braços enlaçados, e então, trariam seus bebês para engatinhar, os mesmos que acompanhariam seus pais algum dia nos passeios matinais, num ciclo sem fim.

Helena não era parte de nenhuma daquelas histórias. Há 20 anos observava o jardim. Acompanhava  as histórias em pedaços contadas ali para depois embrenhar-se em cada uma delas, imaginando suas continuações. Contava e recontava para si mesma a vida daquelas pessoas, como se estivesse vivendo a sua própria. 

Única filha entre 4 irmãos, Helena cuidara da mãe durante aqueles 20 anos todos os dias, todas as horas e todos os minutos tirando os em que descia para o jardim. A doença a cada dia roubava um pouquinho da memória da mãe, de modo que pouco a pouco filha virava mãe que virava um corpo oco. As duas cada dia mais ocas: a mãe que perdia a memória e a filha não construía nenhuma, solidária. Sua função única era acompanhar a mãe desaparecer, cada dia mais, até virar um fantasma a vagar pela casa assombrada. Assombrada um pouco por medo da morte, mas principalmente por medo da vida. 

Naquele domingo inédito, Helena não seria plateia no palco-jardim. Só precisava de um banco e uma árvore para esconder seu rosto na sombra. A mulher chorava compulsivamente. Revivia na memória a mesma cena diversas e diversas vezes: o corpo de sua mãe sendo sugado para dentro da terra em um jardim ao revés.

Iam embora com ela os dias de chuva que ensolaravam-se em segundos quando de repente a mãe contava, depois de dias e dias em silêncio, do vestido que Helena usara no primeiro dia de aula. Iam embora com ela as noites que varou, os gritos que abafou para não acordar os vizinhos, cada vitória sobre a doença e cada derrota. Iam embora com ela suas histórias, seus sonhos, suas broncas, suas lágrimas.

Começou a sentir a saudade entalada em sua garganta subindo, virando angústia, pânico, falta de ar, e uma ânsia incontrolável a fez vomitar. Ninguém teria visto a cena se não fosse por um homem que a observava de longe há alguns minutos. João se levantou, andou ate ela e lhe ofereceu um lenço e um sorriso.

A história de João estava ligada a cada flor, borboleta e árvore do jardim. Conhecera a esposa na infância. Brincaram ali, ele, Vera e os amigos, de pique-esconde. Vera era a sempre a primeira a ser encontrada, mas João não a deixava perder. Ficava no pique em seu lugar, de olhos fechados contando, enquanto as crianças se escondiam novamente.

Os dois começaram a namorar muito jovens, e ficaram noivos por longos anos até terem condição de se responsabilizarem por suas próprias vidas. O casamento foi festejado no jardim, logo depois da cerimônia na igreja próxima. Não demorou até nascerem os meninos, que cresceram saudáveis e felizes, tão rápido como João ou Vera jamais teriam previsto.

Nos últimos anos viviam juntos apenas os três na mesma casa de tantos anos. João, Vera e o raro tipo de amor que os unia, lapidado a cada dia pela erosão do tempo. Quando a escultura finalmente ficou pronta, o tempo julgou ser hora de levar um deles, e escolheu Vera. Dali em diante, João parou de viver por meses, até aquele domingo.

O domingo em que ele e Helena se viram pela primeira, e pela última vez. Conversaram por muitas horas até a noite cair. E inspirados pela luz das estrelas vinda de longe para desenhar, no momento exato, um céu planejado há milhares de anos, convidaram-se para dançar. E embora nenhum dos dois tivesse dançado antes em um jardim observados pelo céu estrelado, souberam exatamente o que fazer naquela noite. E em todas as outras subsequentes.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O amor de Luisa


Quando o casamento de Luisa acabou, há quase dez anos, descobriu que era forte o suficiente para superar a traição, a humilhação e uma mágoa profunda. Mas fraquejou ao lidar com o fracasso no amor, afinal, acreditava ser para a vida toda. Um ano depois da separação, sentia que era o momento de tentar de novo, hora de redescobrir o sentimento que a apunhalou pelas costas.


Nessa nova etapa, Luisa quebra a cara algumas vezes e chega até a se relacionar com Marcos, um homem interessante, mas que não a atrai. Apesar disso, tenta se apaixonar, pois acredita ser possível treinar o coração para amar novamente. Não dá certo e, mais uma vez, se magoa e machuca outra pessoa. O que não esperava é que esse cara lhe daria o maior de todos os conselhos: “Não existe ninguém perfeito e, se continuar acreditando nisso, passará o resto da vida procurando alguém que não existe”.

Depois do alerta, recebeu outro conselho de Chico, um colega de trabalho. Devia abandonar os livros de auto-ajuda no amor, levantar a cabeça e acreditar no próprio potencial de ser feliz. Dias depois, o colega enviou uma agenda telefônica e um bilhete que dizia: “Fiquei revoltado. Como pode uma garota como você ficar de baixo-astral e (argh!) estar lendo livros de auto-ajuda? Você não deveria ler sobre planetas distantes (Marte e Vênus), sobre polvos, cobras e lagartos. Nos momentos em que precisasse de um ombro, deveria apenas pegar seu caderninho de telefones e escolher o nome da vez”.

Além do caderninho que Chico, como patrocinador, fez questão de preencher todas as letras com o próprio nome, ainda lhe deu um livro sobre as paixões com uma dedicatória especial: “A paixão é um sentimento que tanto nos eleva como nos derruba. Curtir uma grande paixão é sempre muito bom, mas ‘descurti-la’, quando tudo termina, é melhor. Apesar de tudo, o mundo ainda merece continuar vendo o sorriso no seu rosto”. As lágrimas presas há tempos se libertaram.    

Luisa sentiu um estalo. Chico estava certo. Era preciso coragem para seguir em frente. E foi revirando suas lembranças, depositadas em uma caixinha de recordações, que Luisa encontrou cartas, cartões, memórias. Veio à cabeça a saudosa lembrança de amigos, ex-namorados, da família... Um turbilhão de momentos inesquecíveis que adormeceram no tempo. É o caso do cartão postal enviado de Paris pela amiga Clarisse que, além de mostrar a luz da cidade e do amor que estava vivendo, pedia para a amiga se cuidar. “De vez em quando perca o juízo, mas nunca deixe de ter amor próprio”.

A madrugada avança e Luisa mergulha na caixinha.  Lembranças que a inspiram e ajudam a entender mais sobre o amor. Ri de si mesma, da tolice de ter esquecido que não há amor maior do que se olhar no espelho. Fez isso longamente, até se perder entre risos, choro e recordações. Finalmente, Luisa reencontra o amor. E, desde então, procura cultivá-lo todos os dias à frente do espelho. O amor próprio foi o maior presente que podia se dar. Adormeceu criança, acordou nova mulher.

Nos meses seguintes, Luisa saiu da toca inúmeras vezes. Até que certa noite convidou-se para jantar em um bom restaurante italiano. Deliciou-se com massa e uma generosa taça de vinho. A bebida ajudou a relaxar, rir de si mesma, fazer amizade com o garçom. Distraída em pensamentos, devaneios e na satisfação do momento, Luisa é bruscamente despertada pelo garçom ao lhe entregar um bilhete: “vejo que está em boa companhia, posso acompanhá-la no café?”.        

Regina Rozin
(Uma história de amor)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Amores cruzados



(a partir de “uma história de amor”)
Flávio Limoncic  


Feivel foi se fazendo necessário aos poucos. No início, levava apenas água. Depois, lenha e comida. Também começou a fazer pequenos reparos no telhado. Quando Nadia deu por si, já não   sobreviveria ao inverno sem ele. Por isso, e porque eram nove horas e ele não aparecia e sobre a mesa só restava um pedaço de moela, teve que se controlar para não cair em desespero. 


Cerca de dois meses antes, ele pedira para passar a noite. Nevava muito e ela não teve como recusar. Abraçou o filho na cama estreita, ao passo que ele se deitou no chão. Após alguns instantes, uma respiração ofegante cortou o silêncio. Ela se agarrou ao filho, coração na boca, olhos atentos na escuridão. Não trocaram palavra, mas o ritual repetiu-se algumas vezes, até que uma noite ela também ofegou. Pensando-se desejado, Feivel se lançou sobre ela, mas foi rejeitado com vigor. Confuso e humilhado, recolheu-se e partiu sem nada dizer.  

Não apareceu nas semanas seguintes. Além de cuidar do bebê, Nadia teve que colher ovos, supervisionar armadilhas de coelhos e buscar lenha e água. Seus dedos ficaram feridos, o nariz sangrava, as costas doíam. Rezou para que ele voltasse.  

Ele voltou, mas exigiu seios, coxas e pelos. O preço, alto, foi pago sem regateio, mas de olhos fechados. Nadia aguardou a curra. Nada aconteceu. Abriu os olhos. A um canto, costas contra a parede, Feivel se esfregava com a mão fria. Dois dias depois, quando voltou, Nadia tirou o avental antes mesmo que ele pedisse, pensando que um novo ritual havia se estabelecido. Estava enganada: desviando o olhar e mandando-a se vestir, Feivel pediu perdão e, de forma confusa e atabalhoada, declarou o seu amor. 

A princípio, Nadia sentiu repulsa. Não por muito tempo, pois ali estava ele, tão esquecido pelo mundo quanto ela. A verdade é que se ele se aproveitara da sua situação, também expusera, e de forma ainda mais humilhante, sua completa destituição de tudo. Não menos importante, ao contrário do Conde, que a violentara através de outros homens, ele utilizara apenas seus olhos e sua mão. Enfim, apesar de tudo, cuidava dela e de seu filho com zelo e precisão. Diante das circunstâncias, o que mais poderia pedir? 

Apenas uma coisa: que ele lesse o bilhete deixado por Leizer. Poderia até aceitá-lo em sua cama, quem sabe se afeiçoar a ele, mas precisava saber a razão pela qual havia sido abandonada, pois se recusava a aceitar que Leizer fugira por ter-lhe feito um filho. Feivel hesitou. Depois, leu o bilhete uma, duas, três vezes para si próprio. Por fim, leu em voz alta: 

Meu pai, 
Esta é Nadia, que traz meu filho na barriga. Não peço que os ame, apenas que cuide deles na minha ausência. Volto para buscá-los quando houver encontrado uma vida melhor para todos nós. Leizer  


Então Leizer os amava, desafiava o mundo para resgatá-los daquele pedaço de fim-de-mundo! Nadia abraçou o bebê, sentindo que a ordem natural das coisas, temporariamente suspensa, fora restabelecida. A felicidade plena, porém, logo se fez acompanhar pela consciência da fragilidade sobre a qual se baseiam as coisas da vida, pois teria bastado a Feivel omitir ou acrescentar algumas palavras para que toda a sua ordem, por mais natural que lhe parecesse, ruísse.  


Nadia sabia existirem muitos homens capazes de amor e arrependimento. De um ato de renúncia, poucos. E um deles estava bem à sua frente, olhando-a com olhos tristes. 

Aproximou-se dele e beijou-o na face. Depois, peça por peça, despiu-se em silêncio, vagarosamente, até ficar completamente nua. Trêmulo de emoção, Feivel precisou, como um menino, de ajuda para abaixar as calças. Ela o abraçou, envolvendo-o. Delicadamente de início, depois com uma audácia de que não se sabia capaz, Feivel cobriu-a de beijos e carícias, na ânsia de abarcá-la toda ao mesmo tempo e por todos os lados. Ao menos uma vez a teria, pernas abertas para ele, e ele, para quem nenhuma mulher jamais abrira as pernas, que sequer os braços abrira, viveria o momento da sua vida, desejando, a um só tempo e com a mesma urgência, o que sabia impossível: regá-la abundantemente com seu sêmen e evitar para sempre o gozo, pois quando este chegasse, tudo acabaria.


O bebê chorava, assustado com o barulho e o movimento. Feivel, esgotado, sentou-se por alguns instantes perto do fogão. Quando se recobrou, perguntou a Nadia, que amamentava o filho, o que era preciso providenciar para dali a dois dias.

Apesar do frio, Nadia abriu a porta, tentando adivinhar a silhueta de Feivel recortada na noite escura. Nove e meia. Desapontada, olhou para o chão. Foi quando viu, do lado esquerdo da porta, a cesta com água, lenha e codornas. 


Não tornariam a se ver até o fim do inverno, mas ele a manteve alimentada e aquecida até a chegada da primavera.